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Por uma frente (de gente) de esquerda

fórum onde qualquer cidadão possa se manifestar, não apenas militantes partidários

Por CYNARA MENEZES

Tenho insistido há tempos sobre a necessidade de a esquerda no Brasil se organizar numa frente ou nunca irá conseguir governar e fazer o país avançar. Deveríamos mirar o exemplo uruguaio, que fez um trabalho de formiguinha e construiu uma frente com todas as agremiações de esquerda do país para finalmente chegar ao governo em 2005, após 24 anos de luta. Hoje em seu terceiro mandato, a Frente Ampla não encontra dificuldades para suas pautas progressistas dentro do Parlamento porque conquistou esmagadora maioria.

Meu desejo e o de muitos brasileiros de esquerda esbarra, porém, na má vontade dos políticos de esquerda. Não se vê nenhum movimento dos políticos e dos seus partidos para criar esta frente. Pelo contrário, mesmo com o massacre que estamos vivendo, os políticos dos diversos partidos de esquerda continuam se digladiando, se atacando, disputando espaço entre si, por vaidade e sede de poder. Lamentavelmente, isto se refletiu na última eleição para prefeito: desunida, a esquerda perdeu em capitais onde poderia ganhar se tivesse a capacidade de sentar para negociar entre si.

Vejo gente do PSOL, partido que admiro e que até agora se safou das denúncias de corrupção, dizer que só ele é de esquerda “de verdade”. Acho isso um equívoco brutal. Sim, é possível dizer que o PT ou o PCdoB, em suas direções partidárias, não são de esquerda. Mas é inegável que tem muita gente de esquerda dentro de ambos os partidos. E o mais importante: tem muito eleitor de esquerda que vota no PT e no PCdoB (e até no PSB e no PDT). Portanto, não faz sentido o PSOL se arvorar em “único representante da esquerda”.

O PT, por outro lado, em vez de fazer um necessário mea culpa sobre as más decisões que tomou em nome da “governabilidade”, prefere continuar atacando o PSOL, que saiu de sua costela justamente quando ficou claro que o Partido dos Trabalhadores estava abandonando os princípios que guiaram sua fundação. Como se o PSOL fosse o culpado pelo fato de o PT, em vez de combater o financiamento de campanha, ter se unido a ele. O eleitor de esquerda fica no meio deste fogo cruzado, porque, se não for militante partidário, sente simpatia pelo PT e pelo PSOL.

Enfim, a real é que não há interesse dos partidos de esquerda em criar uma frente. Mas um dia destes tive um estalo: por que não deixar de esperar pelos políticos e criar uma frente não de partidos, mas de gente de esquerda, juntando movimentos sociais e sindicatos? Uma frente não para se organizar no Congresso nas votações ou para lançar candidatos, e sim para cobrar dos políticos da esquerda posicionamentos necessários. E principalmente para organizar eventos para rediscutir o papel da esquerda no Brasil e no mundo – uma tarefa urgente na qual os políticos tampouco parecem interessados.

Isso já existiu, na verdade: o Fórum Social Mundial funcionou como uma frente de gente de esquerda na qual os políticos participavam como convidados. Infelizmente, desde que o PT chegou ao poder, a ideia de foruns para discutir a esquerda foi praticamente abandonada. A não ser quando era para reunir os “capas-pretas”, a nomenklatura da esquerda no poder. Não, o que proponho é um fórum onde qualquer cidadão possa se manifestar, não apenas militantes partidários, até porque não é todo mundo de esquerda que gosta de militar em partidos. Eu mesma não gosto.

Em 2017 completam-se 100 anos da Revolução Russa. Não haverá nunca um momento tão oportuno para se debater a esquerda quanto esta data. Para rever erros e acertos. Para nos colocar no mundo como protagonistas. Para direcionar os holofotes sobre os novos nomes da esquerda mundial. Para atrair os jovens, os negros, os índios, as mulheres, os LGBTs, os sem-terra, os trabalhadores. Os políticos entrariam como participantes e não como os gestores destas discussões. Não se trata de negar a política e os políticos, mas de tomar o protagonismo também para nós, eleitores.

O que proponho: um grande congresso de esquerda em 2017 no Brasil, com convidados internacionais, políticos, intelectuais. Nossa gente. Quem sabe Bernie Sanders, o socialista dos EUA? E Jeremy Corbyn, o trabalhista inglês? Noam Chomsky, Pablo Iglesias, do Podemos… Os cineastas Michael Moore e Oliver Stone. É tanta gente boa que nem saberia por onde começar. Quem topa?

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