Share, , Google Plus, Pinterest,

Postado em

“Há um ódio fundamental às mulheres que não que não se calam”, diz filha de Berta Cáceres

Em entrevista exclusiva para a revista Cidadanista, filha da ativista assassinada Berta Cáceres desabafa: “O assassinato da minha mãe caminha para a impunidade”.

por VITOR TAVEIRA

Em março de 2016, o assassinato de Berta Cáceres repercutiu em todo o mundo. Indígena, ambientalista e ativista de direitos humanos, ela era uma importante liderança do movimento social hondurenho e articulava lutas também no nível internacional. Conversamos com uma de suas filhas, Berta Zuñiga Cáceres, conhecida como Bertita, que integra o Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (COPINH), da qual sua mãe era uma figura destacada. Em passagem pelo Brasil, Bertita dialogou com movimentos do Brasil e outros países que travam lutas similares e presenciou homenagens a sua mãe, uma referência e mártir da causa.

Quem foi sua mãe, Berta Cáceres?

Foi uma líder do povo Lenca que sempre lutou pela defesa do território e direitos fundamentais dos povos indígenas. Também foi líder do movimento social em Honduras, principalmente depois do golpe de Estado de 2009.

Mas desde muitos anos antes, ela, junto ao COPINH, trabalhou também em articulações meso-americanas em defesa dos rios, contra as represas, contra a militarização, contra a mineração.

Apostou muito nos últimos anos em denunciar o Agua Zarca, que é um projeto hidroelétrico que ainda continua ameaçando. Foi assassinada no ano passado, dia 2 de março, justamente por uma forte luta contra esse projeto hidroelétrico que dizemos que não é apenas da empresa construtora do projeto, mas sim uma política de Estado em que também se via envolvida a empresa, porque há funcionários do Estado, militares, inclusive de alto mando, que expressam uma política de perseguição às lideranças e às pessoas que estão na luta pela defesa dos territórios.

Sobre o assassinato de Berta, houve algum esclarecimento ou sinais de que haverá justiça?

Nós sabemos que está caminhando para a impunidade e denunciamos isso de maneira reiterada. Diante da reação internacional tão grande que houve, o que as autoridades fizeram foi capturar os supostos autores materiais do crime para criar uma cortina de fumaça sobre o tema. Mas sabemos que o desafio que é a captura dos autores intelectuais é ainda maior, porque essa empresa que se chama Desarrollos Energéticos S.A. (Desa) tem como um dos donos uma das famílias mais poderosas de Honduras, que apoiou o golpe de Estado e que é intocável. No momento em que se toque alguém dessa família, pode-se dizer que basicamente houve uma revolução em nosso país. Nós estamos participando no litígio interno, tratando de disputar a justiça, de mostrar à sociedade hondurenha e ao sistema de justiça que essas coisas não podem acontecer. O processo está cheio de irregularidades, pois é a forma de atuar do Estado de Honduras, que também é cúmplice do delito e obviamente não quer a justiça. Estamos sempre demandando a captura dos autores intelectuais e vamos promover muitas ações para que isso se concretize. Vamos fazer isso com a solidariedade internacional e também com a força das comunidades que seguem lutando e pedindo justiça em relação a esse crime.

Como tem sido o processo de solidariedade e de memória diante de sua morte e seu legado?

Acho que a memória dela é muito forte, porque ela foi uma caminhante desses espaços dos movimentos, uma articuladora no âmbito da América Latina, que até certo ponto levou adiante esse trabalho. Há bastante gente comprometida que ficou muito sentida e é um tema que sempre comove as distintas comunidades, sobretudo quando são pessoas que se identificam com as vítimas, com os afetados de todo esse modelo e em toda região subcontinental que é América Latina. É uma problemática com a qual todos nos identificamos. Honduras é um país dependente, é um país que assassina.

Como esse projeto de desenvolvimento leva a todos esses conflitos na América Latina?

No Brasil, conversamos com as pessoas afetadas por barragens e vemos problemas bastante similares. Em nossas comunidades do povo Lenca, temos enfrentado toda política de geração de energias limpas, porque assim a chamam – nós dizemos energias assassinas. São muitos projetos hidrelétricos, há 49 concessões só em nossa região, que é muito pequena em relação ao Brasil, por exemplo.

Obviamente essas políticas se fazem à margem dos direitos do povo e contra a vontade de comunidades que claramente disseram que não querem esses projetos hidroelétricos em seus territórios. É uma política que foi impulsionada logo que houve o golpe de Estado de 2009. Honduras foi anfitrião desses golpes de Estado de novo tipo, que agora o Brasil também está enfrentando.

Esse golpe de Estado representou a aceleração de todo esse modelo extrativista e saqueador. Em um só dia foi concedida uma quantidade muito importante de concessões de rios para hidrelétricas e mineradoras, entre elas a de Agua Zarca.

