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Júlio, o anarquista

Pe. Júlio recebeu a Cidadanista para uma conversa aberta na paróquia da Mooca, na zona leste de São Paulo, onde é paróco há 32 anos. É de lá que ele resiste e luta com os moradores de rua contra o sistema e os governos que negligenciam a população que a sociedade quer esquecer. Na entrevista – que contou com a participação dos próprios sem-teto –, Pe. Júlio fala sobre o prefeito Doria, a Igreja e de como se orgulha em ser um fracassado e um anarquista, assim como seu ídolo, Jesus Cristo.

POR IVAN ZUMALDE

Há quantos anos o senhor está aqui na Paróquia da Mooca?

Pe. Júlio: Eu sou padre aqui há 32 anos.

Como vê a atuação da Igreja hoje e a atuação do papa Francisco?

Pe. Júlio: A Igreja sempre será multiforme, multifacetada e multiclassista. A Igreja sempre será feita de contradições, de contrastes e de diversidades, sem que nenhum grupo a absolutize. Hoje, nós vemos o papa Francisco em um momento que queremos que dure bastante, mas há que se dizer também que ninguém e em nenhum momento proibiu de trabalhar com os pobres, de conviver com os mais pobres. O grande problema na verdade é quando as pessoas preferem fazer outros caminhos, e em vez de seguir os ensinamentos de Jesus, querem seguir um “Jesus à la carte”, um Jesus conforme os próprios interesses.

E a opção pela periferia e pelos pobres é uma orientação do bispado ou uma opção sua?

Pe. Júlio: Minha e da Igreja também. Na Arquidiocese de São Paulo, eu sou vigário episcopal do povo de rua nomeado por dom Paulo Evaristo, cardeal Arns, dom Cláudio Humes e agora estamos dez anos com dom Odílio. Nunca nenhum dos arcebispos disse:  “não conviva com os pobres”. Agora, cada um diz: “Ah, mas o meu carisma não é esse. O meu carisma é esse.” Aí também vai das questões pessoais de cada um. Com dom Paulo havia uma entonação forte para a periferia, para as periferias existenciais e para as periferias geográficas, mas é difícil comparar um com o outro. Agora, nós estamos para servir aos arcebispos ou para seguir Jesus?

*****

Durante a entrevista realizada dentro da igreja, vários moradores de rua acudiram ao padre Júlio por diversas razões. Deixamos aqui a participação da população de rua de forma a dar mais veracidade e caracterizar o trabalho e o perfil de padre Júlio.

*****

Homem: Padre, com licença, eu posso
ver se tem alguma roupa aqui?

Pe. Júlio: Sim, claro!

Homem: Oh, padre?

Pe. Júlio: Oi?

Homem: O senhor não tem um chinelo pra me dar, não? Eu tô com um machucado com esse pé, cara…

Pe. Júlio: Ih, acho que não tenho não. Ainda mais
com esse número teu… Você falou com a Andreia?

Homem: Não.

Pe. Júlio: Pergunta para ela, mas acho que não chegou. O que chegou tá tudo aqui. Se tiver, tem outra
sacola ali, pode dar uma olhada.
Homem: Obrigado, padre.

*****

E como acha que a sociedade e a mídia em geral encaram essa opção?

Pe. Júlio: Há um neoconservadorismo que hoje é uma força avassaladora. Na política, na economia, na cultura… é uma força avassaladora.

E em comparação há trinta anos era pior? Como o senhor analisa o momento atual com o da ditatura militar?

Pe. Júlio: Eu acredito que no tempo da ditadura ainda se conseguia unir na militância e tudo mais. Hoje, está tudo mais fragmentado. Nós estamos em um período que é chamado da pós-modernidade, como Bauman diz, da “sociedade líquida” com um individualismo muito presente nas pessoas, faz parte da nossa cultura:  “Eu preciso buscar o que é bom para mim, o que me interessa, o que é o meu interesse”. E nesse contexto, nós vemos a direita, eu digo, esses grupos neoconservadores ou muito de extrema direita, crescendo como um fenômeno mundial.

