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Jovem Guerreira

No auge de seus 80 anos e com vontade de fazer política como uma secundarista, Luiza Erundina fala sobre o prefeito de São Paulo, o movimento Raiz CIdadanista e de como a utopia dos velhos nas mãos dos jovens vai mudar nosso país.

Por Ivan Zumalde

 

O que a prefeitura atual está fazendo que você não faria?

ERUNDINA: Olha, eu prefiro dizer o que eu faria, porque cada um tem o seu modo de ser, de agir, de se colocar como prefeito de uma cidade da importância, do porte e da responsabilidade dessa cidade. Mas, quando eu fui prefeita, há quase 30 anos, vou dizer o que fizemos… Primeiro, eu vim de um partido que não tinha experiência no Poder Executivo. E não era previsível a minha vitória eleitoral, nem o próprio PT acreditava que nós pudéssemos ganhar aquela eleição. Mas quando chegamos lá, nós tínhamos mais que um plano de governo. Nós tínhamos um plano de lutas, que era um plano de lutas de um partido de esquerda, que tinha nascido exatamente nas portas de fábrica, nos sindicatos, na periferia dos grandes centros urbanos, no campo, com a questão da reforma agrária. E do ponto de vista institucional, ainda tínhamos uma relação entre os Poderes que não era favorável para a instância local de governo com uma herança muito complicada que herdamos do governo anterior, e com uma demanda reprimida por serviços públicos, sobretudo nas áreas sociais. A partir dessa perspecitiva o que nós fizemos no início do governo – já entrando em paralelo com o que está se dando hoje – foi estabelecer um plano de 100 dias, tempo suficiente para que tivéssemos o conhecimento mais completo e mais real do que tínhamos na mão para governar, seja do ponto de vista da sociedade, seja do ponto de vista do aparelho do estado e ainda com uma oposição na Câmara Municipal. Lembro que eu não consegui uma maioria na Câmara, governei os quatro anos sem muito apoio da Câmara. Portanto, ao invés de já lançar ações como o atual prefeito, que, ao meu ver, são muito mais factoides na tentativa de criar uma imagem, portanto, de criar uma coisa midiática, um marketing, a nossa proposta foi: vamos conhecer o tamanho da tarefa, vamos buscar dialogar com todos os segmentos da sociedade e também no âmbito interno de governo para construir unidade. Portanto, houve a necessidade de um tempo, com uma proposição muito concreta, bastante realista e dizendo: olha, nesses 100 primeiros dias, nós nos propomos a isto. E, no final dos 100 primeiros dias, nós fizemos uma plenária pública na Praça da Sé, prestando contas à cidade do que nós encontramos na Prefeitura, do que nós pretendíamos fazer e o que foi possível já implementar a partir dos 100 primeiros dias. Com isso, você estabelecia um canal de diálogo com a sociedade e, a partir daí, as decisões estratégicas, as decisões mais importantes de governo, tiveram a possibilidade de se fazer com ampla participação da sociedade civil, inclusive com o próprio governo contribuindo para a organização das próprias comunidades, inclusive a partir do marco do nosso governo, que era o método de gestão, um método de gestão realmente democrático, e para isso, nós criamos mecanismos de democracia direta e participativa propondo uma inversão de prioridades. Ou seja, ao invés de você focar os investimentos em grandes obras, tivemos que inverter as prioridades. Nós tivemos a coragem de interromper o funcionamento dessas obras, mas explicando à cidade por que nós estávamos interrompendo, que nós pretendíamos enfrentar determinadas metas, determinados compromissos da área da saúde, construindo hospitais, da área da educação, construindo escolas, da área da cultura, da área de mobilidade. E foi exatamente o que fizemos no primeiro ano de governo, particularmente nos primeiros meses, dominar a máquina, o aparelho público, estabelecer organização interna e adequar as medidas de organização interna aos propósitos de um novo governo, que era diametralmente oposto às perspectivas de governo do governo do Estado .

Acredita ser possível isso hoje? Um governo com uma gestão democrática mais direta e conectada com o cidadão?