Acho que entre as semelhanças também está o fato de que as comunidades estão fazendo resistência contra esses projetos e fortalecendo tanto a organização comunitária como outras estruturas para enfrentar essas problemáticas e defender os bens comuns da natureza. Em comum também vejo a perseguição às mulheres. Há um ódio fundamental às mulheres que não têm medo de falar, que não se calam e denunciam, que nomeiam as empresas e empresários, os bancos que também estão por trás, que financiam e possibilitam esses projetos.

Quais as estratégias de resistência a esses projetos em Honduras?

Acho que há muitos níveis. Algo muito importante num primeiro nível é o fortalecimento organizativo das comunidades. Como estruturas, temos os conselhos indígenas, que são como a célula de toda estrutura organizativa do COPINH. Os conselhos indígenas que motivam a luta, que organizam a luta, mas que também pensam a vida para além do capitalismo, o que exige muitos desafios.

Nós sempre destacamos que minha mãe, nossa coordenadora geral, foi assassinada em meio a um fórum de energias alternativas que estava sendo realizado para debater quais são as possibilidades. Se não queremos hidroelétricas nem eólicas das empresas nem nada que venha das grandes organizações, nem solar, então quais são as alternativas que as comunidades têm para isso? O fato de ela ter sido assassinada enquanto discutíamos isso é bem simbólico para nós porque dá uma mensagem de que eles tampouco querem a construção das alternativas.

Outra coisa importante são as rádios comunitárias, que têm um papel fundamental para fazer formação. A formação nas escolinhas, a articulação com outras organizações que em Honduras também estão fazendo a defesa territorial. Nesse encontro também estão pessoas do Movimiento Amplio por la Dignidad y la Justicia, que é outra organização que trabalha de maneira articulada junto ao Copihn. Formamos parte da plataforma do movimento popular e social, em que estão todas as organizações que desde o golpe de Estado criaram essa proposta refundacional de Honduras, como dizemos, e que fazem a defesa dos territórios.

E quais as possíveis alternativas? Ao dizer não a esse modelo que se pode gerar com menos impacto social e ambiental?

Há muitas alternativas em muitas áreas. No tema energético, havia debates muito interessantes sobre o tema primeiro de economizar energia. A forma de vida dos povos indígenas e suas concepções rompem muitos dos esquemas da lógica do consumo. Algumas comunidades pensam que a energia elétrica não é imprescindível, outras a colocam como uma necessidade.

Há pequenos projetos de biodigestores, de pequenas turbinas, tanto eólicas como nos rios, mas que são das comunidades. Obviamente seguem uma lógica para o consumo das comunidades, e não para as empresas ou para o canal de interconexão elétrica da América Central de que Honduras faz parte.

Algo que trazemos para o debate ao Brasil é que em Honduras não há muitas mega-hidrelétricas. São hidrelétricas pequenas, mas são controladas pelos empresários, pelos bancos. Na lógica que atrai esses projetos, não há respeito à cosmovisão dos povos indígenas. Uma coisa que propomos no debate é o tema de que há rios sagrados que não podem ser tocados. Isso na lógica capitalista e ocidental não vale nada. É visto como algo que mostra a ignorância das comunidades indígenas. Tem a ver com a lógica de para que há a energia, como se produz, a custo de quê, e também com lógicas de pequena demanda de comunidades pontuais, e não para alimentar esses canais de interconexão.

Normativas internacionais sobre povos indígenas e tribais, como o Convênio 169 da OIT, indicam que em todo projeto que afeta essas comunidades deve haver um processo de consulta prévia, livre e informada. Como isso ocorre nos territórios?

É o mesmo em todos os países. Apesar de estar ratificado nos convênios internacionais, nunca se respeitou, e isso é parte também da causa dos problemas e dessas mortes.

Atualmente se promove não só em Honduras, mas também na Guatemala, um projeto de regulamentação da consulta para justamente tirar esse direito das comunidades. Para que fique claro aos empresários, que também estão promovendo essa regulamentação, de que às comunidades se pergunta, mas sua palavra não vale nada, pois quem vai decidir ou são empresas ou setores do Estado que estão a serviço da empresa privada hondurenha e nos tirando essa possibilidade de decisão.

Mas sabemos que para além das leis existe um direito legítimo, e nós sempre o reivindicamos para denunciar esses projetos por invadirem nossos territórios.

Há uma grande contradição, pois para gerar energia para as grandes cidades e indústrias há que gerar essas zonas de sacrifício. Os territórios que vão pagar não são os que consomem…

Honduras foi parte do Plano Meso-Americano de Integração e Desenvolvimento, que é, digamos, a renovação do Plano Puebla-Panamá, para gerar um monte de energía que não é sequer para Honduras, mas para a indústria mineira, para o turismo e também para esse corredor que move energia desde a América Central até os Estados Unidos, a primeira potência do mundo, e que necessita de muita energia. Isso vai avançando, e é o que dizemos: dessa energia  não necessitamos. Ela serve aos interesses capitalistas e banha de mais sangue os nossos territórios.

Comments

comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *