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Como a esquerda ganhou as eleições

Quando e como o campo progressista chegou às casas legislativas

POR VINICIUS GOMES

Na eleição mais tensa da Nova República, candidaturas progressistas driblam o apelo conservador, e chegam ao Legislativo com inovação, cooperação e muita coragem.

Desde as Jornadas de Junho de 2013, a palavra renovação esteve presente em quase todos os lugares quando o assunto era política – das rodas de debates e manifestações nas ruas aos grupos de WhatsApp e mesas de bar.

Cinco anos depois ela veio, e de maneira inegável. O ano de 2019 será aquele com a maior taxa de renovação nos quadros do Congresso Nacional. Na Câmara dos Deputados, pouco mais da metade de seus assentos serão ocupados por novos rostos. No Senado Federal, esse efeito foi ainda mais avassalador: das 54 vagas abertas em 2018, 41 foram conquistadas por novos nomes. Isso significa que, em média, de cada quatro senadores buscando a reeleição, apenas um teve sucesso.

No entanto, quem melhor soube surfar essa onda foi o conservadorismo. Entre as inúmeras análises, apontou-se que isso é um reflexo de nossos tempos, tanto no Brasil quanto no resto do mundo há um avanço da direita e de sua extrema no cenário político. Outros indicam que tal onda conservadora se avolumou por conta do verdadeiro tsunami de fake news – um estrangeirismo adocicado para o que costumávamos chamar de mentira – que foram propagadas com maior facilidade devido as redes sociais, especialmente o WhatsApp.

Seja como for, também tivemos algumas ótimas notícias. Inúmeras candidaturas do campo progressista surgiram e buscaram maneiras inovadoras para driblar a forte polarização política para se comunicarem de maneira eficaz e conquistar o apoio do público, tanto para o engajamento nas redes, mobilização nas ruas e apoio financeiro.

Algumas dessas candidaturas conseguiram ser eleitas, outras não, mas que ainda assim foram gratas surpresas. Mas todas elas indicam que não só no Congresso, mas também nas Assembleias Legislativas das capitais, há esperança para quem não enxerga nessa guinada conservadora a melhor saída para o país.


“RUAS, REDES E RODAS” –
Marina Helou – Deputada Estadual – Rede/SP –39.839 votos

Após ficar de fora da Câmara dos Vereadores paulistana em 2016, por conta do coeficiente eleitoral, Marina Helou, decidiu participar de mais uma eleição. E agora, ela não estava disposta a correr o mesmo risco de novo. Para isso, muita estratégia e inteligência quase cirúrgica foi implantada em sua campanha, que poderia ser dividida em um tripé composto por Ruas, Redes e Rodas.

Com base nas informações coletadas na eleição anterior, Marina focou seu trabalho de rua em espaços de maior densidade demográfica e de alto fluxo. Isso contribuiu também para as equipes de panfletagem que foram treinadas pessoalmente por ela para, mais do que apenas distribuir santinho, conquistar votos. Nas redes, a base era o conteúdo de suas pautas prioritárias, especialmente com um canal direto de comunicação via WhatsApp, com um número exclusivo para responder dúvidas e mensagens de eleitores.

Mas segundo Marina, as rodas de conversa foram o coração de sua campanha, onde o contato pessoal é maior e cria-se o real sentimento de confiança. “Os debates, as rodas nas casas das pessoas, nas universidades, os eventos, cada agenda dessa é a possibilidade das pessoas que me escutarem e virarem mobilizadores da campanha”, afirma.

Além desses três pilares, Marina também aponta o que ela chama de back-office como essencial ao planejamento e administração de uma campanha bem-sucedida. “É fundamental um bom coordenador de campanha para a gestão de todas estas frentes”, diz.

Uma das grandes lições que Marina aprendeu nessa campanha, e que podem servir para outras candidaturas no futuro, é sair das bolhas e da teoria: “É fundamental falarmos e nos conectarmos com as necessidades reais das pessoas e pensarmos soluções para isso”.