ERUNDINA: É sempre possível, depende da vontade do gestor de acreditar nisso e ser capaz de ousar. E ter paciência, não se faz via decreto: “faça-se isso” e se fará. Não é bem assim. Você tem que, inclusive, decidir as questões, no âmbito interno, dos atores que vão implementar aquela política. E aí, nós tínhamos uma prática intensa de reuniões com o primeiro escalão de governo. Todas as grandes decisões eram objeto de reuniões com todo o secretariado e, por sua vez, com os administradores regionais, que eram quem atuava na ponta das várias regiões da cidade, também tinham um nível de discussão, de participação, sem que isso atrapalhasse as decisões. E a responsabilidade de quem é o gestor, principalmente do que está na cabeça da gestão, é ser capaz de tomar uma decisão, tomar num momento certo e se responsabilizar por ela. E o que me dava segurança para tomar uma decisão, quando eu era obrigada a tomá-la, quase que individualmente, era me acercar de todas as informações, de todos os elementos, sobretudo dos especialistas em determinada matéria. Portanto, o governo tinha uma democracia interna muito forte, ao mesmo tempo que nós transferíamos tudo o que era possível transferir para as esferas locais, nas regiões administrativas da cidade, nós o fizemos. Inclusive, a proposta de reforma administrativa que nós encaminhamos à Câmara Municipal já criava as subprefeituras, mas com mais radicalidade, do ponto de vista de transferir para o poder local, ou seja, na instância regional, as decisões importantes para aquela região.

Para que o cidadão pudesse ter participação e decidir diretamente sobre seu bairro?

ERUNDINA: Exatamente. Principalmente na decisão das prioridades orçamentárias, na implementação das decisões, no acompanhamento da execução sanitária, na fiscalização e no controle das ações de governo naquela região. Enfim, fazer, por exemplo, o orçamento participativo em âmbito regional. Toda a gestão ocupada em decidir, ano após ano, o que fazer naquela região e, estabelecer, inclusive, a realidade para as pessoas: “olha, é possível fazer até ali, até ali não é possível fazer, não é possível atender a todas as demandas, o que vamos fazer primeiro e depois?” E, com isso, você empoderava o cidadão para que ele, ao opinar sobre uma determinada decisão ou questão da sua região, ele estava instrumentalizado, ele estava bem informado, ele era capaz de opinar com segurança e com capacidade de acertar na sua posição. E ao mesmo tempo, exercendo a sua cidadania, a sua cidadania participativa de exercício de poder.

E em relação a duas questões mais recentes da atual gestão, como a questão do grafite e a do limite de velocidade nas marginais. O que acha que ocorreu?

ERUNDINA: Faltou diálogo e houve uma pressa muito grande, e uma negação daquilo que estava sendo executado na cidade, vivenciado na cidade, sem um julgamento mais criterioso a respeito daquilo que estava sendo feito. Isso é uma cultura muito antiga, de negar aquilo que o outro estava fazendo, o que as outras gestões fizeram, só porque você tá chegando agora e tem uma proposta melhor ou “a proposta”. Mas precisava de um respeito, porque as conquistas e os acertos não foram do prefeito que saiu ou da gestão que acabou. Também os erros não são só dele. É preciso ter sensibilidade para perceber o que foi bom para a cidade e o que a cidade construiu.

Acredita que o atual prefeito teve sensibilidade para ouvir as ruas durante a campanha? O que a candidata Erundina ouviu durante a campanha pela prefeitura de São Paulo?

