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Jihad

“Tal como os indivíduos exteriorizam sua vida, assim são eles. O que eles são coincide, pois, com sua produção, tanto com o que produzem como também com o modo como produzem. O que os indivíduos são, portanto, depende das condições materiais de sua produção” (Karl Marx e Friedrich Engels, A ideologia alemã 1846).

por EUDES CARDOZO

O atual estágio da evolução capitalista impõe sua dinâmica funcional pela força diariamente, como diria Mano Brown: “Pelo rádio, jornal, revista e outdoor. Te oferece dinheiro, conversa com calma. Contamina seu caráter, rouba sua alma…” Todas as relações estabelecidas dentro dessa máxima mundo estão permeadas pela ideologia dominante. O trânsito e o trajeto para casa, o trabalho e a sala de aula, o amor e o café, todos bebem da dinâmica funcional imposta. Nos tornamos todos potenciais vencedores, incansáveis e invencíveis competidores.

O sistema impõe a competição, a disputa e o duelo. Afinal, é assim que as coisas são, é desse modo e para esse modus que trabalhamos. Diariamente, moídos e triturados pelas engrenagens capitalistas, convertemo-nos todos nas próprias engrenagens da máquina de moer gente e gerar lucro.

O embate ideológico levado a nível visceral com o qual temos nos dado é a vitória de uma única ideologia. É a vitória da permanência. É o texto da dominação convertido em discurso e prática. O belicismo das relações pessoais é a ação efetiva da máxima competitiva capitalista, do individualismo e da ânsia de vitória. Acreditar que não somos afetados pela ideologia dominante é o próprio efeito da ideologia dominante, sua causa e consequência.

O engodo de nos considerarmos seres especiais por determos valores progressistas funciona contra nós mesmos. Possuir ou compartilhar de ideais humanistas não nos torna menos vulneráveis aos ataques constantes e massivos da ideologia do establishment. Ser de esquerda não nos confere um colete à prova dos projéteis disparados ad eternum pela metralhadora capitalista. Se precisamos combater o inimigo por dentro a fim de vencê-lo, faz-se necessário como nunca antes combatê-lo em nosso interior, como diria o jagunço Zé Bebelo, após conceber anistia ao inimigo capturado, na obra Grande sertão: Veredas, de Guimarães Rosa: “A gente tem de sair do sertão! Mas só se sai do sertão é tomando conta dele adentro”.

Embora deturpado pela mídia corporativista e pelo universal prisma mundo norte-americano, o termo islâmico jihad comporta os preceitos de um exercício útil aos nossos tempos. Jihad não é a mera peleja contra os infiéis. Trata-se de uma purificação do coração via expiação, verificação de ações e intenções aplicando à prática correções da conduta. O exercício jihadista pode ser executado, doutrinariamente falando, pelo coração, purificando-se espiritualmente na luta contra o mal; pela língua e pelas mãos, difundindo palavras e comportamentos que defendam o que é bom e corrijam o errado; por último, pela espada, praticando a guerra física.

Nossa jihad deve começar o quanto antes. Em tempos de exacerbado fratricídio, o cuidado prévio de não meramente vencer, mas ouvir, torna-se uma ínfima porém valorosa vitória contra a máxima dominante. Ao defendermos com unhas e dentes posições ou ideais, devemos preservar nossas unhas e dentes e as de outrem, tomando o cuidado de não sermos vencidos por nós mesmos. O outro é ainda, por mais que não mais enxerguemos assim, a barreira intransponível aos avanços tecnológicos e persuasivos da humanidade, ao convencimento ou conversão induzida. O outro pertence a si mesmo, com suas dores, delícias e contradições.

“O que nos resta é continuar tentando nos afastar desse ‘nós’ que somos agora. Porque esse ‘nós’ é, justamente, a maior vitória do inimigo que não cessa de vencer” (Tony Hara, Ensaios sobre a singularidade).

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  1. O TEXTO TROUXE REFLEXÕES SOBRE COMO NOSSAS AÇÕES ESTÃO CIRCINSCRITAS NUM MEIO VORAZ, E COMO NOSSOS PRÓPRIOS CORAÇÕES TAMBÉM SE TORNAM PULSANTES DESSA REALIDADE EGOÍSTA, COMPETITIVA, INDIVIDUALIZANTE. O MAIS IMPORTANTE FOI TER COLOCADO O TERMO JHAD, QUE TANTO SOFRE DE PRECONCEITOS DO SENSO COMUM MANIPULADO PELA IRRACIONALIDADE DOMINANTE, PENSAR DE FORMA CONCRETA O QUE A PRÁTICA JIHADISTA É MOSTROU AS PRÓPRIAS CONTRADIÇÕES DO TERMO, ABRINDO CAMINHO PARA OLHARMOS, COM O MODO COMO O ARTICULISTA USOU NO TEXTO, AS NOSSAS PRÓPRIAS CONTRADIÇÕES – PODENDO ASSIM PENSAR EM FORMAS DE ALTERAR ESSA FORMA VIGENTE.
    BELO TEXTO!

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