E o papa Francisco seria a liderança de resistência desse fenômeno?

Pe. Júlio: Sim. Hoje, o único que destoa no mundo das figuras que aparecem por aí é o papa Francisco, porque você só vê lideranças mundiais defendendo a globalização que, sim, é um fenômeno irreversível, mas também muito desumanizador. Veja o que o papa falou em Gênova sobre a meritocracia. Ele atacou duramente essa questão da meritocracia. seja no mundo do trabalho ou da sociedade em geral. E os efeitos disso, já sabemos, é um aumento do preconceito e da discriminação.

*****

Homem: Oi, padre!

Pe. Júlio: Oi, meu filho. Cê tá bom? Olha só, queria falar uma coisa para você e que é para espalhar para todos. Saiu a nova portaria da prefeitura que o “rapa” não pode pegar roupa, cobertor, colchão, documento. Ou seja, saiu tudo o que o “rapa” não pode pegar. E a GCM (Guarda Civil Metropolitana) não pode nem interferir e
nem tocar em vocês. O.k.?

Homem: É… aí, sim, hein!

Pe. Júlio: Depois de tanta pressão, nós conseguimos, viu? Aqui, olha (Pe. Júlio retira e lê trecho de papel que tinha no bolso), aqui  diz que não pode pegar documento, sacola, medicamento, livro, mochila. Também não pode pegar carroça, material de reciclagem, instrumentos musicais e o que é de sobrevivência, como panelas e fogareiros, latas, colchões, papelões, travesseiro, cobertores, mantas, lençóis, toalhas e barracas desmontadas. Tá aí, viu? Conseguimos.

Homem: É isso aí, gostei.

Pe. Júlio: Pressionamos até sair isso.

Homem: Nóis agradece, padre.

Pe. Júlio: Não, isso é uma luta de vocês,
é uma vitória de vocês.

Homem: Com certeza.

*****

E o senhor? Sofre algum tipo de preconceito ou pressão por trabalhar em defesa da população de rua? Tem receio de que alguém da Igreja queira transferi-lo daqui?

Pe. Júlio: Bom, como eu tô aqui nessa paróquia faz muito tempo e, penso que não. Posso até estar errado, viu? Mas acho que um dos motivos disso é que nenhum padre quer vir para cá. E também tem o outro lado: nenhuma paróquia me quer também.

Por quê?

Pe. Júlio: Porque é uma paróquia pequena, pobre, enquanto prédio e em termos territoriais. É uma paróquia muito pobre, que tem muita participação e frequência dos moradores de rua. Na Sexta-Feira- Santa, no ofício da Paixão, tinha uns cinquenta moradores de rua participando de uma celebração aqui. Então, não é um lugar que atraia ninguém. Pergunta se alguém quer ir pra Nossa Senhora da Assunção ou para Nossa Senhora do Brasil, ou para Santo Ivo, no Largo da Batalha… ou para São Gabriel, na avenida São Gabriel. Tem filas de candidatos. Para aqui, para São Miguel do Arcanjo, não tem.

Por que acha isso, padre?

Pe. Júlio: Em geral eles falam: esse padre vem para cá vai trazer esses moradores de rua, esses maloqueiros atrás dele e tudo o mais. Então, a comunidade que está aqui e que participa durante a celebração, não rejeita. Nossa secretária Andreia é conhecida por todos eles, todos a conhecem pelo nome.

*****

Rodrigo: Oi, padre!

Pe. Júlio: Senta aqui. Como você tá, Rodrigo?

Rodrigo: Saí da cadeia agora, eu tô na rua.

Pe. Júlio: Rodrigo. Mas, fica firme filho, a tua dignidade
é maior que tudo, viu? Cê tá dormindo onde?

Rodrigo: Tô dormindo agora no parque
e tô com duas pernoites no abrigo.

Pe. Júlio: Vai continuar pedindo pra antecipar essa permanente, tá bom? E vê seus documentos, viu?