ERUNDINA: O resultado eleitoral, por exemplo, mostrou um grande número de abstenções, de votos em branco, de votos nulos. E o fato de que o prefeito foi eleito com menos votos em comparação ao número de votos dos que não firmaram sua posição na eleição, ou foram em branco, ou por abstenção ou por rejeição, revela um sentimento de absoluto descrédito, de absoluta falta de expectativa em relação às propostas que estavam em debate. E isso explica de certa forma o resultado, logo no primeiro turno, como alguém absolutamente desconhecido e dialogando com o senso comum encampou o sentimento de negação do político, da política. Ele ganhou porque incorporou esse discurso. Certamente tinha muitas pesquisas qualitativas sondando a opinião das pessoas, no curso mesmo campanha, durante as falas e debates e ele captou, evidentemente, um sentimento de rejeição, de ojeriza à política e de negação da política, de repúdio à toda figura pública que tivesse um passado político, por melhor que ele tenha sido, por mais positivo que ele tenha sido, ele entrava nesse rol da negação da política e do político. Eu enfrentei isso nos debates com o então candidato. Eu disse: olha, não é verdade que você não seja político. Até a sua atitude de negação da política é política. Mas essa foi a “marca” do que a gente constatou. É uma negação absoluta da política. É um descrédito absoluto, a desqualificação da política como sendo algo ruim, cheio de oportunistas e de interesseiros. Isso é ruim para a sociedade, quer dizer, isso é ruim para a democracia.

Como ex-petista, acredita que parte desse desalento da população pela política foi em razão da derrocada do PT?

ERUNDINA: É um momento de “terra arrasada”, de experiências frustradoras e frustradas, inclusive em relação à força política que gerou muita expectativa, que foi realmente um sonho que alimentou muita gente, que é o caso do Partido dos Trabalhadores, que vem de uma trajetória muito importante do ponto de vista da construção de uma organização política de base, realmente de base popular, e que formou muita gente no curso de sua existência de 35 anos e formou lideranças políticas e sindicais populares, na cidade e no campo. Portanto foi algo de fato, genuinamente brasileiro incorporando o que tinha de melhor na sociedade brasileira da época e, de fato, conscientizando politicamente, educando politicamente, formando novas lideranças, e que isso representou uma verdadeira “primavera política” no país, convivendo, evidentemente, com as outras forças de esquerda, mais tradicionais, mais convencionais, como os ditos partidos comunistas ou mesmo o partido socialista. Mas o novo era aquela experiência que nascia após uma ditadura de 21 anos. Muitos dos que construíram o PT vinham da luta de resistência à ditadura, mas criando uma nova proposta de sociedade, uma nova proposta de governo, uma nova proposta de partido, uma nova cultura política, formando novos quadros e organizando esses segmentos populares nas suas bases, nos núcleos de base do PT, seja nos locais de trabalho, seja nos sindicatos, seja no local de residência. 

E hoje? Acha que o partido acabou se desarticulando e perdendo a conexão com sua história, com suas bases?

ERUNDINA: Exatamente, e perdeu junto a ligação com outros segmentos, como as comunidades eclesiais de base da Igreja católica, que tiveram papel fundamental na construção do Partido dos Trabalhadores. Perdeu também com o movimento sindical bastante combativo e revigorado da luta de resistência à ditadura que reconquistou a liberdade democrática na organização autônoma e independente dos trabalhadores. Havia de fato situação e oposição sindical verdadeira naquela época. Além disso, tem o fato de o Partido dos Trabalhadores ter assumido o poder institucional, não só no âmbito do Legislativo, elegendo vereadores, deputados estaduais, deputados federais, alguns senadores, mas também no plano do Executivo elegendo prefeitos, governadores, e chegando à Presidência da República com Lula. Tudo isso condicionou uma mudança. Eu acho que essa mudança, aliás, acelerou a perda daquele projeto democrático-popular com a vocação de esquerda, a vocação socialista que envolvia desde os cristãos até os que vieram do exílio. O PT tinha uma riqueza enorme que, quando optou pelo poder institucional, mobilizando todas as suas lideranças, todas as suas energias, todos os seus sonhos para eleger o Lula, isso contribuiu para que o partido se distanciasse de suas reais bases e lutas. E os governos Lula e Dilma, particularmente nos governos Lula, embora tivessem políticas importantes, conquistas importantes para o povo, tiveram também que fazer muitas concessões e essas concessões terminaram não contribuindo para preservar a base organizada que o Partido dos Trabalhadores havia construído. Eu costumo dizer que, desde o primeiro governo Lula, passando também pelos governos Dilma, mas sobretudo nos governos do Lula houve uma domesticação do movimento sindical. O movimento sindical, como passou a ter muita facilidade no diálogo com o governo, com o presidente da República, que também tinha sido uma liderança sindical, conseguiu negociar os interesses dos trabalhadores, mas sem que aqueles resultados viessem como fruto da luta. E, tanto foi assim que acabou com a oposição sindical. Hoje, não tem mais situação nem oposição sindical, o 1º de Maio representa grandes lutas, mas sem nenhuma palavra de ordem.

