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Farc: Da Guerrilha ao Partido

Colômbia inaugura nova fase em seu sistema político e chama sua população para construir juntos uma nova realidade no país onde poder popular e paz querem estar juntos.

por VITOR TAVEIRA

Um feito histórico de grande importância para a América Latina ocorreu no início de setembro na Colômbia. Foi lançado oficialmente o partido que representa o trânsito das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) da clandestinidade para a política legal. O novo nome do movimento é Força Alternativa Revolucionária do Comum, mantendo a sigla Farc.

A situação não é simples, dado o histórico de massacres e processos de paz fracassados no país. Para entender um pouco melhor a questão, ouvimos João Gabriel Almeida, um jovem brasileiro que é integrante das Farc.

Para ele, o continente enfrenta uma importante questão hoje. “A aposta democrática dos anos 80 e 90 levou à geração de uma esquerda radicalmente comprometida com a democracia formal e burguesa. As vitórias eleitorais do ciclo progressista permitiram alguns avanços, dependendo do nível de organização orgânica dos setores populares que se logrou desde os aparatos estatais, mas a armadilha dos limites já estabelecidos do jogo político fez com que as reformas de fundo que se necessita para um novo salto de qualidade estejam limitadas pela mesma dinâmica eleitoral e a falta de condições econômicas objetivas.”

João considera que os rompimentos desses pactos de classes dentro do sistema democrático pelas elites nacionais, como evidenciado no golpe brasileiro e nas guarimbas venezuelanas, mostraram certa inaptidão das esquerdas em pensar fora dessa alçada de conciliação.

Ele lembra que a esquerda colombiana foi criada no contexto da guerra política, em que ocorreram muitas atrocidades e a perseguição a lideranças sociais sempre foi uma constante. Para ele, apesar das adversidades, também há ensinamentos valiosos oriundos desse processo. “A primeira de todas é o entendimento que não se deve confiar no inimigo e que as negociações com eles só podem se dar em posições favoráveis às maiorias.  A segunda é saber do que o inimigo é capaz, por todos os massacres estatais. A terceira é a autogestão e o entendimento fora da cabeça pequeno-burguesa de que a sobrevivência das bases sociais é parte fundamental do projeto político. E o último e o mais importante é a dimensão que o conceito de dignidade representa na política colombiana. É um povo acostumado a rebelar-se nas suas mais distintas dimensões e que não aceita baixar a cabeça.”

É com esses aprendizados, cultivados em seus 53 anos de existência na clandestinidade, que as Farc entram na política democrática, analisa. Por conta disso, Almeida avalia que a entrada da antiga guerrilha na política legal ocorre de maneira distinta das esquerdas pós-ditadura nos países latino-americanos, pois se dá não por uma “crença inocente” da democracia como valor máximo para a humanidade, mas sim do entendimento de que o avanço tecnológico e militar impede a vitória de uma luta de guerrilhas e leva o enfrentamento em armas para um patamar de derramamento de sangue desnecessário. A democracia seria então uma tática para os setores populares organizados, podendo permitir avanços e conquistas conjunturais para o campo popular. A democracia burguesa seria então um “pacto de classe” para a  não agressão física.

Um ponto crucial na disputa simbólica do novo partido é substituir o conceito de pós-conflito, muito usado na Colômbia para falar do horizonte aberto após os acordos de paz. Para as Farc, os conflitos seguirão vigentes, embora sem armas. Mas a democracia de forma alguma representa o fim dos conflitos. Portanto, deve-se falar na etapa do pós-acordo.

Embora o andamento do cumprimento dos acordos não seja muito animador e os assassinatos continuem acontecendo inclusive depois da celebração do mesmo, o ambiente político começa apresentar algumas mudanças, como debates que antes não eram vistos e que agora começam a ser permitidos.

João Gabriel critica a esquerda liberal por ter demandas historicamente distantes daquelas das maiorias empobrecidas, ao contrário do que viria do novo partido. “Junto com a desmobilização das Farc irrompe uma massa popular que se quer ver reconhecida na política, pois grande parte dos membros das fileiras guerrilheiras é de filhos e filhas dessa gente, e havia muitos apoios populares que garantiram a vida dessas pessoas.”

Reintegração na sociedade

Tudo isso se reflete hoje em como se está pensando a participação eleitoral e a organização interna partidária, entende João Gabriel Almeida. “Com sua dose normal de conflitividade, o que tem ocorrido é a saída progressiva dos membros da guerrilha das antigas zonas transitórias, uma espécie de ponto de concentração pré-integração, para a vida concreta em relação com a sociedade colombiana. Muitos membros ex-guerrilheiros já estão nas grandes cidades, principalmente Bogotá, com a responsabilidade de pensar como articular o trabalho político.”

Essas zonas transitórias estão sendo transformadas em locais para capacitação onde se impulsionam projetos produtivos por meio de cooperativas, construindo alternativas econômicas nos territórios rurais, nos quais as Farc sempre realizaram trabalho de base com as comunidades.

No âmbito eleitoral, conforme o negociado no acordo de paz, o partido Farc já tem garantia de ao menos cinco deputados e cinco senadores para as próximas legislaturas, podendo aumentar esse número a depender do resultado  eleitoral. É mais do que possui atualmente o Polo Democrático Alternativo, único partido mais à esquerda no espectro político dentro do poder legislativo nacional.

De maneira geral, Almeida afirma, conforme têm sido as declarações da Farc, que a estratégia majoritária será pela construção de uma grande coalizão nacional para a implementação acordos de paz no próximo mandato. Nesse sentido, ele destaca três forças políticas nas quais os acordos de paz são o epicentro da disputa: a extrema direita, que tenta mobilizar os setores que votaram contra o acordo e que aposta na desinformação; a esquerda liberal, comandada pela Aliança Verde, que se recusa a fazer acordo com as Farc, apostando no discurso contra a corrupção e no mérito individual de seus candidatos para chegar ao segundo turno e liderar uma grande coalizão que se aglutinaria contra a extrema direita, sem necessariamente atuar em favor da implementação dos acordos; e ainda o setor de coalização, que poderia unir setores do atual governo, partidos e movimentos de esquerda, incluindo as Farc.

A implementação total dos acordos parece crucial para garantir um ciclo de avanços e conquistas progressistas para a Colômbia, conseguidas a duras penas em quatro anos de diálogos entre guerrilha do governo em Cuba e mais de meio século de confrontação armada. Do papel para a prática, sabemos, há uma distância que só pode ser vencida pela mobilização popular.

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