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Por que somos manipulados se temos a internet?

Por Tiago Mota

A pergunta acima é, na verdade, a pergunta errada. A aplicação do termo “manipulação” pressupõe um vetor, uma linearidade da comunicação. A palavra não dá conta do que é a experiência da mídia. Antes de nos questionarmos sobre manipulação é preciso que nos indaguemos sobre outra questão mais profunda: por que, afinal, nos comunicamos uns com os outros e pelas nossas mídias?

Comunicação e Corpo

No final da década de 1960, o comunicólogo e jornalista alemão Harry Pross deu início a uma silenciosa revolução ao incluir o corpo nos estudos da Comunicação. “Toda comunicação começa no corpo e nele termina.” Esta sua frase implica uma radical mudança de pressupostos.

Ao trazermos o corpo para este papel fundamental, optamos por um enfoque germinal. O corpo é anterior às categorias abstratas de “mente” ou “razão”. O corpo biológico, histórico e cultural não se reduz a um vetor, por isso derruba os conceitos lineares de emissão e recepção. O corpo é um gerador de ambientes, e sua presença nos recorda da nossa necessidade primordial de lançar vínculos com o mundo.

Mas o corpo é finito, limitado em espaço e tempo. Sua comunicação é efêmera. A própria consciência da morte nos coloca em uma jornada em busca da permanência. Criamos, então, veículos de comunicação da continuidade, o que Pross chama de mídias secundárias e terciárias: a escrita, a imagem eletrônica e digital, etc.

Há uma mudança de rumo nos estudos da mídia: entender comunicação não como conexão ou emissão de mensagens, mas como vinculação. Corpos narrativizam os entrelaçamentos que suprem suas carências, e a materialidade dos meios de comunicação facilita a vinculação na busca da sua permanência por meio das grandes imagens que estes mesmos reverberam.

Comunicação e Emoção

Com o corpo no momento germinal da comunicação, afasta-se a crença da autonomia e da onipotência da mídia. Qualquer análise primeira encontraria alguns indícios de manipulação nos conteúdos que nos chegam dos noticiários. Todavia, porque a “manipulação” pressupõe um vetor linear de emissão e recepção, a palavra apenas descreve um sintoma de um processo mais complexo.

Desde o nascimento, nossas comunicações emergem das nossas primeiras carências: a fome, o frio, a dor, etc. Se enquanto bebês nós não nos vinculássemos para suprir estas necessidades, morreríamos.  Temos a vocação de nos comunicar para que os outros nos preencham daquilo que nos falta.

Se nós nos vinculamos para suprir nossas carências, por muitas vezes lançamos de volta ao mundo também nossas ignorâncias e procuramos nele outras vozes que os corroborem. Na nossa busca por permanência, as mídias – o grande outro – se tornam catalisadoras, portanto, destes sentimentos.

Um exemplo disso: o luto televisionado ao vivo para o mundo de Michael Jackson, em 2009. A partir deste episódio, o prof. Christoph Wulf, outro alemão, demonstra como as nossas mídias são eficazes na comunicação das emoções. Um agir ritual como o de um velório é poderoso em comunicar emoções e imagens (de vida e de morte, da passagem, do eterno, etc.) para aqueles que o comungam. Hoje, assim como em tempos antigos, a vida em sociedade é impossível sem estes rituais e suas emoções correlatas. Mas nossos rituais migraram dos espaços do culto para se tornarem midiáticos. Com isso, uma mesma emoção pode ser globalizada e reproduzida em escala grandiosa. Do dia para noite, o mundo chorou a morte de Michael Jackson.

As tecnologias comunicacionais globalizadas são muito eficazes em trazer para a existência as coisas que elas próprias divulgam. Por mais controversa que tenha sido a figura de Michael Jackson, a emoção de luto comunicada pela mídia foi de tal maneira intensa de modo a nos atingir a todos.

A produção de imagens e notícias sobre a realidade não é instrumental e linear, como queremos crer. Ela é, sim, o princípio da geração do próprio real. Uma realidade tecida não pela nossa racionalidade, mas pelas nossas emoções, medos e carências. Somos, de modo ambivalente, vítimas e agentes do nosso consumo midiático.

Este é um diagnóstico muito mais aterrorizante do que o a da “manipulação”. Força-nos a presumir que os espaços da mídia substituem, hoje, o espaço que já pertenceu à Igreja medieval. Quando consumimos mídia, não simplesmente recebemos conteúdos, mas tomamos parte em um culto, partilhamos destas emoções e esperamos que nossas mídias corroborem sempre para nossa visão de mundo. Ao passo que, do outro lado, não há um grupelho de porcos engravatados, mas pessoas que também partilham das mesmas paixões.

E-topia

Com a internet, passamos a acreditar numa e-topia, segundo o Manuel Castells. A crença de que as redes democratizam os discursos, quando, na verdade, tanto o acesso à internet quanto a produção de seus conteúdos também estão concentrados.

É imprudente falar em democratização quando nossas vozes geram riquezas para poucos grupos, como Facebook e Google. A internet está loteada e quase não é possível produzir trocas simbólicas e ser ouvido fora dos interesses privados destas empresas. Nossas vidas nas redes são um diário da cultura de consumo.

Além disso, quando entramos nas redes, ou quando consumimos mídias em geral, lá está conosco o próprio motivo pelo qual nos comunicamos: nossas carências. Nesse ambiente emocional, a única democratização que existe é a da felicidade e do prazer individual. Nossa identidade pessoal depende dos espelhos que construímos, onde esperamos encontrar aquilo que nos ofereça um lugar no mundo ao confirmar nossas crenças. Nossas interações na internet tendem a se tornar um culto ao indivíduo e ao consumo.

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