E mediante essa situação como enxerga o futuro para a esquerda? Sem sindicatos fortes, com a influência da mídia e a tendência de uma  política neoliberal, qual seria, na sua opinião, uma saída para a “terra arrasada” de hoje?

ERUNDINA: Essa realidade não é só do Brasil, embora o Brasil tenha as suas peculiaridades e seus aspectos muito próprios, singulares a nós. Mas acho que isso é uma realidade do mundo. O esgotamento de um modelo, inclusive do ponto de vista econômico, do ponto de vista social, do ponto de vista político, e da necessidade de uma outra cultura política, de outros paradigmas para a política. Daí, por que faz sentido as experiências que estão emergindo, na Europa como o Podemos e no Brasil, como a Raiz que é um embrião e que em razão disso encontra dificuldades na construção desse novo caminho, que é inspirado em uma outra ética, em uma outra filosofia e que bebe na fonte daquilo que há de mais civilizatório. O nosso drama é justamente trazer conosco esse padrão antigo, convencional, formalista e que dificulta essa nova visão. Talvez, os mais jovens, que são menos condicionados a essa visão da política convencional, da política tradicional, das instituições e da forma de convivência entre as pessoas, consigam trazer algo novo. Eu, que já vivi mais tempo, percebo como é que se dá a história na humanidade. São ciclos de histórias sociais e são ciclos que têm seu começo, meio e fim. Só que o fim não é um fim que termina no início desse ciclo, pela espiral dialética da história. Eu estou imaginando que nós estamos vivendo o fim de um ciclo, que não retorna ao marco zero dele, mas ele retorna potencializado para começar um novo, que a gente não nasceu ainda, mas ainda está muito pesado o ciclo anterior, não morreu ainda, está estrebuchando, e o novo ainda não remexeu, e o novo ainda vem ainda muito misturado com esse velho. E isso torna as coisas muito difíceis, e esse início da Raiz eu vejo bem isso. De repente, a gente ainda tá muito sensibilizado ou coagido inspirado por um vulto, por exemplo, o tempo projetado para uma sociedade socialista. O sonho do socialismo me alimenta ainda hoje, sempre me alimentou, não como uma perspectiva que eu realizasse no meu tempo de vida, porque o socialismo é um modo de existência, a meu ver. É um Ecossocialismo, é uma nova projeção do que poderá vir a ser como inspiração existencial, é um modo de conviver com o mundo, com a natureza, com os outros, com o diferente, com o diverso. É algo muito rico, muito esperançoso o que está nascendo, mas ainda é algo muito embrionário, muito misturado com o antigo. De repente, a gente está querendo impor padrões que já estão velhos demais e mistura-los com o novo que ainda não está em si mesmo explicitado. E, como não se exercitou suficientemente a generosidade, a capacidade de perceber no outro aquilo que é verdadeiro e aquilo que pode me enriquecer e me complementar, isso gera choques e conflitos. Por isso que a Raiz é, a meu ver, um sonho que a gente não vai alcançar a curto prazo e cuidado para a gente não misturar com a perspectiva velha, antiga e rançosa do poder. Porque o poder é uma das coisas que mais atrapalha o ser humano. Ele é necessário, é um teste de disputa para fazer valer aquilo em que a gente acredita. Mas o processo de disputa de poder e construção de hegemonia mata qualquer coisa que é nova, que é generosa, que é libertária.

Nessa linha de pensamento, você acredita que a Raiz deveria, pelo menos neste momento, ter um outro foco que não o da legalização como partido político?

ERUNDINA: Eu acredito que sim. Até porque nós estamos para enfrentar uma reforma política, que é justamente no sentido da não renovação, de não deixar espaço para o diferente.

