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Onde a esquerda vira

Enquanto tentativas políticas da esquerda tentam se unir, Boulos junta a base em manifestação histórica e leva o MTST ao protagonismo pelo chão de barro. Sua liderança com as bases pode tornar real uma candidatura à presidência em 2018

Por IVAN ZUMALDE

A base do acampamento está em São Bernardo do Campo e seus militantes se preparam para a batalha no território vizinho, em São Paulo. São 5h15 de manhã, e entre luzes e bandeiras, o cheiro do almoço que sai da cozinha improvisada invade o local, mostrando que o dia será longo. A luta é de paz, e seu líder sabe “o que” e “como” unir sua base para a marcha que se aproxima. “Hoje é a expressão da resistência e da esperança de um povo que quer conquistar sua casa”, profetiza Guilherme Boulous no palco de madeira, enquanto espera sua vez de discursar para mais de 8 mil famílias organizadas. Nesse momento, o palco era ocupado por padre Paulo e outros líderes religiosos que fazem uma cerimônia ecumênica antes da marcha rumo ao Palácio do Governo em São Paulo. Horas antes, na noite anterior, foi ocupado por cantores como Caetano Veloso, atrizes globais, políticos e parceiros do movimento dos trabalhadores sem teto. O acampamento tem atraído a atenção e ganhado protagonismo em um país que ainda perpetua sua desigualdade social. É nesse cenário de falta de direitos como a moradia que o MTST atrai a base da população. E o faz pelo chão de barro e pela crença de um povo que sonha em ter sua casa própria e um pouco mais de dignidade. Esse mesmo povo é também o sonho da classe política de esquerda brasileira que um dia teve mais representatividade e respeito no mesmo chão de barro, mas que hoje está distante. A política partidária quer e precisa voltar à base e fazer política no palanque montado no barro. E começa a fazê-lo. No palco do acampamento sobe Eduardo Suplicy para discursar (e também cantar). Ele não chegou agora. O vereador mais votado de São Paulo dormiu no acampamento para apoiar o movimento. “Eu convidei o Doria e falei que iria vir”, fala o ex-senador. Nem Doria, nem o prefeito de SBC vieram, mas a marcha não precisa do apoio deles para seguir; precisa que o poder público escute e dialogue com a população.
Amanhece e é preciso partir. Toninho Vespoli, vereador de São Paulo pelo PSOL, fala sobre a resistência também na Câmara paulistana “Estamos fazendo lá e aqui uma frente nessa democracia com pitadas de totalitarismo que vivemos”, grita Toninho que cede o microfone para Boulos. O líder do movimento entra, entoa mantras do MTST e conclama sua base enquanto seu parceiro Josue começa a organizar os mais de vinte grupos para a marcha. Na saída do palco, Boulos ainda responde a uma última pergunta: qual a diferença dessa marcha para as outras? “Hoje são 23 quilômetros”, finaliza. Boulos sabe que a caminhada é longa, mas é única. Independente da distância, o povo vai se unir na base e chegar na política. É inevitável. A política é a manifestação do seu povo, e uma das vias para isso é a institucional. Tudo deve confluir, e se a política não escutar a base, a base vai marchar em direção à política. E isso já começou.

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