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Os orixás segundo um engenheiro

Precisamos entender melhor os terreiros de candomblé e perceber o quanto somos preconceituosos

Por ANDREAS UFER

O mundo parece estar de ponta-cabeça quando um engenheiro escreve sobre os orixás. Não sou uma pessoa religiosa. Não sigo nenhuma religião ou prática espiritual estruturada. Busco minha espiritualidade em outros lugares – nas relações humanas e sociais, na enormidade da natureza e em nossas próprias jornadas interiores. Para mim o divino está em todo lugar, e cada um deve ser livre para encontrá-lo e expressá-lo de sua própria maneira. Ainda assim, recentemente fui surpreendido com a minha própria ignorância e preconceito. Desde a época de faculdade – e em especial na última metade de década – busco me dedicar a formas de trabalharmos a inovação, o empreendedorismo e, em especial as nossas organizações e relações humanas, para resolvermos os grandes problemas sociais e ambientais dos nossos tempos. Fiz disso meu trabalho de vida.

Nessa jornada foram ganhando atenção e relevância central as barreiras entre periferia e centro e a forma como construímos muros invisíveis através da nossa ignorância, valores e níveis de consciência. Neste tempo interagi com a enormidão da periferia da zona sul de São Paulo centenas de vezes. Jd. Ângela, Jd. São Luiz, Campo Limpo e Capão Redondo – juntos abrigando 1 milhão de pessoas – são uma metrópole em si. Em minhas incursões conheci muitas pessoas incríveis, talvez em abundância e intensidade maiores do que nas regiões centrais. Tive conversas interessantíssimas com guerreiros, que nas condições mais adversas fizeram da luta pela melhoria do seu entorno e do campo social ao seu redor seu caminho de vida. Conheci inúmeros espaços de resistência, que trazem luz e abrigo contra o rolo compressor do dia a dia.

Recentemente fui dar aula de empreendedorismo social pelo quarto semestre consecutivo para um grupo de universitários americanos, que passam quatro meses viajando o mundo para estudar inovação e negócios sociais em São Francisco, Uganda, Índia e Brasil. Dessa vez a aula foi sediada em um local no extremo sul do Jd. Ângela, periferia da zona sul de São Paulo, na Península de Ipava, onde o meio urbano colide com o natural. Onde a urbanização desordenada segue seu curso e expande os limites da nossa megalópole. A aula foi em um terreiro de candomblé. O local que hospedaria a apresentação a princípio me gerou muito estranhamento e pouco entendimento sobre as conexões com o assunto de que tratávamos. Mas como ao longo do tempo aprendi a seguir a caminhada com curiosidade e exercitando a suspensão de prejulgamentos, fui para a empreitada com ouvidos e olhos atentos e coração aberto.

Fomos muito bem recebidos por Fabi, da organização A Banca, que articulou a visita, e também pelo Pai Musiala e por José Roberto, além dos demais membros da comunidade. Em sua fala, Fabi, que vive conectada àquele espaço há muitos anos, disse: “Como anfitriões acreditamos que o nosso papel é fazer com que vocês se sintam bem. Que se sintam em casa.” E assim nos sentimos. Após a minha aula sobre modelos de negócio para impacto social, tiramos os sapatos e formamos uma roda do lado de fora com o pé na terra. Ao som de tambores fomos provocados a contemplar as folhas das árvores, sentir o sol no nosso rosto e vivenciar a terra sob nossos pés. “Kosi ewe, kosi orisa” – Sem a folha não há orixá, diz a sabedoria do povo Iorubá da África Ocidental. (segundo a tradição iorubá, os orixás são os espíritos ancestrais que representam as forças da natureza).

O divino está na natureza e em todos nós.Partimos para uma apresentação do Zé Roberto sobre o histórico e significado do candomblé. Uma verdadeira jornada no espaço-tempo. Fomos apresentados à geografia dos fluxos escravocratas entre 1500 e 1900 que tiraram milhões de africanos de suas casas para se tornarem, a princípio, apátridas e levaram a uma miscigenação de diversas culturas da África Ocidental e Setentrional. Esses escravos na sequência foram libertados, mas desprovidos de posses, de vínculos com a terra e acesso às estruturas de poder permaneceram marginalizados, como seus herdeiros seguem até hoje. Desse contexto histórico e da miscigenação de culturas e povo, surge o candomblé, uma religião e manifestação cultural que mantém vínculos com os valores e as crenças originarias na África e tem em seu centro a conexão com a natureza.

No contexto urbano paulista a visão europeia e cristã prevaleceu. A partir da década de 1930 as crenças consideradas impuras foram sistematicamente apagadas das regiões centrais. Porém o candomblé permaneceu vivo nas periferias, que cresceram a um ritmo alucinante nas décadas que vieram, movimento impulsionado pelo fluxo migratório acelerado e as altas taxas de natalidade. Assim se perenizava uma divisão de centro e da periferia, de preto e branco, de cristianismo e cosmologias pagãs. Nas regiões centrais e nas pessoas de renda maior foi se cristalizando a visão negativa das religiões de origem africana, e o termo candomblé se associou a algo obscuro e sinistro. E eu me incluo nessa massa que nada sabe sobre as crenças africanas, e na ignorância as marginaliza. Daí o impacto da minha interação recente na Península de Ipava. A primeira surpresa foi me perceber parte de uma visão míope e enviesada de mundo – e no fim das contas todas as visões o são. A segunda foi reconhecer que talvez algumas de nossas subculturas ainda carreguem algo que já perdemos há tempos.

Sem a folha não há orixá – o candomblé é uma cosmovisão intimamente ligada a natureza. Ela carrega consigo o espírito dos povos africanos que viviam e se entendiam como parte do meio natural – diferente do homem moderno ocidental que ignora essa relação. As folhas das árvores são essenciais para suas práticas e rituais. Em regiões extremamente urbanizadas e sem vegetação, a prática do candomblé é sufocada. Sem a água não há axé (axé é a energia presente em cada ser). O candomblé tem uma relação importante com os rios e demais corpos d’água. Expulso das áreas centrais com maior renda, ele também agoniza juntamente com a natureza nas regiões periféricas. Como nos contou José Roberto, a represa de Guarapiranga que cerca a Península de Ipava está cada vez mais poluída pelos efluentes não tratados do próprio Jd. Ângela e outras regiões. Além disso, lagos menores na região foram aterrados e nascentes e riachos se tornam esgotos a céu aberto. Com isso os insumos necessários para as práticas do terreiro precisam ser buscados em lugares cada vez mais distantes.

Sem a terra não há candomblé – O Candomblé está conectado de forma indissociável com o território que o abriga. Com a expansão do concreto e a impermeabilização urbana, sua expulsão do centro da cidade não foi só política, pela perseguição e aniquilação sistemática, mas também se deu pela perda de territórios naturais. Os terreiros foram diminuindo de tamanho, mas foram se tornando espaços de resistência, não só da cultura negra e africana, como também da nossa conexão com a natureza.

Não me converti ao candomblé, tampouco entendo suas crenças e práticas. Porém saio dessa experiência com importantes reflexões. Saio com a sensação de que precisamos entender melhor os terreiros de candomblé e que tipo de contextos mais amplos eles simbolizam. Como são as relações entre maiorias e minorias, entre periferia e centro? Como se dão os últimos resquícios da nossa conexão com o restante da natureza? Mais uma vez saio certo de que nada é simples. Nós temos a tendência de simplificar as coisas para que caibam em nossa limitada visão de mundo e capacidade de abstração. Temos dificuldade em conviver com o contraditório e entender que existem infinitas formas de enxergar uma mesma questão. Quais outras visões e valores além do candomblé estamos marginalizando e excluindo com a nossa forma de organizar o mundo?

Precisamos refletir sobre os terreiros de candomblé. Adoece o candomblé e adoece a civilização moderna. Ou será que não percebemos ainda que sem a folha, sem a água e sem a terra nós também não existiremos?

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