“O CONTATO É INOVADOR” –
Renata Souza – Deputada Estadual – Psol/RJ – 63.937 votos

 

Cria da Maré, feminista, negra e defensora de direitos humanos. Assim se define Renata Souza, ex-chefe de gabinete de Marielle Franco, e uma das quatro parlamentares eleitas que são oriundas do gabinete da vereadora, assassinada em março de 2018.

Em sua primeira campanha como postulante, Renata quis se manter nas ruas, conversando com as pessoas e ouvindo as demandas da população que sofre. “Nesse sentido, mobilizamos gente que luta para o desafio de eleger um projeto político que supere as desigualdades sociais, em especial a de gênero, raça e classe”, ela conta.

Daí surgiu o engajamento de pessoas que pudessem contribuir para a vaquinha virtual, a fim de cobrir custos com a panfletagem. Como quase regra dessas eleições, o uso do WhatsApp para potencializar essa mobilização, também foi adotado. “Mas ao contrário do disparo de mensagens em massa, mantivemos o nosso jeito afetivo e efetivo de fazer política. Vencemos no diálogo, com o olho no olho, com propostas concretas”, diz Renata. E é na rua que ela pretende se manter, em contato com as necessidades de cada mão apertada durante a campanha: “Estaremos nas ruas sempre, mas de maneira pedagógica. Entendendo que um mandato não se encerra em si, estamos disponíveis a construções coletivas”. Assim, para Renata, o inovador de verdade é esse contato. Por isso, agora eleita, ela pretende se manter nas ruas, sempre.

Inclusive, essa é a melhor dica que ela dá às futuras candidaturas progressistas: “Estar nas favelas, nos subúrbios, nas zonas periféricas e atender as demandas do povo. Não podemos fazer política de gabinete”, afirma.


“NA COLETIVIDADE A GENTE SE POTENCIALIZA”
Áurea Carolina (Muitas) –Deputada Federal – Psol/MG – 162.740 votos

 

Se o tema for inovação na política, ninguém melhor do que a primeira experiência de um mandato coletivo em uma capital, como o que ocorreu em 2016, quando o movimento Muitas elegeu duas vereadoras à Câmara Municipal de Belo Horizonte nas eleições daquele ano. É desse contexto que Áurea Carolina foi eleita deputada federal em 2018.

Repetindo a fórmula bem-sucedida, as Muitas lançaram doze candidaturas (5 federais, 7 estaduais), cuja composição diversificada convergiu no quesito de que todas as pessoas envolvidas tinham como histórico e cotidiano várias lutas populares. “A representatividade não só foi um princípio dessa construção, como também uma orientação para a atuação dos mandatos que nós conquistamos”, explica Áurea.

Além disso, há um processo e coordenação já enraizado nas Muitas, cujas campanhas de 2018 operaram coletivamente, no que elas chamaram de Ateliê Colaborativo, a fim de construir a comunicação, o processo jurídico, a gestão financeira e parte da mobilização e da articulação das campanhas: “A coletividade é porosa àquilo que é singular de cada candidata, e nela a gente se potencializa também dá condições e uma estrutura mínima para todas as candidaturas se apresentarem”.

Esse é um dos caminhos indicados por ela para que candidaturas progressistas possam ter mais fôlego para uma chance real de conquistar cadeiras nas próximas eleições, especialmente para ajudar candidaturas que tenham menos poder de inserção e de arrecadação financeira. “São infinitos desafios, mas estamos avançando e eu tenho muita esperança que nós possamos ampliar e potencializar esse campo da resistência popular que agora busca ocupar os espaços de poder com mais força e real capacidade de incidir sobre o sistema político”, diz Áurea.


OUTRAS CANDIDATURAS ELEITAS

 

Duas representantes vindas de São Paulo que ficaram entre as dez candidaturas mais votadas do Estado: Tábata Amaral (PDT), jovem prodigiosa de 24 anos, vinda da periferia paulistana e formada em Harvard, que obteve 264.450 votos; e Sâmia Bomfim (Psol), 29 nos, com 249.887 votos, que após oferecer incansável resistência na capital paulista como vereadora nos últimos dois anos, embarca para continuar a batalha na capital federal. No vizinho Rio de Janeiro, Marcelo Freixo (Psol) decidiu trocar a Cidade Maravilhosa por Brasília, conquistando 342.491 votos, sendo muito bem acompanhado por Talíria Petrone (Psol), outra oriunda do gabinete de Marielle, que arrebatou, de cara, incríveis 107.317 votos. Vinda do Sul do país Fernanda Melchionna (Psol), foi a vereadora mais votada de Porto Alegre em 2016, e, agora, segue rumo ao Planalto Central tendo conquistado 114.302 votos.