Rodrigo: Tô pedindo

Pe. Júlio: O que que falta?

Rodrigo: Tá tudo com eles.

Pe. Júlio: Mas você tem que tirar fotografia pra tirar suas outras coisas?

Rodrigo: É… eu falei lá com a mulher agora no
São Martinho, ela falou que a foto é lá em Pinheiros…

Pe. Júlio: Mas não! E no Centro Pop não tá fazendo foto?

Rodrigo: Não sei.

Pe. Júlio: Você sabe onde é o Centro Pop, ali na Cajuru, na Luz? Eu vou pegar no pé dessa história da fotografia, que a gente já cansou de falar isso, da necessidade de fazer aqui. Vamos ver isso, vamos achar um caminho, tá? Você vai almoçar no São Martinho, tá?

*****

O que falta no poder público para se sensibilizar por esse problema e ajudar e não negligenciar essas pessoas. Qual o problema?

Pe. Júlio: A máquina não anda. Tudo o que é burocrático, institucional, não anda. Podemos ver por esse exemplo: ele precisa de uma fotografia, é um negócio urgente, não é um negócio, “ah, ele vai lá pra Pinheiros”. E para ele ir pra Pinheiros? E o passe pra ele ir? Aí, como ele vai arranjar um transporte para ir pra Pinheiros? Então, eles deveriam fornecer, porque eles recebem recurso pra isso, o passe pra ele ir de metrô. Teria que ter o equipamento que tira fotografia aqui no Centro Pop. Então, falta articulação, a institucionalização pesa muito.

Você acha que isso depende da gestão municipal? Ou isso depende do sistema ou do Estado como um todo?

Pe. Júlio: Isso depende de gestão, mas depende do institucional e depende daquilo que o papa Francisco diz: esse modelo é o modelo do descartável. Então, achar que vai ter alguma ação do poder público que supere isso, nesse sistema, não vai.

Pode entrar e sair prefeito que não resolve?

Pe. Júlio: Exato. O poder nivela todo mundo muito parecido, e como disse o papa Francisco também: cuidado com o poder! Na economia, na política e na Igreja.

E o que acha de iniciativas da sociedade civil para se articular para resolver esse problema?

Pe. Júlio: Pois é, esses conceitos estão muito desgastados: sociedade civil, sociedade civil organizada, movimentos de não sei o quê. As entidades também se tornaram um grande negócio. Hoje, as entidades, as ONGs formaram cartéis de recursos públicos. Hoje, cada uma dessas pessoas que vivem nas ruas custa na prefeitura de São Paulo R$ 1.500 por mês, que se chegassem nas mãos deles, eles resolveriam os problemas deles muito mais rápido dentro dessa sociedade capitalizada do que no atendimento institucional. São R$ 15 milhões o orçamento da prefeitura para pessoas na rua. Mas que fica na estrutura.

Seria melhor que esse recurso chegasse de outra maneira para eles?

Pe. Júlio: Se desse uma bolsa, se tivesse uma renda mínima, se tivesse alguma coisa. Mas essas coisas, dentro desse sistema, é muito difícil, porque o sistema é montado para que seja assim: descartável. E eles são descartados, eles são condenados. Você vê, eu até fico com vergonha do Rodrigo. Quantos dias a gente tá pedindo um lugar pra ele, e ele quer um lugar para dormir, esse menino tá se deteriorando enquanto pessoa… Já tá usando alguma coisa, já tá se entorpecendo pra aguentar ficar na rua. E você vê, ele não tá nem revoltado, ele tá é decepcionado e eu tô envergonhado de tentar, de todo jeito e não conseguir. Eles estão aqui dentro do Parque da Mooca onde os fascistas da Mooca estão todos incomodados, querem matar, todos eles e a mim também e enterrar tudo junto.

E qual a estratégia para enfrentar essa situação, padre?