É mais pela preservação do poder instaurado e hegemônico que já está ali…

ERUNDINA: Exatamente, para eliminar os pequenos, generalizando os partidos menores só pelo número de mandatos que eles têm ou ainda para diminuir a representação dos partidos por agrupamentos.

Mas não seria exatamente neste momento de  crise e de necessidade da sociedade pelo novo que a Raiz poderia se tornar uma ferramenta institucional importante ao se legitimar como um partido?

ERUNDINA: Eu defendi muito, no início, o partido. Porque acho que tem que disputar muito o poder; sem o poder, como é que você vai implantar a justiça social? E acredito que não tem que tirar do horizonte da Raiz a perspectiva de um dia se tornar um instrumento de disputa política, no sentido da conquista do poder, isso tem que ser preservado. Mas se a gente já se encastela, se estratifica, se amarra a um modelo de partido que, necessariamente, tem que corresponder aos marcos de uma legislação antiga, velha, que está sendo contestada, isto é, a gente corre o risco de fortalecer essa estrutura de partido, porque você está se subordinando às determinações legais que existem aí, podendo, com isso, matar o movimento popular, ou seja, a Raiz enquanto movimento.

  

E como acha que a Raiz vai crescer enquanto movimento? De que maneira?

ERUNDINA: Eu acho que é mais com os jovens e com um viés cultural forte. Com o protagonismo do ponto de vista da cultura do lado do seu tempo, criando novos paradigmas, novos parâmetros de comportamento, novas formas de convivência. Radicalmente oposto a tudo o que está aí.

Como enxerga alguns dos pilares da Raiz como a Carta Cidadanista, o Ecossocialismo, o Ubuntu e o Teko Porã sendo compreendidos e incorporados pelas pessoas?

ERUNDINA: Tudo isso é uma filosofia. E esses valores são concepções, são ideologias, que precisamos incorporar naturalmente. Daqui a pouco, a gente não precisa mais nem denominá-los, porque você está tão embebido deles, está tão identificado com eles, que os seus gestos, a sua forma de ser, sua visão de mundo acaba transmitindo essa filosofia. No final, se torna um princípio seu. Mas isso leva um tempo, né?

Voltando à questão partidária, como foi sua experiência na filiação democrática entre a Raiz e o PSOL pela campanha municipal?

ERUNDINA: Existiu uma mútua cobrança e eu vivi isso durante a campanha. A opinião pública me cobrava em todas as sabatinas pelas quais eu passei, primeiro perguntando: “como é que é isso? Você saiu de um partido, está entrando em outro, e teve um outro” e, ao mesmo tempo, na Raiz: “como é que é?, você não está vindo aqui ajudar a fazer a campanha de filiação?”, e eu vivia no meio. Portanto, não é que não vai ter um momento em que vai dar certo, se a gente, um dia, conseguir eleger alguém efetivamente com o espírito da Raiz, mesmo sendo num outro espaço, esse nosso espírito vai contaminar onde a gente estiver. Mas, ainda é tão recente, nós ainda não nos imbuímos com todos esses valores que estão na Carta Cidadanista, que é uma das coisas mais belas que a gente conseguiu construir e ainda pela forma como foi construída. Não foi uma meia dúzia em uma mesa que fez aquilo. Aquilo lá foi uma experiência de participação democrática, aberta, plural, sem se disputar nada, mas, ao mesmo tempo, construindo ideias, reformulando ideias. Aquilo foi uma experiência Ubuntu. Ao meu ver, a Carta  Cidadanista é um produto de uma experiência Ubuntu, de uma experiência extemporânea. Por isso que ela subsiste, apesar das nossas diferenças, das nossas limitações, das nossas pobrezas. E eu estava junto construindo a carta e eu continuo.

E como essa experiência pode determinar a relação das pessoas com a Raiz daqui para frente?

