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Inovação social

Uma legião de militantes se organiza para criar mais justiça social no Brasil. São empreendedores diferentes e motivados pelo propósito de mudar a realidade e construir negócios sociais de impacto. Conheça o setor que cresce em meio à crise e inspire-se em mudar o mundo usando o capitalismo.

por FEL MENDES

“Entre mudar o mundo e ganhar dinheiro, fique com os dois””

A frase já é um clichê no universo do empreendedorismo, mas continua sendo a maneira mais rápida de explicar o que são negócios de impacto. Essa tendência de empresas que querem resolver algum problema do planeta e prosperar fazendo isso tem ganhado força nos últimos dez anos. No Brasil, os olhares mais atentos viram nascer todo um ecossistema capaz de sustentar seu próprio desenvolvimento. Incubadoras, aceleradoras, fundos de investimento, family offices, mentores, startups, eventos… E, claro, essa movimentação chamou a atenção dos meios de comunicação (que em 2017 abordaram como nunca o tema), de mais empreendedores (que decidiram finalmente tirar aquela ideia do papel) e de corporações globais (que estão olhando o florescimento do mercado com bons olhos). O resultado disso é que, a despeito da crise econômica, os negócios de impacto têm crescido em volume, relevância e investimento.

Bom, falando assim até dá vontade de largar tudo e se jogar nessa piscina. Alto lá. A parte mais chata da história é que o mercado ainda é incipiente e concentra pouquíssima diversidade, os investimentos são de alto risco e os empreendedores estão suando para garantir seu lugar ao sol.

Recentemente, em um dos primeiros grandes esforços para mapear o ecossistema dos negócios de impacto, a Pipe.Social, que é uma vitrine de negócios sociais, articulou com cerca de quarenta organizações e coletou informações de 579 negócios em diferentes estágios de maturação. Destes, 40% têm menos de três anos de formação.

Isso ajuda a explicar o fato de que a grande maioria, 79%, esteja procurando investimento, 35% ainda não têm nenhum tipo de faturamento e apenas 7% faturam acima dos R$ 2 milhões. Para quem quer investir, é o cenário ideal: um rol gigante de oportunidades e ações a preços bem acessíveis. Para se ter uma ideia, 38% querem levantar até R$ 200 mil (cifra considerada módica no universo das startups).

Enquanto as startups se digladiam para saber quem vai continuar existindo após três anos de vida (que não à toa é chamado no mundo do empreendedorismo de Vale da Morte), o cenário é animador do lado de quem detém o capital. De acordo com o Panorama no Setor de Investimento de Impacto da América Latina divulgado pela Ande (Aspen Network of Development Entrepeneurs), uma rede global que reúne mais de 250 organizações que incentivam o empreendedorismo em mercados emergentes, o total de recursos destinados a iniciativas de impacto social saltou de US$ 177 milhões (em 2014) para US$ 186 milhões (em 2016). Especificamente no Brasil, em 2016, metade dos investidores afirmou ter uma meta anual de retorno de 16% ou mais.

Quem olha o mercado de dentro tem a mesma impressão: “Todos os sinais que tenho visto mostram que isso é uma tendência que vai cada vez tomar conta das discussões de investimento. É um caminho que não vai ter volta. É a pasta pra fora do tubo”, analisa Daniel Izzo, que em 2009 cofundou a Vox Capital, um fundo de investimentos exclusivo para negócios de impacto que já aportou centenas de milhões de dólares em diversas iniciativas.

Em 2017, aliás, o Brasil viu duplicar o número de fundos de investimento de negócios de impacto, e segundo Daniel ainda há mais novidade por vir, dessa vez no setor dos family offices. “Tem dois family offices grandes que já estão criando uma estratégia única de impacto para todo portfólio”, revela. Para quem não sabe, family offices são chamados os investidores que operam dinheiro de famílias ricas que vêem nos empreendedores sociais uma ótima maneira de multiplicar seu patrimônio e uma saída muito mais eficiente do que a filantropia. São muitas vezes mais ágeis do que os tradicionais fundos de investimento e têm mais flexibilidade.

Outro indicativo de que a pasta realmente saiu do tubo é o interesse de grandes empresas no assunto. “Tenho falado com bancos e instituições financeiras desde 2009. E em 2009 eles marcavam reunião com uma visão de curiosidade: “Vamos ver do que se trata”. Em 2012 já se diziam em um novo estágio: “A gente sabe o que é, mas ainda vamos ver se é pra gente”. E as conversas que a gente tem tido de 2016 em diante mostram outra visão deles: “A gente sabe o que tem que fazer, mas estamos no estágio de decidir como fazer”, conta Izzo.

Mais do que investir, algumas empresas têm outros planos em mente. “Eu tenho visto muitas empresas olhando para negócios sociais com o objetivo de fazer uma aquisição para, de repente, criar um novo setor dentro da empresa”, conta Carolina Aranha, que trabalha com negócios de impacto há sete anos e é fundadora da Pipe.Social. Afinal, ter um negócio que faça bem para o planeta e ainda renda dinheiro era tudo o que as empresas queriam, e o setor de responsabilidade social não poderia entregar. Para se ter uma ideia, entre as marcas envolvidas com o Prêmio Empreendedor Social 2017, promovido pela Folha de S.Paulo, estão Vivo, Coca-Cola, C&A, Porto Seguro, Insper e UOL.

