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O povo brasileiro

por CÉLIO TURINO

Sinto saudades do Brasil. Sinto saudade do povo que se formou do encontro entre povos, sinto saudade de nossas raízes, sinto saudade de nossas flores e nossos frutos, sinto saudade do nosso futuro sonhado. Brasileiros, quem somos? Somos o único país a levar o nome de uma árvore, pau-brasil. Somos Pataxó, somos Tupinambá, somos Guarani, Jê e Tupi. Somos portugueses à solta, aqueles que depois de alcançar as falésias, no último limite de terra do continente euro-asiático, decidiram atirar-se ao mar sem fim. Somos os africanos trazidos em holocausto. Somos os imigrantes, os que fugiram da fome na Europa, no Oriente Médio e no Japão. O Brasil é a maior nação negra fora da África; há 25 milhões de descendentes de italianos; há mais descendentes de libaneses vivendo no Brasil que no Líbano, 12 milhões, entre sírios e libaneses, nossos irmãos; a maior cidade japonesa fora do Japão é São Paulo. Somos mescla, somos mestiços. Somos acolhedores, somos solidários, somos criativos, somos alegres, somos solares. Mas se somos tudo isso, por qual motivo nos maltratamos tanto? Por que tantos horrores, por que tanta matança? Por que se matou – e se mata – tantos indígenas? Eles nos receberam tão bem. Eles não, porque “eles” somos nós. O que se fez com nossos irmãos africanos? Em séculos passados, os comerciantes negreiros eram também conhecidos como brasileiros, 5 milhões de escravizados, arrancados de suas terras, transportados em tumbeiros, aprisionados em martírio. E os imigrantes desrespeitados, enganados, deportados. Os operários explorados. Os caboclos amordaçados, chacinados, Cabanos, Canudos, Contestado, Caldeirão, “contra os quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”, “a enfrentá-los, um velho, dois homens feitos e uma criança” (final de Os sertões, de Euclides da Cunha). Canudos não se rendeu, como Palmares não se rendeu, o quilombo acolhedor, em torno do qual  africanos escravizados, brancos pobres, indígenas, mestiços, judeus, se juntaram em resistência ao escravismo colonial. Somos irmã Doroty Stang, somos os ambientalistas assassinados, somos os indígenas assassinados, somos os jovens negros, pobres e da periferia, igualmente assassinados, amordaçados, desprezados. Somos os que assassinaram irmã Doroty, somos os que assassinam os ambientalistas, somos os que assassinam os indígenas, somos os que desprezam, amordaçam e assassinam os jovens da periferia. Somos os que maltratam e os que “bem tratam”. Somos iniquidade e solidariedade. Somos ódio e amor. Esses somos nós. Sinto saudade do “progresso autossustentado”, como previu Darcy Ribeiro, nosso querido antropólogo, em O povo brasileiro: “Estamos nos construindo na luta para florescer amanhã como uma nova civilização, mestiça e tropical, orgulhosa de si mesma. Mais alegre porque mais sofrida. Melhor porque incorpora em si mais humanidades. Mais generosa porque aberta à convivência com todas as culturas e porque assentada na mais bela e luminosa província da Terra”. Sinto saudade do Brasil. Sinto saudade de nosso primeiro encontro entre povos; está escrito, está na Carta de Caminha, foi em 22 de abril de 1500. Sinto saudade deste Brasil: “Além do rio, andavam muitos deles, dançando e folgando, uns diante dos outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então, além do rio, Diogo Dias, almoxarife que foi de Sacavém, que é homem gracioso e de prazer [homem de circo]; e levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se com eles a dançar, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam, e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem, fez-lhes ali, andando no chão, muitas voltas ligeiras, e salto real, de que eles se espantavam e riam e folgavam muito”.   

Tenho esperança no Brasil. Conheço seu povo, meu povo. Tenho esperança porque a esperança da terra vai além do Thydêwá, há o vídeo nas aldeias, os cineastas indígenas, o cacique Aritana, meu amigo, fazendo ressurgir o idioma Yawalapiti, fazendo o seu povo ressurgir do tronco do Quarup. Tenho esperança no Brasil porque as pombas urbanas voam em Cidade Tiradentes, no Pirambu, na Restinga, em Simões Filho, no Parque Itajaí, no Capão Redondo, em Nova Iguaçu. Tenho esperança no Brasil porque os Griôs caminham, cavoucam nossa memória escondida e a cantam com afeto. São Meninas de Sinhá, são Bola de Meia, são Nina, são Tainã. São quilombos, são mocambos, são aldeias, são favelas, são vilas. São fábricas, das poucas que nos restam. São agroecologia, são agrofloresta, são agricultura familiar. São economia popular, da reciprocidade, da dádiva. São jovens que se recusam a ser coisa. São invenção brasileira. Tenho esperança no Brasil porque de onde brota a desesperança, uma flor rasga o asfalto. Tenho esperança no Brasil de baixo, escondido, humilhado, explorado. É esse Brasil que precisa se encontrar e descobrir a força que tem. O Brasil do software livre, da cultura digital, da generosidade intelectual, da energia distribuída. Da economia solidária, do trabalho compartilhado, do mutirão, do Motirô. Das mulheres, das valentes mulheres que são mãe e pai, das valentes mulheres que enfrentam a vida, do ativismo, do feminismo, do trabalho, da esperança, do compromisso e do companheirismo. Tenho esperança no Brasil pelo devir, pelo que ainda vamos conhecer de nós mesmos, pelo que estamos a desesconder, pelo que vamos descobrir. Pelos homens, pelas mulheres, por quem é gente no gênero que for. Pelos velhos, pelas crianças, pelos adultos, pelos que estão a nascer. Por esses tenho esperança. Há água, há florestas, há jandaias, papagaios e periquitos, e onças e jaguares e macacos. São muitas as águas, são muitas as florestas, são muitas as aves, as onças os macacos e os jaguares. E os jacarés, o boto, o pirarucu, dourado. Essa terra já foi conhecida como Terra dos Papagaios, a terra das aves que falam. Tenho esperança no Brasil porque fazemos parte da “América do Sul/América do Sol/América do Sal”, conforme Oswald de Andrade nos dizia. Tenho esperança no Brasil porque somos América Latina e saberemos nos encontrar como irmãos. Tenho esperança no Brasil porque entre nós e a África há um rio chamado Atlântico, um continente se encaixando em outro, e saberemos nos encontrar como irmãos. Tenho esperança no Brasil porque na Europa também brota a esperança, e na América do Norte há quem resiste, e no Oriente Médio há quem ensaia outra forma de convivência e paz, mesmo que surgida de escombros. Os nossos irmãos asiáticos, os povos do Pacífico, do Himalaia, dos desertos. No Brasil todos nos fazemos irmãos, e se desaprendemos a nos fazer irmãos, teremos que reaprender. Com coragem, com alegria, coloridos, inventivos, criativos, brasileiros.

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