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Os Piratas aportaram na ilha de gelo

O crescimento do Partido Pirata na Islândia demonstra que há alternativas de mudança na política mundial

Por Luiz Miller

O pastor Crivella está eufórico ao lado de sua esposa. Abre as duas mãos espalmadas, indicando o número do seu partido em sinal de vitória após ter sido eleito prefeito do Rio de Janeiro. Essa foi a imagem final de uma das piores eleições municipais para a esquerda brasileira. Antes disso, João Doria, o empresário do showbusiness e dos eventos empresariais, aturdiu a todos que acreditavam numa guinada à esquerda no final do primeiro turno da disputa paulistana. Não deu. Levou logo de cara com mais de 50% dos votos. O PT perdeu seus redutos históricos – Santo André e São Bernardo – numa só tacada. Aliás, o partido perdeu em todas as capitais e grandes cidades, arrastando consigo outras legendas de esquerda. Até mesmo o PSOL foi de certa forma afetado, afinal, muitos eleitores ligam o partido ao PT como se fosse uma linha auxiliar política e não uma dissidência. Foi ruim para Freixo, foi ruim para a esquerda do país. Entramos num período de muitas incertezas políticas.

No mesmo dia em que Crivella foi a imagem surreal do que se tornou a política brasileira, a Islândia terminava de contar seus votos para a formação do novo Parlamento. Antes mesmo de a contagem terminar, as pesquisas indicavam a vitória da coalização de esquerda e o crescimento do Partido Pirata. Na contagem final houve crescimento, mas não maioria. Apesar de ter triplicado o número de assentos no Parlamento, de três para dez, a coligação de esquerda da qual fez parte o Piratas assegurou 27 assentos de um total de 63. Sem dúvida será uma força.

Quem fica como papel de intermediador e define o primeiro-ministro na Islândia é o partido que elege o maior número de deputados. No caso, o Partido da Independência, com 21 assentos e a incerteza de que conseguirá impor suas políticas. Nenhuma das coligações, tanto à esquerda como à direita, conseguiu uma maioria vantajosa, deixando o papel de intermediador para o centrista Partido Regeneração. Como ele é uma dissidência do Independência (de direita), dificilmente vai se alinhar às ideias liberais de uma coligação que tem o Piratas como maior representante. No final de tudo, o que podemos ver é que a população islandesa deu sinais de rompimento com a velha forma de fazer política. Mas qual o porquê disso?

Ato 1 – A crise financeira

Em 2008 o mundo conheceu uma das piores catástrofes financeiras e aprendeu da pior forma o que é a especulação, e tudo aquilo que foi alardeado por Jesus há dois mil anos sobre o crime que é a usura. Logo após a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, a Islândia foi o primeiro país a sentir o golpe que, como num castelo de cartas mal feito, foi derrubando a economia frágil de diversos países. A crise seguiu para a Espanha, Portugal, Itália, Grécia e foi, como um tornado de incertezas, dizimando e empobrecendo.

Até o final dos anos 90, a Islândia era um país tranquilo. Não era uma das maiores economias da Europa, mas vivia-se bem. O país tinha em seus recursos naturais e no turismo sua maior participação no PIB. As pessoas viviam da pesca, as casas tinham aquecimento, já que o país produz energia geotérmica em abundância e os sistemas educacionais e de saúde públicos atendendo os 320 mil habitantes perfeitamente. Então o governo, num momento neoliberal, decidiu privatizar o que vinha funcionando, principalmente a Reykjavik, maior produtora de pescados do país.

Ato 2 – O caos

A privatização, juntamente com os juros na casa dos 15%, fizeram com que os bancos islandeses entrassem em modo de loucura capitalista. Começaram a captar dinheiro de investidores internacionais em moeda forte – dólar e euro – e emprestar a empresas e pobres velhinhos na moeda local, com juros menores e prestações maiores. O resultado foi o esperado. As pessoas entraram em euforia, deixaram as varas de pesca de lado e se transformaram em investidores sem o mínimo conhecimento do mercado financeiro. Até antes da crise, a Islândia era um paraíso para gananciosos investidores internacionais com muita fome de lucros exorbitantes.