Na região Centro-Oeste, o destaque pode ser dado a única mulher eleita deputada federal pelo Mato Grosso, a professora Rosa Neide Sandes (PT), com 51.015 votos; no Norte tivemos talvez uma das melhores notícias do ano, com a eleição de Joênia Wapichana (Rede), a primeira mulher dos povos originários a conquistar um assento na Câmara com 8.267 votos, em Roraima. E claro, do Nordeste, a região que melhor incorporou a palavra “resistência” nessas eleições, com Marília Arraes (PT), jovem promessa do partido que concorria forte ao governo do Pernambuco até a alta cúpula petista decidir o contrário, foi a segunda mais votada para deputada federal com 193.108 votos, sendo seguida por Túlio Gadêlha (PDT), com 75.642 votos e Carlos Veras (PT), com 72.005 votos, os dois do mesmo Estado.

Nas casas legislativas estaduais, o Psol demonstra incrível potencial com candidaturas extremamente simbólicas: no Rio de Janeiro com Dani Monteiro, 27.982 votos, e Mônica Francisco, 40.632 votos, fechando a trinca do Efeito Marielle na Alerj. Em São Paulo, Erica Malunguinho, primeira mulher trans a se eleger com 55.223 votos, será acompanhada por Isa Penna, com 53.838 votos, e também pela Bancada Ativista, com Mônica Seixas formando o grupo de nove pessoas que dividirão o mandato, conquistando 149.844 votos.

Vale citar outro mandato coletivo composto por cinco mulheres em Recife, trata-se da Juntas (Psol), com 39.175 votos. Fábio Félix (Psol), primeiro candidato assumidamente homossexual a se eleger como deputado estadual no Distrito Federal com 10.955 votos, e Olívia Santana (PCdoB), primeira mulher negra a ser eleita para deputada estadual na Bahia, com 57.755 votos.

 

FIZERAM BONITO

 

Apesar de não se elegerem, gratas surpresas também surgiram nas candidaturas coletivas e femininas como o Mandato Coletivo Feminino (Psol/SP), com 12.843 votos, e o Mandato Coletivo (Rede/SP), com 129.146 votos, também formado só por mulheres, para a Assembleia Legislativa e o Senado Federal, respectivamente.

Falando em mulheres, nomes como Andréa Werner, (Psol/SP), jornalista e ativista pela defesa dos direitos de autistas e que conquistou 43.142 votos, Adriana Vasconcelos (Psol/SP), professora negra do ensino público que concorreu pela segunda vez e obteve 20.144 votos, ambas para deputadas federais; e Thaís Ferreira (Psol/RJ), com 24.79 votos, para deputada estadual, demonstraram um enorme potencial de engajamento para futuras eleições. Assim como Duda Alcântara (Rede/SP), jovem arquiteta e urbanista que, com 12.538 votos em sua primeira eleição, foi a segunda deputada federal com maior número de votos do partido, atrás apenas de Heloísa Helena, em Alagoas.

Outros candidatos de primeira viagem como Marivaldo (Psol-DF), Pedro Henrique de Cristo (Rede-SP) e Daniel Cara (Psol-SP) também mostraram força em sua primeira eleição, todos eles concorrendo ao Senado. Ainda houve o mandato coletivo formado pelo Mandato Cidadanista com Célio Turino (Psol/SP) com 9.074 votos em sua segunda campanha. Mas nenhuma candidatura bateu tão na trave quanto Douglas Belchior (Psol-SP), com 46.026 votos, que estava eleito na noite do dia 7 de outubro, mas que na manhã seguinte estaria fora da Câmara por conta do coeficiente eleitoral, entrando em seu lugar um candidato do PSL, partido de Jair Bolsonaro.

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