Pe. Júlio: É resistir. É insistir. E incomodar. Quebrar o pé da mesa. A mesa tá toda armada, bem bonita, com um banquete todo servido só pra alguns, e o negócio é ir lá e quebrar o pé da mesa. E deixar cair tudo no chão. Porque é o que sensibiliza as pessoas. Você vê, atualmente, a prefeitura tá perplexa diante da situação da chamada Cracolândia, que saiu de um lugar e foi para o outro.

É um debate muito importante hoje. Qual a relação do senhor com a atual gestão municipal?

Pe. Júlio: Nós tivemos uma reunião muito interessante na prefeitura esses dias, só com igrejas.

E como foi o encontro?

Pe. Júlio: Tinha mais de cinquenta pastores, pastoras, padres, frades, todas igrejas. Evangélicas, todas…. estava desde a Bola de Neve até os metodistas, os luteranos e os batistas, que têm o trabalho da jornada de Cristo.

E como foi lá?

Pe. Júlio: Então, as igrejas chamaram a atenção do poder público e disseram: outra operação como aquela do dia 21 e não nos chamem mais, porque nós não viremos. Nós estamos aqui, e todas as nossas igrejas estão feridas.

Qual sua radiografia sobre o que tem sido a Cracolândia na gestão Dória?

Pe. Júlio: Mudaram de lugar e a perplexidade continua a mesma. Porque você faz uma pergunta: como é que depois toda aquela operação, de todas as prisões que disseram que fizeram, por que é que o tráfico e a droga continuam chegando lá?

E o prefeito João Doria, padre.  Ele te escuta?

Pe. Júlio: Então, tem uma diferença entre ouvir e escutar. Você pode ouvir tudo. Escutar, é outra coisa…

E ele te escuta? Ele te ouve e te escuta, padre?

Pe. Júlio: Ele diz que sim… até tão me cobrando muito porque ele falou naquele dia lá que ele entregou os cobertores, que o padre Júlio é o nosso orientador…Tá! Mas orientador do quê?

Acredita que ele vê o Sr. e as igrejas como orientadores?

Pe. Júlio: Eu acho que se quer usar as igrejas como escudo. E as igrejas acabam sendo incômodos. Eu falei, e um pastor falou muito forte, dizendo: “Eu represento 4 milhões de, acho que eram os batistas. Somos 4 milhões de feridos com a operação”. Então, ele deu um recado…

Que é melhor escutar, certo?

Pe. Júlio: Sim, um recado forte de que é para escutar… porque em termos políticos, essas igrejas são muito unidas nas orientações que… somos 4 milhões de feridos. Ele deixou um recado bem grande e quando um pastor fala isso: “Olha, em nome da igreja que eu represento, somos 4 milhões e somos 4 milhões de feridos”, isso quer dizer:  “vocês querem os nossos votos?”.

E eles chamaram o senhor e as igrejas com qual proposta nessa reunião, então?

Pe. Júlio: Disseram: “Nós queremos articular as igrejas”, e eu falei: “Quem nos articula são os pobres, não vocês! Nós estamos todos sentados e articulados, todos nós nos conhecemos, todos nós nos falamos, todos nós nos ajudamos uns aos outros, porque quem nos articula são os pobres. São os irmãos de rua e os dependentes. Eles que nos articulam”.

*****

Pe. Júlio: Diga, minha filha.

Mulher: Padre, só o senhor pode
me ajudar. Sabe onde que tá
o Carlos com a Luciana?

Pe. Júlio: Ah, eles foram
lá pra São Miguel.

Mulher: Eles foram pra São Miguel?

Pe. Júlio: Eles foram pra São Miguel, que ele disse que arranjou um
trabalho lá e foi pra lá. Ele tava morando com você?

Mulher: Não, ele tinha um barraco 
(mulher começa a chorar).

Pe. Júlio: Eu vou ver se ele aparece por aqui,
porque ele disse que ia voltar. Ele aparecendo,
eu ligo pra gente ir lá falar com você, tá?

Mulher: (soluçando)… fala pra
ele que eu preciso só falar…

Pe. Júlio: Falo, falo sim, mas ele tava bem.

Mulher: Eu sou a mãe dele….

Pe. Júlio: Eu sei. Eu vi que eles
arranjaram um lugarzinho. Tão bem.

Mulher: tá bom.

Pe. Júlio: Você está lá no cimento, né?

Mulher: É. Do lado de cá do posto.

Pe. Júlio: Tá bom.

Mulher: Naquela debaixo das árvores, ali naquele posto.

Pe. Júlio: Eu sei.

Mulher: Tá? Obrigada, padre.

Pe. Júlio: E o banheiro? Você sabe se tá funcionando lá? Eles arrumaram? Já ligaram a eletricidade e a água?

Mulher: Tá tudo certinho

Pe. Júlio: Arrumaram e puseram o vaso e o chuveiro, né?

Mulher: Puseram, padre.

Pe. Júlio: Então tá bom. Melhor do que nenhum!

Mulher: Melhor que nada!

Pe. Júlio: Obrigado, filha!

Mulher: Obrigada, viu? Deus abençoe!

*****

Todos eles têm confianca no senhor, padre…

Pe. Júlio: Nossa questão é não desistir de estar com eles. De, a partir da visão deles, questionar as coisas… É a convivência que vai te dando argumentos, critérios, compromisso. É um caminho que não tem volta.

Mas esse caminho não reserva muitas tensões com o poder público?

Pe. Júlio: Sim, muitas. Muitas  vezes as autoridades políticas me mandaram eu me calar. Eu fui processado por um governo estadual.

Fale como foi isso?

Pe. Júlio: Foi no governo do Fleury. É que a gente cita os nomes e depois vem o Fleury perguntar. Fui processado pelo Pedro Franco de Campos no massacre do Carandiru, no incêndio da Febem, em 1992. E foi com a ordem dos bispos, viu? Um grupo de bispos deu ordem para que me processassem, “tem alguns padres que atrapalham” e, um deles era eu. Foi quando eu fui naquele programa que era do Paiva da Cultura…

O Marcelo Rubens Paiva que apresentava o programa Fanzine na TV Cultura?

Pe. Júlio: Isso. E ele falou para mim: “Existe ‘esquadrão da morte’?”. Você vê, era naquela época. E eu falei: “Ele existe. O ‘esquadrão da morte’ se chama Polícia Militar do Estado de São Paulo. E o comandante do ‘esquadrão da morte’ é o Pedro Franco de Campos”. E aquilo deu um fôlego…

Como enxerga o sistema político brasileiro?

Pe. Júlio: O sistema brasileiro é sempre um arranjo. Eu não acredito que a maioria tenha razão. Se a maioria tivesse razão, Jesus estaria errado. Porque ele era minoria. Jesus não era a maioria. Então, pra mim é claro: eu não quero estar do lado da maioria. Minha opção é estar do lado das minorias…

Acredita que essas minorias, não deveriam estar representadas no governo, dentro do Estado?

Pe. Júlio: Prefiro que elas estejam e devam questionar sempre o poder.

E não estar no poder?

Pe. Júlio: É, não estar no poder. Eu prefiro o caminho dos zapatistas. Sempre, desde baixo e à esquerda.

E qual sua opinião sobre democracia nos dias de hoje?

Pe. Júlio: É, pois é… esse é um outro conceito que a gente teria que rever: a democracia.

Como vê isso, Pe. Júlio?

Pe. Júlio: É um conceito extremamente desgastado. A democracia pôs o Trump como presidente dos Estados Unidos.

E no plano nacional? A questão seria mudar o sistema todo?

Pe. Júlio: Não sei… mudar de dentro do nosso sistema político partidário. São as elites que vão mandar! Depois existem os meios de comunicação colonizando a população. Você vê, se hoje fizer um plebiscito no Brasil, a pena de morte ganha, o rebaixamento da maioridade penal ganha, o extermínio do povo da rua ganha…

O senhor está desacreditado da política?

