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Ocupação Marielle, presente!

Ocupação do MTST em Recife leva nome de vereadora carioca assassinada e ocupantes fazem bordados para resistir e se manifestar

Por FRANCIS DUARTE

Desde março de 2018, o centro de Recife, capital de Pernambuco, possui uma ocupação num prédio na Praça da Independência. Pertencendo ao Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, o MTST, a Ocupação Marielle Franco é uma homenagem para a vereadora do PSOL/Rio de Janeiro, brutalmente executada junto com seu motorista, Anderson Gomes. O prédio é todo gerido por mulheres que lutam por moradia e para que outros direitos constitucionais sejam plenamente respeitados.

O espaço realiza inúmeros debates e atividades coletivas, tanto que no final de junho uma oficina de “Bordado de Guerrilha” animou tanto os moradores da ocupação quanto o público externo, visto que foi aberta para toda a comunidade local. A proposta foi elaborada por Clara Nogueira, formada inicialmente em Arquitetura e idealizadora do projeto “Linhas de Fuga”, que sempre se mostrou sensível aos temas da luta por moradia e o direito à cidade. Nesse contexto, desde 2015, Clara realiza oficinas de bordado que possam retratar, além da beleza dessa arte, também, narrativas femininas entremeadas às questões sociais, tendo o “Bordado de Guerrilha” se concretizado pela primeira vez.

Sob esse sentimento de luta, resistência e arte a Revista Cidadanista conversou com Clara Nogueira e procurou descrever o trabalho, um pouco das histórias e, principalmente, um espaço de transformação e luta social, direto da capital pernambucana.

Num primeiro momento, a organização apresentou que a oficina de bordado trouxe diferentes narrativas das mulheres da ocupação, suas vivências. O encontro para que a rotina e as histórias surgissem num clima de coletividade se fez necessário, sobretudo em respeito pelas perdas e as conquistas dessas guerreiras que constroem a Marielle Franco.

Vale ressaltar que todo esse processo de entrevistas foi registrado e, no momento da atividade, as mulheres, inclusive externas à ocupação e que participaram, puderam ler, sentir esses relatos e, de forma bem sensível, bordarem desde frases das companheiras da Marielle Franco até interpretarem seus sentimentos por meio de desenhos.

Clara Nogueira fala com propriedade:

“O bordado é uma forma de expressão sensível dessas vidas. É um meio comunicação com a sociedade civil
de forma a entender como é uma ocupação e que é formada por pessoas”.

A partir dessa fala, observamos que toda a metodologia e a estruturação do trabalho foram desenhados com as inquietações do sonho da moradia digna e sempre mostrando as mulheres como lideranças de ocupações, seu lugar de fala concreta e a coragem para permanecer na luta.

Somando a isso, conforme já mencionado, a oficina foi aberta para pessoas externas à ocupação, e o investimento que fosse possível auxiliaria na aquisição de linhas, bastidores e outros materiais para ser trabalhado coletivamente. Daí nasceu a expressão “bordado de guerrilha”, que é o trabalho executado com o material e o tempo que se têm, encarando de frente as adversidades da mesma maneira com que as mulheres da ocupação se deparam diariamente.

Um desses relatos que se transformou em bordados foi o da sra. Alba Valério Gomes da Silva, 51 anos, que viveu uma parte no interior do estado, Taquaritinga, e, depois, na capital, Recife. Dona Alba conheceu o movimento por meio de um rapaz carroceiro (ambos também vivem da reciclagem), que informou sobre uma ocupação no “Barro”, localidade de Recife. Ela saiu de uma casa de tábua e precária para o prédio que abriga as guerreiras e os guerreiros da Marielle Franco.

“O meu aqui é ‘pedacinho do céu’. Meu pedacinho do céu aqui. Porque foi um milagre de Deus, foi uma bença. Pelo menos eu tô na paz. Lá a polícia invadindo direto os barraco da gente. A pessoa fica nervosa. E aqui, graças a Deus, não tem isso, né? É um pedacinho do céu mesmo, aí tem paz.”

E foi com uma dessas narrativas que nasceu uma das interpretações bordadas extremamente simbólica: um prédio e, ao lado, “um pedacinho do céu”.

A Revista Cidadanista acredita que a sociedade civil, em sua plenitude, compreende e defende a importância da moradia digna que é tecida a partir de uma ocupação. Desse modo, possamos alinhavar novos caminhos possíveis como as mulheres da Ocupação Marielle Franco, tomadas de marcas e sonhos: “Reproduzidos no bordado a casa, a estrada, a correnteza… O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza”, já dizia os versos de uma canção.

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