DESIGUALDADE NO TOPO DA PIRÂMIDE

Apesar de o cenário parecer bem animador, alguns dados da pesquisa divulgada pela Pipe.Social são bastante eloquentes e indicam uma realidade dura de engolir: os empreendedores são, em sua maioria, homens e do Sudeste. Apenas 20% das iniciativas são fundadas por mulheres. Mudar o perfil do empreendedor de impacto é um dos maiores desafios segundo Ana Julia Ghirello, fundadora da abeLLha, que incuba negócios de impacto no estágio inicial: “A maioria dos negócios de impacto são feitos por gente das classes A e B para as classes C, D e E. É um grande desafio capacitar quem vive o problema na base para solucioná-lo por meio de um negócio”.

Contrariando as estatísticas, um caso tem ganhado bastante atenção: o do Saladorama, fundado por Hamilton Henrique, empreendedor negro nascido na comunidade Santa Marta. Operando desde 2014 com a missão de democratizar o acesso à comida saudável em regiões mais pobres, o Saladorama vem atingindo resultados.  Ao todo, já foram mais de 180 mil pessoas impactadas e em 2016 a startup faturou R$ 1,6 milhão e lucrou R$ 300 mil. A verdade é que, pouco a pouco, vão aparecendo empreendedores sociais que não largaram tão na frente na corrida do privilégio. Ou seja, a história de Hamilton não é a única, mas é uma das mais empolgantes.

Mesmo com números interessantes, o Saladorama ainda não pode ser considerado um case (como o mercado costuma rotular). E, verdade seja dita, apesar dos vários indicativos de que os negócios de impacto são realmente um movimento de vanguarda, ainda não há uma história pra contar que tenha obtido estrondoso retorno financeiro, bem como impacto na sociedade.

Para quem olha o furacão de dentro, é tudo questão de tempo. “Este ainda é um dos problemas, a falta de êxitos de sucesso. A gente não tem muito como inspirar investidores porque o Brasil ainda não tem uma startup que foi investida, teve uma saída com retorno social e financeiro. Mas eu acredito que essa safra de empresas que já estão há mais de quatro ou cinco anos dentro desse setor conseguirão dar ótimos resultados”, comenta Carolina Aranha.

A percepção de Daniel Izzo é a mesma. “É natural que leve um tempo para a gente ter um case mais sólido, mas eles já estão aí. Posso falar três que estão seguindo um caminho lindo: o Avante, o Dr. Consulta e o Geekie, que estão captando rounds significativos de investimento com players grandes do mercado. Estou otimista, acredito que se formos ter a mesma conversa daqui três anos, o papo será diferente.” Isso pode ser explicado com uma constatação razoavelmente simples: a maioria dos negócios de impacto têm menos de três anos de formação. Ou seja, tudo leva a crer que a maior parte do investimento tão sonhado por algumas startups de impacto ainda leve algum tempo para entrar na conta dos empreendedores sociais. Mas este não é o maior problema e nem a maior motivação dessa legião de inovadores sociais. O que os move é a vontade de transformar o mundo capitalista em um lugar mais justo usando o próprio sistema.

CURSOS

IN LOCO Andreas, Alice e Lucas em ação no projeto Viela


Despertar, aprender e mudar

Para poder ajudar melhor, uma oferta de cursos e ferramentas promete capacitar novos empreendedores sociais na criação e gestão de negócios de impacto.

Um segundo e importante movimento que vem na esteira do crescimento dos negócios sociais no Brasil é o segmento de cursos em empreendedorismo social. São cursos de capacitação e formação para quem busca um trabalho com mais propósito e quer estruturar melhor seus projetos sociais por meio de ferramentas que garantam a sustentabilidade financeira e impacto nas comunidades. “Buscamos despertar uma nova visão de mundo em nossos alunos a partir da vivência direta com os problemas”, diz Alice Castello Branco, coordenadora do curso BDC – Business Design for Change – oferecido pelo Sense-Lab, uma organização com foco em estratégia e capacitação em negócios pensados para a base de pirâmide social. A vivência mencionada por Alice significa experiências práticas que os alunos têm dentro de comunidades na busca de soluções reais das pessoas. Por meio de parcerias locais com empreendedores que já atuam em territórios periféricos, o Sense-Lab proporciona um contato e um aprendizado real. “Essa conexão gera empatia, e é desse encontro que a solução vai emergir”. pontua Alice. Um dos parceiros é o Projeto Viela, dentro do Jd. Ibirapuera, extremo sul da capital paulistana, liderado pelo líder comunitário Buiu, que proporciona projetos de cultura e esporte para crianças do bairro. Somado à experiência prática, o curso ensina a aplicação de ferramentas como “Teoria U” e “Design Thinking”, metodologias que ajudam a tirar do papel a ideia dos alunos.

A própria ideia do Sense-Lab surgiu da vontade de um trabalho com mais propósito de um dos seus fundadores, o engenheiro  Andreas Ufer. Depois de atuar em diversas áreas, como consultoria e sustentabilidade, Andreas decidiu fundar o Sense-Lab em 2013. Após também investir em formação dentro e fora do país, participou do curso da Artemisia, outro importante organismo de apoio pioneiro no país (que também disponibiliza cursos presenciais e on-line), e criou sua empresa. “Estamos para fomentar o setor de negócios sociais”, afirma Andreas, que sabe que o setor ainda está em formação e que um dos principais desafios para a Sense-Lab é justamente a formação. “Queremos despertar as pessoas que buscam mais propósito. É o passo inicial para eles iniciarem uma transformação mais ampla”, sintetiza Andreas, que tem a esperança de ver o território do extremo sul mudar com líderes como Buiu, do projeto Viela. “Nosso sonho para os próximos dez anos é ver a região mudar”, afirma Andreas, referindo-se ao território formado por Capão Redondo, Jd. Ângela e entorno. Que o sonho se torne realidade.

 

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