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Futebol e política: o lado de dentro e de fora da bola

Um bate-papo com Walter Falceta do CDC (Coletivo Democracia Corinthiana) sobre Sócrates, democracia e, claro, futebol

por FRANCIS DUARTE

Cidadanista conversou com o presidente do Coletivo Democracia Corinthiana, Walter Falceta, sobre a relação entre futebol e política em um bate-bola sobre os rumos da sociedade brasileira.

Inicialmente Falceta ressaltou a importância do binômio futebol e política a partir de suas primeiras lembranças familiares e dos jogos de bola no próprio quintal de casa, com os amigos, no início do processo da vida social. A partir daí, fez alusões sobre seus antepassados imigrantes e, como o próprio Corinthians, time de seu coração, abraçou os chamados excluídos e marginalizados por uma sociedade que se pautava em classes. Era uma agremiação inclusiva, pois introduzia no palco dos acontecimentos a figura do trabalhador comum, alçado à categoria de craque, capaz de no campo de futebol mostrar que era capaz de tudo, de merecer seus direitos, de aspirar ao elogio público, de ser humano integralmente, em sua plenitude.

Walter também contou um pouco sobre a origem do CDC e ressaltou que foi a partir de um encontro informal para uma manifestação pública, na Avenida Paulista com Rua Augusta, com cerca de setenta cidadãos corinthianistas, que surgiu o grupo. Na época, os primeiros membros começaram a organizar encontros e articular ações em favor da democracia, utilizando como matrizes as ideias dos fundadores do clube, em 1910, e também das atividades da Democracia Corinthiana, no início dos anos 1980.

Percebeu-se logo que havia outras metas comuns, como a luta contra o racismo, o machismo e a homofobia. E assim, sobre esses pilares, foi constituído o Coletivo Democracia Corinthiana (CDC). “Coletivo, este é o termo, porque consideramos que é assim, com base em identidades gregárias particulares, mas com visões comuns universais, que se pode reorganizar a esquerda”, pontua Walter. 

Quando perguntado sobre como seria a postura de Sócrates hoje, caso estivesse vivo, perante a política e o futebol, o presidente do coletivo  afirmou  que o ídolo era muito autêntico e uma “metamorfose ambulante”. Sócrates foi filiado ao PT, por exemplo, e fez muitas críticas ao partido, especialmente quando considerava que as causas socialistas e humanistas estavam sendo trocadas pela conveniência da governabilidade.

Ainda assim, o Doutor nunca mudou de lado e nunca demonizou seus parceiros de caminhada. Deu broncas em Lula, mas sempre reconheceu seu valor como condutor de um processo espinhoso (e lento) de reforma das estruturas sociais.

Sócrates tinha uma relação ruim com os cartolas corintianos porque acreditava que não seguiam nossa tradição popular-democrática e, por conveniência, tiravam proveito, até mesmo pessoal, dos negócios associados ao futebol moderno. Ele morreu amando o Corinthians, mas muito pouco à vontade com aqueles que dirigiam a associação. Se estivesse vivo, “tenho certeza de que estaria participando do Coletivo Democracia Corinthiana. E nos daria muitas broncas, certamente”, reforça Walter.

Questionado sobre a relação atual entre jogadores e questões sociopolíticas, Walter afirma que os jogadores sentem-se pouco à vontade para discutir temas como esses, pois foram “educados”, desde a base esportiva, em estruturas verticalizadas, autoritárias e castradoras do pensamento crítico. “Os jogadores são formados para se converter em mercadoria humana nas novas dinâmicas do modo de produção capitalista.” Desde cedo são aconselhados a não se colocar em questões que não sejam as da execução restrita de seu ofício com a bola. Se tiverem sucesso, logo serão paparicados e deverão pagar com submissão aos cartolas e agentes. Em razão disso, infelizmente poucos atletas ousarão erguer antenas que possam, de fato, sintonizá-los com os problemas do homem comum. Vivem em redomas.

Walter ainda destacou a luta progressista das demandas tidas como transversais, como as das mulheres e da comunidade LGBT.  Felizmente, essa mobilização ocorre, segundo as palavras de Falceta, a partir de encontros das Mulheres de Arquibancada (que envolve companheiras de todos os cantos do Brasil) e outros movimentos correlatos, como o Movimento Toda-Poderosa Corinthiana  (MTPC).

O trabalho tem sido muito árduo, especialmente em virtude do viés de gestão machista de boa parte das torcidas organizadas. Elas podem ser, por vezes, avançadas na questão social, mas cultivam tradições machistas inventadas. Há grupos em que a mulher, por uma estranha superstição machista, não pode tocar no bandeirão, por exemplo.

Outro desafio lembrado é o de constituir pontes para que as mulheres pratiquem o futebol e dele se tornem protagonistas no campo de jogo. O CDC apoia essas ações. Seus membros frequentemente comparecem aos jogos do time principal feminino do Corinthians.

Falceta mostrou o início de uma ação particular no campo da base de formação, muito incipiente e que será divulgada no futuro. Nos jogos do CDC há a tentativa de se trabalhar com a proposta do futebol misto, em que homens e mulheres compõem a esquadra. No futuro distante, Walter ainda acredita que campeonatos oficiais acolham times mistos de gênero, vencendo o equívoco da matriz biologizante de separação. “Não creio que seja utopia.” A entrevista se encerrou com uma fala muito significativa sobre o futuro da relação futebol e política: “A bola não tem lado, não é? De repente, tem. O lado de fora e o lado de dentro. O de dentro pode ser o lado da obscuridade, da ausência do contato com os praticantes, é o feudo, é o lugar (ou não lugar) em que não ocorrem trocas solidárias. O lado de fora é aquele em que todos tocam com as mãos e os pés o doce fetiche. É o lado da luz, é o lado que permite o intercâmbio do dar e receber. O lado de dentro jamais vai deixar de existir. Mas a bola e seus amantes, à medida que se conscientizem das virtudes da reciprocidade, estarão cada vez mais do lado de fora. Porque futebol é como família amorosa: a verdadeira união não é para dentro, é para fora”.

Desejamos que assim seja! Avante!

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