Pe. Júlio: Muitos conceitos, para mim, deixaram de existir: inclusão, oportunidade, política pública. Um conceito pra mim, muito complicado também, é a democracia… Esses conceitos foram… tão todos muito desgastados… Veja a cidadania! Eu tô com uma bronca dessa palavra!

Por quê?

Pe. Júlio: Cidadania hoje, pra mim, é domesticação. Quanto mais domesticado você for, mais cidadão você é. Quanto mais inofensivo você for, mais cidadão você é.

E que o senhor acha da época do PT como um projeto popular no Estado?

Pe. Júlio: O poder corrompe. Isso é uma coisa histórica. Veja o que aconteceu com os sandinistas… Mais sonho do que nós tivemos com o sandinismo…

Não acredita nas instituições?

Pe. Júlio: … o institucional é complicado. Talvez eu esteja ficando velho e anarquista….

Poderia ser uma solução…

Pe. Júlio: Existe uma ideia errada do anarquismo. Por exemplo, para a população que tá na rua, um caminho muito bom seriam os projetos de autogestão. E o próprio Ministério Público não quer projetos de autogestão.

Por quê?

Pe. Júlio: Porque diz que não tem quem se responsabilize. Olha, o povo da rua sabe fazer gestão. Esses dias eu tenho escutado e falado com eles sobre esses equipamentos que colocaram… têm um nome horrível, sabe, que estão acolhendo os moradores de rua? Por que é que eles não podem ter uma cozinha comunitária onde eles mesmos cozinhem? E que os grupos sejam menores, mais marcados pela autonomia e pela autogestão? Nós temos que mudar os nossos conceitos de grupos familiares e de convivência.

*****

Homem: Padre? Pode olhar se tem alguma sacola, pode?

Pe. Júlio: Pode, pode sim.

(Olha só, você vê, as pessoas falam que eles vêm aqui e só fazem bagunça. Agora, chega um irmão de rua nessa condição e me pergunta: “eu posso ver?”)

*****

É verdade. De fato não há nenhuma confusão. Mas, padre, me conte como é que é o seu dia a dia?

Pe. Júlio: Eu levanto sempre às seis da manhã, tenho missa às sete e depois eu tenho a convivência com os irmãos de rua, tenho algumas coisas de agenda, sempre é muito imprevisível.

Se considera um administrador de conflitos?

Pe. Júlio: Sim, nessa convivência com os moradores de rua, acontece de tudo: desafios, conflitos, crises. Outro dia, tinha um grupo que estava durante a missa e, quando eu os vi eu achei: eles estão procurando alguma coisa, né? Quando terminei a missa, eu cheguei e perguntei: “Vocês estão precisando de alguma coisa?”. E eles disseram: “Não, nós viemos rezar com você”. Ou alguém que chega ali na porta, eu penso que vai pedir alguma coisa e ele me diz: “Não, só vim aqui te ver, dizer bom-dia”

O senhor se sente uma referência para os moradores de rua?

Pe. Júlio: Eles percebem na convivência se você quer bem ou não. O povo da rua não acredita na palavra ou no discurso.

Em que acreditam?

Pe. Júlio: Eles acreditam na verdade de uma relação, de um compromisso. E eles sabem de que lado você está.

*****

Homem: Padre, bom dia!

Pe. Júlio: Bom dia, filho. E você, tá tudo o.k.?

Homem: Tá tudo mais ou menos.

Pe. Júlio: É?

Homem: Muita aflição, mas tudo bem…

Pe. Júlio: Por quê?

Homem: Tô doente, né?

Pe. Júlio: Você passou na Unidade básica de Saúde?

Homem: Eu passei, mas o médico não tá lá, o Ricardo. Aquela outra médica que está substituindo o Ricardo
disse que eu tenho que marcar com ele

Pe. Júlio: Você falou com a Meire?

Homem: Não, falei com a médica e ela falou: “ai, não é assim!”

