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Fórum da esperança em Marabá

Em entrevista para a Cidadanista, o arte-educador e escritor Dan Baron Cohen fala sobre a realização do 1º Fórum Bem Viver em Marabá (PA).

Qual o principal legado do 1º Fórum Bem Viver e os impactos para o futuro do Brasil e do mundo? 

O Fórum tinha objetivos de ativismo e gestão. O objetivo ativista era idealizar e executar uma intervenção cultural coletiva e inovadora para impedir a construção da usina hidrelétrica de Marabá (UHM) e o megaprojeto industrial de mineração da hidrovia. O objetivo gestor era, e continua sendo, cultivar uma metodologia capaz de fomentar uma rede de bem viver, de projetos alternativos e abastecidos por energia solar. Os dois objetivos são interligados, se estendem além do território amazônico e contam com a ajuda de solidariedade mundial para realizar uma intervenção aqui na Amazônia.

Um dos legados do fórum foi a sensibilização em torno de cinquenta ativistas sobre as realidades emergenciais na Amazônia – do sul e do sudeste do Pará. Ao juntar a experiência coletiva para semear núcleos de intervenção em Tauari e em São João do Araguaia (que vai realizar um Festival Bem Viver em dezembro), o fórum também aprofundou a confiança nos seus integrantes em uma pedagogia “artístico-ecocultural” tanto como intervenção política, quanto como metodologia eco-pedagógica, que pode ser aplicada na gestão de projetos comunitários e de democracia participativa. Depois de tantas décadas de fóruns autoritários e cansativos que produziram inevitáveis e inviáveis “cartas coletivas”, escritas por poucos em nome do “povo”, o principal legado talvez seja a esperança que um paradigma antigo-contemporâneo e flexível já existe para cultivar uma democracia aberta e participativa.

Nos conte um pouco sobre o projeto de tornar Marabá uma referência em bem viver

Convidamos uma diversidade de gestores para participar no fórum em “formato caravana” como ação experimental piloto que aproximou todos os setores da sociedade civil em torno de um projeto paradigmático. A experiência foi socializada aqui em Marabá, na região do sudeste do Pará, e em redes sociais, confirmando a força motivadora dessa metodologia em comunidades populares. A partir dessa experiência-piloto, estamos agora lançando microfóruns, simpósios, festivais e colaborações de  bem viver em Marabá para inspirar colaborações internacionais, focalizadas sobre a ressignificação de Marabá. Na prática, nosso objetivo principal é captar 40 mil placas solares até o final de 2019, para abastecer projetos alternativos viáveis. Assim, esperamos que Marabá vai se reimaginar como uma cidade de bem viver, tornando-se exemplo inspirador de vida sustentável na Amazônia, nas Américas e no mundo.

Quais são as estratégias para influenciar o poder público em prol da sustentabilidade em uma época em que o governo federal busca aumentar a exploração comercial mineral da Amazônia?

O poder público aqui em geral está corrompido e comprado pelo paradigma predador atual, com a “contaminação” das instituições e até dos movimentos sociais. A renovação ou transformação do poder público implica a emergência de construir um novo paradigma cooperativo de bem viver, enraizada na formação de comunidades éticas e corresponsáveis.    

Estamos idealizando tudo isso com algumas estratégias principais: praticar bem viver em vez de falar sobre ele; usar todas as linguagens artísticas para estimular as múltiplas experiências humanas; juntar protagonistas “opostos” ou “improváveis” para praticar e simbolizar o paradigma do bem viver; e usar esses processos e políticas públicas de bem viver para cultivar democracia participativa e assim substituir a democracia representativa falida.

Simultaneamente, estamos informando parlamentos regionais, redes de profissionais internacionais, ONGs e governos de peso (em particular na Europa, na África e Oceano Pacífico), sobre os efeitos catastróficos socioambientais causados pela industrialização e comercialização desreguladas da Amazônia e que impactam na violação de direitos humanos na região e violentam tratados e acordos das Nações Unidas. Estamos também estudando e advogando uma taxa internacional de bem viver para deixar minerais in situ na Amazônia, para manter esse bioma de “rios voadores” intacta e promovendo o uso de energias limpas e renováveis, particularmente de energia solar, na vida cotidiana, e não somente nos setores industrial e comercial.

Como as ações propostas no Fórum ajudam na melhoria de vida da população local em prol da justiça social?

Ajudam promovendo a compreensão sobre o significado da vulnerabilidade da Amazônia e informando sobre a necessidade de incorporar um cuidado ambiental com o território. Sem esse cuidado e com suas implicações socioeconômicas, nenhuma justiça social acontece ou se sustenta. 

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