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Retalhar para mudar

Conheça a Retalhar e descubra como a empresa liderada por Jonas e Lucas pretende jogar luz sobre políticas públicas no mercado têxtil

Quando surgiu a Retalhar? Conte-nos um pouco como o empreendimento social funciona?

A ideia surgiu em 2012 e a formalização se deu em 2014. Hoje, quase dois anos depois, somos seis pessoas na equipe e nosso modelo de negócio consiste na prestação de serviço de logística reversa de uniformes profissionais, em que as empresas descartantes nos pagam um valor por kg para garantirmos a descaracterização e a destinação ambientalmente adequada de uniformes profissionais. Temos orgulho em dizer que todo material que recebemos é reutilizado ou reciclado, nunca encaminhado para aterro sanitário. Sob a ótica do trabalho, toda a mão de obra técnica de costura é proveniente de cooperativas localizadas na periferia de São Paulo, as quais geram renda e são empoderadas para se tornarem independentes e cada vez mais consolidadas. Também usamos nossa capacidade de articulação para formar parcerias com organizações sociais, como é o caso do Pimp My Carroça e do Entrega por SP.

Como a Retalhar pode mudar o cenário de exploração do trabalho muito característico no setor têxtil?

Certamente a questão do trabalho sempre foi uma preocupação da Retalhar. Não à toa, lá no início da história, o trabalho já era realizado com cooperativas e pautado na economia solidária. Mais que isso, há um impacto social evidente que vai muito além da geração de renda. Estamos falando de mulheres (a grande maioria) que se apropriam de suas vidas, que crescem como cidadãs ao ver seus produtos se espalhando pela sociedade, que crescem como pessoas ao se verem responsáveis por importantes decisões sobre o futuro de seu negócio e o valor do seu trabalho. A lógica da Retalhar é basicamente a de transformar um problema comum em uma solução inovadora e inclusiva. Olhando para a indústria têxtil, sou um pouco mais cauteloso. Há um movimento macro, global, que por enquanto o ativismo e o empreendedorismo social não conseguem reverter em escala. Na busca por redução de preço, quem paga são os trabalhadores e o meio ambiente. Sinto que, enquanto a massa consumidora não for firme em rejeitar este modelo de produção, dificilmente atingiremos uma mudança efetiva e de grande alcance.

Acredita que o negócio de vocês tem vocação para se transformar em política pública?

Acredito na Retalhar como um meio para engajar as pessoas. E, quem sabe, podemos inspirar políticas públicas no futuro. Se você analisa a Política Nacional de Resíduos Sólidos, há uma obrigatoriedade das grandes empresas em garantir a destinação ambientalmente adequada de todos os resíduos passíveis de reciclagem ou reutilização. No caso dos uniformes, as empresas querem doar, mas quem recebe doação acaba aproveitando uma parcela muito pequena e, no final das contas, a maior parte vai para o aterro sanitário. Então o que se vê é a empresa terceirizando o problema do resíduo – e sem nenhum custo. Eu vejo a Retalhar como uma iniciativa que muda o comportamento do mercado a partir das empresas que internalizam as questões socioambientais – aqueles custos que todo mundo finge que não vê, mas estão aí – na cidade poluída, no aterro abarrotado, por exemplo. A Retalhar tem esse nome não à toa. Lembra a palavra ‘retaliar’. Temos sim essa ideia de promover rupturas com os paradigmas ineficientes sobre os quais o sistema se monta. O espírito questionador e a conscientização de pessoas e empresas entram aí.

Quais são os planos para o futuro e como a Retalhar pode ajudar a mudar a sociedade?

Os planos para o futuro da marca são os mais nobres. Queremos ser uma referência global em logística reversa. Não aquela que enxerga o resíduo como uma oportunidade para extrair o máximo de dinheiro possível, e sim aquela que olha para o resíduo como um problema que afeta a todos e, a partir daí, como uma oportunidade para gerar valor compartilhado. Trata-se de usar os excessos do nosso modo de vida para conscientizar as pessoas e empoderar produtores de baixa renda. Queremos assegurar que nenhum resíduo têxtil seja destinado aos aterros e incineradores, mas que isso seja feito com uma visão ampla, garantindo que a sociedade enxergue como e por que fazemos isso. Mas o grande impacto é o de inspirar as pessoas: quanto mais negócios sociais por aí, mais crítico, consciente e exigente será o mercado consumidor. E é aí que reside a grande mudança, já que, como diz o Criolo, “toda indústria tem no comércio sua forma de reprodução”. Quando você compra uma camiseta produzida com trabalho escravo, você está “dizendo” para aquela marca: “continue assim”!

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