ERUNDINA: Todos deveriam ver como uma oportunidade de aprender, tem que se permitir um espaço, que nos possibilite inclusive, errar, que nos permita testar, sem estar preso a agenda, sem estar preso a determinados objetivos, sem estar preso a determinadas pessoas. Eu sei que não é fácil, mas a revolução que está na proposta da Raiz traz exatamente a possibilidade de romper com esses parâmetros, esses paradigmas, esse modelo velho que está incorporado a nós, independente da idade. Agora, nós, que somos mais velhos, temos muito mais dificuldades que os jovens, como despojar-se da segurança daquilo que acha que é verdadeiro, que é “a resposta”, que é “o certo”, é o modo certo, é o modelo certo, Não vamos ser o melhor para ninguém, nem o maior, nem o menor, nem o mais perfeito, nem o mais verdadeiro, não. É algo que a gente está buscando. Todos nós estamos buscando, quem não está buscando? E, de repente, milhares de pessoas em rede foram às reuniões presenciais para produzir aquela visão coletiva de algo muito belo. Todo mundo que lê a Carta Cidadanista fica tocado. Mas só quando chega na realidade, de como aquilo está se dando no concreto, aí, se frustra.

Acredita que ainda não estamos prontos como indivíduos para colocar em prática um modelo como este?

ERUNDINA: A proposta da Raiz nos forma individualmente e nos prepara para viver em sociedade, coletivamente, para construir modelo de governo, modelo de organização política, de organização social como algo desafiador. E vale a pena dedicar tempo nisso e eu estou aberta para participar.

E como vê essa sua participação na Raiz hoje?

Ir lá quando eu tiver possibilidade de ir, sem dúvida. Mas eu sempre resisti, quando quiseram me colocar em coordenação geral, “pelo amor de Deus, não me coloca em coordenação geral ou presidência de não sei o quê!” Porque com isso, você reproduz o velho, você só cumpre o velho quando você se nega a repetir o velho.

Fale para nós sobre seu mandato como deputada federal pelo PSOL e como é sua atuação na bancada em Brasília?

ERUNDINA: Eu tenho um mandato pelo PSOL e uma disciplina partidária a cumprir. Estamos isolados e tentando sobreviver lá em Brasília. Resistir, resistir e resistir para evitar o pior. Inclusive para sobreviver. Eu enfrentei uma disputa para Presidência da Câmara e ficamos só nós, o que é muito ruim na política. Mas você vai fazer o quê? Vai se juntar com o outro só pra não ficar isolado? Você não pode optar por uma posição só para não se ficar só, não, isso não pode. Não ser suficientemente forte e suficiente para justificar que você vá com alguém só para você não ficar só, o que é isso?

E seu projeto da PEC dos direitos sociais? Qual o objetivo?

ERUNDINA: A PEC corrige uma deficiência do próprio dispositivo constitucional a respeito das cláusulas pétreas da Constituição, que são os direitos individuais e os direitos sociais. Quando a Constituição explicitou que a condição de que determinados direitos não podem ser alterados via emenda constitucional, quer dizer que não podem ser alterados por causa pró, são direitos fundamentais, são direitos individuais e são direitos sociais. Quando foi explicitado como garantia, não podem ser objetos de medidas, de alterações por via de regulações ordinárias ou regulações complementares, ficaram faltando os direitos sociais. O Artigo 6º da Constituição estabelece os direitos fundamentais, que são os direitos individuais e os direitos sociais e no Artigo 6º constam os direitos sociais, mas quando se disciplinou que esses artigos não podem ser alterados por outra via constitucional, só se colocaram os direitos individuais, isso no Artigo 6º. E essa PEC, inclui, não somente os direitos individuais, como inclui outro Inciso com os direitos sociais. Como são direitos fundamentais, são direitos considerados como cláusulas pétreas, não podem mexer. E as questões sociais não estão previstas aí.  O Artigo 6º da Constituição diz: “a Constituição poderá ser emendada mediante proposta…” E o Parágrafo 4º diz “…a Constituição não poderá ser emendada na vigência de Interferência Federal, Estado de Defesa…”, enfim, tem várias situações. E o Parágrafo reforça claramente “…não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir”, e o artigo segue argumento o que uma proposta de emenda não pode abolir “…o voto secreto, universal e periódico, asseveração dos poderes, os direitos e garantias individuais”. Neste ponto faltaram os direitos sociais. Então, a PEC inclui o Inciso 5º no Parágrafo 4º do Artigo 6º, exatamente tornando os direitos sociais cláusulas pétreas.

