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Um chamado ao planeta

Permacultores, ativistas, indígenas e outros movimentos sociais se reúniram em evento no cerrado brasileiro para celebrar e construir o Ecco, um chamado de consciência e resiliência planetária

por THOMAS ENLAZADOR

Aconteceu no coração do Brasil, próximo da Chapada dos Veadeiros (GO), na pequena e misteriosa cidade de Alto Paraíso de Goiás, o Ecco – Chamado pela Resiliência Planetária –, um encontro que entrou na história do Movimento Alternativo Latino-Americano e para os Assentamentos Humanos Resilientes no Brasil. Pela primeira vez desde a criação da Rede Global de Ecovilas (GEN), o Brasil reuniu em um mesmo encontro o Casa – Conselho de Assentamentos Sustentáveis da América Latina –, o GEN, além de comunidades indígenas tradicionais, movimentos sociais, permacultores e ecoaldeias.

O encontro aconteceu dentro da modalidade criada no início dos anos 1990, no México, e reuniu, em conselhos temáticos, diversos ativistas, lideranças e representantes de distintas organizações oriundas de vinte países em um evento que fortaleceu a cultura da resiliência e o ativismo em rede.

O chamado teve seu objetivo cumprido, fortificando os movimentos dos assentamentos e iniciativas resilientes no plano regional, nacional e global. Ficou evidente a necessidade de uma mudança profunda no padrão de consumo e produção e na adoção de estilos de vida regenerativos. Faz-se necessária a construção de projetos que fortaleçam a integração entre movimentos e uma maior pluralidade e diversidade socioeconômica dentro do movimento. Esse é um dos caminhos para enfrentar os atuais desafios planetários que seguem avançando em marcha degradante e surpreendente.

Houve um grande intercâmbio de tecnologias sociais. O encontro que contou com cerca de 250 pessoas e mais de cem projetos foi realizado na sede rural do Instituto Biorregional do Cerrado – IBC, um instituto que tem quatro linhas principais de ação, focados na construção de uma ecoaldeia, um ecocentro comunitário, uma unidade de conservação dentro da sua área de preservação no território e ações biorregionalistas ligadas ao fortalecimento de políticas públicas locais.

Outro ponto de destaque foi a participação nacional e internacional de lideranças indígenas e tradicionais, como representantes das etnias Karajá, Xerente, Huni Kuin, Guarani, Kalungas, indígenas da Colômbia e nativos da África. De maneira complementar, também foi reafirmado o compromisso com a aliança multiétnica de permacultura Awire, que tem como missão levar a permacultura às aldeias indígenas e comunidades tradicionais, fortalecendo a presença dessas lideranças em cursos e eventos da rede e criando protocolos de apoio no design permacultural de aldeias e territórios.

Seguindo os passos de países como Colômbia, Bolívia, Equador e México, foi realizado um grande painel e se articulou em alguns conselhos a consolidação de um movimento brasileiro pela Declaração Universal dos Direitos da Mãe Terra. Estavam presentes o mexicano e ativista Alberto Ruz e a advogada ambientalista Vanessa Hasson, que entregaram para o superintendente de Meio Ambiente de Alto Paraíso e para o representante do Mandato Coletivo da cidade uma proposta solicitando a inclusão de Alto Paraíso como a primeira cidade do Brasil a adotar oficialmente os direitos da Mãe Terra em sua legislação municipal. 

INCÊNDIO E REAÇÃO

Eram pouco mais de 14 h do dia 11 de outubro (último dia do encontro) quando fomos surpreendidos com um incêndio de grandes proporções que se aproximava do território do IBC. A brigada voluntária do IBC, em conjunto com o PrevFogo, ligado ao Ibama, constataram que o fogo oferecia grande risco aos presentes e tivemos que orquestrar a evacuação imediata de todos os veículos e as mais de duzentas pessoas presentes. Uma boa parte dos participantes, incluindo pessoas que nunca haviam se deparado com tal situação, se juntou bravamente às brigadas e lutou durante quatro horas para impedir que o fogo avançasse e causasse maior estrago. Foi um teste original e auspicioso para essa rede que pretende se tornar uma referência em resiliência e design permacultural em catástrofes ambientais e climáticas.

Mesmo depois do término do Ecco, boa parte dos integrantes do IBC se juntou à Rede contra o fogo e esteve até o dia 29 de outubro em intenso combate no que foi um dos maiores incêndios florestais da história do cerrado e também uma das maiores mobilizações já realizadas pela sociedade civil organizada em brigadas voluntárias. Mais de 10 mil pessoas ajudaram direta e indiretamente nessa ação.

No que tange ao Brasil, o encontro fortaleceu muito a Rede Casa Brasil, que trabalhará arduamente para unir esforços na incubação e integração de iniciativas resilientes. O Casa está aberto para novos colaboradores e projetos, e uma das frentes será o apoio ao Fama – Fórum Alternativo Mundial da Água, evento que acontecerá em março de 2018 em Brasilia como contraponto ao Fórum Global das Águas regido pelas transnacionais que estão privatizando esse precioso e indispensável recurso natural.

Temos um horizonte auspicioso pela frente. As lutas são intensas e os retrocessos não param. Precisamos de mais chamados, conselhos de visões e iniciativas para florescer uma corrente de ativismo leve, próspero, feminino, plural e inclusivo.

Se não nós, quem?

Se não agora, quando?

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