Pe. Júlio: Não, não!… Procura a enfermeira Meire e fala assim: “Meire, o padre Júlio pediu pra você ver o que que eu tô precisando, por gentileza”.

Homem: Tá bom.

Pe. Júlio: Depois me dá um retorno.

Pe. Júlio: Você vê, esse menino aí é um travesti.

*****

O senhor acha que ele não tem atendimento em razão do preconceito?

Pe. Júlio: Sim, mas ele também precisa de saúde, né?

Claro!

Pe. Júlio: Nesses dias, até um militante do movimento LGBT me chamou a atenção, porque é interessante, dentro do conceito deles, quem se identifica como menina e tem relacionamento com os meninos, é uma relação hétero. Por causa da identidade de gênero

Mas voltando à questão do anarquismo, o que acha que podemos aprender com ele?

Pe. Júlio: Eu acho que tem muitas teorias e teólogos que sustentam que Jesus era anarquista… acho que o grande problema de Jesus era o poder. Tanto, que ele diz: “Os chefes das nações os tiranizam”. Ele dizia, “Entre vós, não sejam assim”!

E que o senhor faz aqui é um pouco isso, não? De resistir ao poder e ao chefe da nação?

Pe. Júlio: É… tentando, viu? É interessante ver o que Jesus falou: “Os chefes das nações, os poderosos, as tiranizam. E entre vocês, não sejam assim”…

Como o Senhor se define?

Pe. Júlio: Me defino numa palavra.

Qual?

Pe. Júlio: Fracasso.

O senhor tem orgulho de ser fracassado?

Pe. Júlio: Sim, porque o senhor que eu amo é um fracassado. Não fosse isso, nas igrejas não teria a imagem de um torturado, executado e abandonado.

O senhor se sente cansado, padre?

Pe. Júlio: Sim! Eu só tenho ânimo quanto tô com o pessoal e tenho que lutar com eles.  Isso me dá força, mas eu tô muito cansado…

O que te cansa mais ?

Pe. Júlio: Saber que dentro do sistema em que nós vivemos, tudo isso é um lixo… Uma presa me falou um dia, na penitenciária: Ela falou: “Cuidado, padre, que todos nos odeiam! E odeiam também quem gosta de nós também”.

E qual maneira encontra para descansar?

Pe. Júlio: Lendo, rezando…

E o que é que tá lendo agora?

Pe. Júlio: Ah, eu leio muito, tenho lido muito sobre a questão bíblica. Nós temos feito aqui na paróquia uma reflexão bíblica. Eu tenho falado pro povo aqui de coisas que nem os estudantes de teologia estão estudando na Bíblia.

O quê por exemplo?

Pe. Júlio: Nós seguimos o Alberto Maggi, um biblista italiano que na Itália é chamado de frei herético. Agora tem um livro dele que foi lançado há um tempo e foi reeditado na Itália e se chama Nossa Senhora dos Heréticos. Nós temos um grupo de uns quarenta.

Semanal?

Pe. Júlio: Sim, tá sendo semanal agora. No domingo, às cinco da tarde. E as pessoas ficam muito… Nós temos até uma apostila agora. Você gosta de ler?

Sim, gosto muito!

Pe. Júlio: Tem um livro dele que se chama A loucura de Deus: o Cristo de João. É um Cristo anti-institucional, antipoder, anticlerical, antitemplo, antirreligioso. A loucura de Deus. É da Paulus.

Obrigado, padre. Vou ler.

Pe. Júlio: ele é uma dinamite. Ele é… o dístico dele é muito bonito. É assim: “O Evangelho é uma bomba. O que eu mais quero é que o estilhaço pegue em você”. Que o estilhaço te acerte!

Muito bom! E obrigado pela entrevista, padre.

Pe. Júlio: Eu que agradeço

Pe. Júlio: agora vem cá que eu vou mostrar um pouco o meu mundo secreto aqui…

Vamos lá!

*****

Mulher: Oh, senhor padre, meu nome é Rozina…

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