E isso impediria, por exemplo, a PEC do teto que foi votada recentemente?

ERUNDINA: Exato.

E como deve seguir o processo agora?

ERUNDINA: Se essa PEC for aprovada, vai para a Comissão da Pessoa e Justiça. Está na mesa do diretor da casa desde dezembro quando encaminhei a entrada. É provavel que no mês de maio vá para a Comissão da Pessoa e Justiça, porque é até este momento que a comissão é constituída com as novas direções funcionando. A partir desse ponto, começa a tramitar e então passa pela Comissão da Pessoa e Justiça e depois é preciso passar pelo Plenário, com duas votações em dois turnos, tanto na Câmara quanto no Senado. Se a gente tivesse, por exemplo, a sociedade mais mobilizada, seria mais fácil aprovar.

Acha que falta mobilização por causas concretas ou conscientização política do povo?

ERUNDINA: Falta força de uma identidade, quer dizer, do povo como um coletivo em torno de algo que os una. A luta por moradia, por exemplo. Num dado momento nesse movimento, uma das propostas não era a conquista da propriedade individual, era a conquista da propriedade coletiva. Porque quando você conquista a propriedade individual, você tem um papel que te dá a posse daquele pedaço de chão ou daquele barraco, ou da casa, você perde o interesse e você passa a concorrer com os seus companheiros numa visão individualista. Por isso é que a Raiz tem uma dimensão com essa compreensão da coletividade, da solidariedade, do comunitarismo que faz romper no cidadão comum os valores capitalistas e que acaba vivendo de acordo com esses valores capitalistas. Por isso que a força na Raiz é fazer chegar a essa dimensão da ética, da filosofia, da compreensão do outro, sobre o que o outro, sobre o Bem Viver, sobre como viver com o outro. E tudo isso é formativo, educativo, essa é a força que a Raiz tem que ser, um espaço de formação política, de orientação política, de educação política, em cima do concreto das coisas.

Tem esperança que isso aconteça em breve?

ERUNDINA: Eu sou uma pessoa muito otimista. Quando eu vejo que essa crise é uma crise de evolução da realidade humana, eu tenho esperança, porque nós não estamos negando essa realidade.

Mas não dá pressa de ver a realidade mudar?

ERUNDINA: Pois é, dá pressa, mas, você não vive no tempo do seu sonho. Não se pode esgotar no seu tempo de vida, seja realizando ou frustrando esse sonho. Tem que ser uma utopia que se projete para além do seu tempo de vida. E isso vai te dando uma resiliência consigo mesmo em relação a esse sonho, um exercício de paciência. No final, se você consegue concretizar um sonho ou uma utopia durante o seu tempo de vida, então não é mais sonho ou utopia, é uma meta que você atingiu. E isso é muito pobre para a vida que a gente acredita. A transcendência da existência você não  mede pelo seu tempo de vida, mede pelo tempo da história. O tempo da história é de séculos e milênios e é por isso que o sentimento de coletivo é muito forte dentro de nós; eu não vivo sozinha no mundo, o mundo não termina comigo. Aquilo que é vida, aquilo que é essência não acaba comigo. É preciso compreender que continua, uma energia que é uma energia após a morte. O meu livro é muito pequenininho e quem já viveu muito como eu percebe como é efêmero, como é provisório, como é muito pequeno você se firmar como aquele que dá a esperança para os outros. Se eu ficar com esperança do tamanho de vida que eu tenho hoje, acabou a minha esperança. E eu não quero perder a esperança. A esperança está na cauda das gerações, por isso que eu tenho tanto anseio de ver os jovens protagonizando a história, assumindo a história, indo em frente. Por isso que às vezes eu me recuso a estar à frente, eu não quero estar na dianteira, senão eu atrapalho o passo do futuro e tenho consciência que o jovem vai assumir a história. Mesmo quando acham que eu tenho mais experiência, que tenho mais sabedoria. Não, não é nada disso. Eu tenho que empurrar os jovens, que são os que sempre sonharam, que são a utopia, que é a mesma que a minha, só que, agora, nas mãos deles.

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