Então a bolha estourou. Quando se deram conta, os três maiores bancos islandeses detinham uma patrimônio 10 vezes maior que o PIB do país. O Lehman Brothers quebrou. Os capitalistas internacionais entraram em desespero e queriam seus investimentos de volta. Mas como devolver um dinheiro que é meramente especulação? Não dá. Ele não existe. O primeiro-ministro na época, Geir Haarde, foi à TV fazer um pronunciamento à população e encerrou com um “Deus nos proteja”. Essa frase ligou o alerta e fez as pessoas correrem para os caixas eletrônicos a fim de salvar o que restava de suas economias.

Os islandeses experimentaram durante uma semana a sensação do apocalipse, até que o governo resolveu intervir. Deixaram os bancos quebrarem e os fatiaram ao meio. Ficando responsável pela parte que salvaria os correntistas islandeses e, com isso, manteria a economia interna funcionando. As dívidas com os credores internacionais foram privatizadas para grupos estrangeiros que, de certa forma, assumiram também o controle de diversas empresas no país. Bem, isso é um pouco do que vem na conta quando se pede a salvação e o induto do FMI, após esse lhe emprestar 2,2 bilhões de dólares para restabelecer a ordem. O que sobrou foi um gosto amargo e a desilusão com o establishment político e econômico.

Ato 3 – A decepção política

Depois de uma série de catástrofes, os islandeses se viram órfãos de representantes, ligando os fatos que levaram à crise econômica aos tradicionais partidos do país. Os quais eram mais, assim como cá, fantoches de grupos capitalistas. O primeiro resultado dessa insatisfação veio em 2010. Jón Gnarr, até então um radialista satírico, criou o Melhor Partido e concorreu às eleições municipais da capital Reykjavík. Com promessas do tipo: proibir o consumo de drogas no Parlamento e comprar um urso polar para o zoológico da cidade; elevou a disputa política ao patamar da insanidade. E, como uma espécie de efeito Tiririca, Gnarr ganhou a eleição.

Percebendo que a crise e o descrédito nas instituições políticas continuavam, um grupo de ativistas cibernéticos, anarquistas e ambientalistas, liderados pela poetisa Birgitta Jónsdóttir, formaram o Partido Pirata da Islândia, o Piratar, em 2012. Em seu manifesto eles defendem a democracia participativa direta, uma internet mais livre e com menos restrições devido aos direitos do autor e maior distribuição de renda através das riquezas geradas de fontes de recursos naturais.

Essa platafoma, e também a forma como demonstram transparência, fez com que parte da população, principalmente os mais jovens, desse ao partido, já em sua primeira eleição em 2013, os primeiros assentos no Parlamento islandês. Para um partido que não tinha nem um ano, foi uma vitória que deixou os sempre governantes e conservadores partidos Independente e Progresso, com a sensação do incômodo e que agora, depois de décadas, eles têm uma oposição que se faz ouvir.

Ato final

A crise de 2008, apesar de ter sido superada na mesma velocidade com o que aconteceu, tinha deixado alguns rastros e fantasmas no status quo islandês. O maior vazamento de documentos da história, conhecido como Panama Papers, fez sua sua primeira vítima na Islândia. O nome do primeiro-ministro Sigmundur Gunnlaugsson apareceu como sendo um dos donos de uma conta offshore que ocultava milhões de dólares. O dinheiro, adivinhe, era oriundo de investimentos feitos em um dos bancos que vieram a quebrar. Quando a crise veio e a quebradeira foi geral, Gunnlaugsson cinicamente bradou para que os bancos pagassem seus credores.

Gunnlaugsson sentiu o golpe. Talvez tenha sido o único político afetado pelo Panama Papers e, com o nome envolvido no escândalo, foi obrigado a renunciar e a convocar novas eleições, mesmo a contragosto do presidente. Novamente entrou a descrença nas instituições tradicionais, e o Piratar, juntamente com outros partidos de esquerda, sentiu que era a hora de conquistar mais espaço no Parlamento e, enfim, colocar em prática alternativas políticas que façam o país caminhar para uma participação mais direta da população. Uma delas é a de uma nova Constituição escrita colaborativamente com todos os setores sociais da Islândia. O que na verdade já foi feito, mas ainda falta a aprovação do Parlamento.

Um dia antes das eleições, Birgitta Jónsdóttir estava confiante e dizendo que o partido antissistema seria a segunda força no Parlamento. O que se confirmou, mesmo não conseguindo a totalidade de cadeiras que lhes dariam a chance de ser o sistema e mostrar que é possível mudar e que a descrença e as crises, diferentemente daqui, podem contribuir positivamente para a construção de um modelo político transparente e realmente democrático.

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