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Eu quero votar para Presidente (sempre)

Figura importante na luta por direitos na época da ditadura militar brasileira, Dom Angélico falou em exclusiva para a Cidadanista sobre o autal momento e as semelhanças com o passado

Por Ivan Zumalde

Em recente entrevista, o senhor afirmou que “a Igreja precisa conscientizar a formação política do povo, porque ele é enganado”. Como fazer a população se engajar para defender seus direitos e lutar por trabalho, moradia, saúde, educação e cultura?

ANGÉLICO: É fundamental que no regime democrático o poder seja efetivamente emanado do povo e por ele exercido através de seus representantes. Na realidade isso frequentemente é uma solene hipocrisia, porque o povo não tem nas suas mãos, por exemplo, os meios de comunicação que são um poderoso instrumento na formação ou deformação do povo. E esses meios, geralmente os grandes meios, estão nas mãos do poder econômico e o poder econômico está interessado no regime capitalista liberal como esteve também durante o regime escravagista. Ele está interessado nos lucros daqueles que detêm esse poder. O povo que se lasque. Então o que é fundamental é que valorizemos a política que é a arte e a ciência de governar e organizar a cidade, a Pólis. E para isso é fundamental que o povo seja organizado e unido. É aí então que há um trabalho por parte dos movimentos populares, da Igreja, que não pode se omitir nesse trabalho de organização do povo, de conscientização da população através das comunidades eclesiais de base e através das pastorais sociais. Somos chamados a ser irmãos e se somos irmãos precisamos nos amar e aí a urgência de todos terem acesso àqueles bens que Deus destinou. Não a poucos no mundo, mas a toda humanidade. Bens como moradia, trabalho, educação, saúde. Em uma palavra, todos os bens. E para que o povo realmente tenha em mãos esses bens, é preciso que se organize pois o sistema que está aí favorece os que têm o capital. Essa que é realidade nua e crua. O demais é hipocrisia.

Se por um lado existe um força de atuação institucional baseada em partidos políticos, por outro lado existe uma força baseada em movimentos sociais. Qual caminho é mais efetivo para o povo conseguir seus direitos? Através de uma representação política ou por um caminho de luta e pressão contra o Estado?

ANGÉLICO: Em primeiro lugar eu acho que nós precisamos de uma reforma política profunda, porque eu desafio o cidadão brasileiro que saiba elencar os partidos existentes que nos representam. São mais de 30 e me digam quais os princípios que norteiam esses partidos. Por isso é preciso uma reforma política profunda, mas eu não acredito que isso possa vir simplesmente do Parlamento que está aí. É preciso que cresça a pressão popular, a organização dos movimentos populares, o robustecimento por parte da Igreja, das pastorais sociais, das comunidades eclesiais de base, dos grupos de rua e voltados para a defesa da vida concreta e vida é sinônimo de pão, trabalho, creche, educação, de todos os valores fundamentais. Por isso precisamos do povo na rua, nas praças. É preciso que o povo levante bandeiras concretas e saia às praças e não se deixe mais enganar, se alienar. São essas bandeiras concretas que vão colocar os políticos atendendo ao clamor do povo. Do contrário eles ficam nas negociatas do Parlamento, que é o que nós estamos assistindo do Brasil atual.

O senhor citou que a concentração dos meios de comunicação está a serviço do capital. Ao mesmo tempo, a internet permitiu um maior acesso mas não necessariamente uma mobilização. Qual é o caminho para comunicar e mobilizar hoje?

ANGÉLICO: A revista na qual estou falando é um meio de comunicação de conscientização. É necessário que se multipliquem esses pequenos meios. Durante a ditadura militar nós tinhamos pequenos meios que exerceram um papel muito grande na redemocratização desse país. À parte disso, esses outros meios, como a internet, existem para os dois lados: há aqueles que estão a favor da conscientização do povo e há aqueles que estão contra o povo. O importante é que jamais deixemos de resistir e que caminhemos para a organização do povo, para uma democracia verdadeira, independentemente dos meios que possam surgir.

O senhor falou sobre o poder para o povo e na relação com o Parlamento, mas vemos a proposta da PEC 241, por exemplo, que limita gastos em saúde, educação para esse povo. Como o senhor analisa essa situação contraditória?

ANGÉLICO: Pessoalmente e, não pertencendo a partido político, entendo que as propostas de reforma trabalhista, terceirização, reforma do Ensino Médio, da previdência social e sobretudo a proposta da PEC 241, que estabelece teto nos recursos públicos por 20 anos, colocam sim em risco direitos sociais do povo brasileiro, sobretudo dos empobrecidos. Em sintonia social da Igreja não se pode equilibrar as contas cortando os investimentos públicos que atendem os mais pobres de nossa nação. Não é justo que os pobres paguem essa conta, enquanto outros setores continuam lucrando com a crise. Os jornais acabaram de publicar que existem ministros desse governo ganhando fortunas como o Eliseu Padilha e o Geddel Vieira Lima. O primeiro ganha R$ 50 mil por mês e o segundo ganha R$ 51 mil. E ainda tem aposentadoria, onde o primeiro ganha R$ 19 mil por mês e o Geddel está recebendo R$ 20 mil por mês. E na reforma da previdência, eles estão defendendo o arrocho dos previdenciários e assim por diante. Isso é um escândalo, uma vergonha. Nós temos que largar não os políticos, mas certos políticos. É um absurdo um ministro receber cerca de R$ 50 mil mais as mordomias ao mesmo tempo que estamos diante de um salário mínimo que não chega a R$ 900 reais.

O senhor afirmou que regimes de força e de mentira, baseados na injustiça e não no bem comum, não têm vida longa. Temos um governo sem apoio popular e acusado de ser golpista. Qual é a melhor maneira de se lutar por um governo que, de fato, represente os interesses do povo?

ANGÉLICO: Eu aprendi durante o golpe militar de 64 que é preciso organizar o povo e resistir. Com o povo da zona leste de São Paulo, nós saímos às ruas com 15, 20 mil pessoas a partir da Praça do Forró em São Miguel Paulista reivindicando nas ruas, liberdade, creche, transporte, educação. Acho que o único caminho que nós temos é organização do povo para que este povo tendo bandeiras legítimas nas mãos e, sem baderna alguma, saia às ruas reivindicando seus direitos. Aí não há político que resista. Essa que é a verdade. Aquilo que nós dizíamos vale para sempre: o povo unido jamais será vencido.

O maior partido de esquerda perdeu espaço e o conservadorismo cresceu aqui e no mundo. O senhor acha que governos socialistas ou de cunho social não foram capazes de dar uma resposta para a população e perderam força para o liberalismo e o capital? 

ANGÉLICO: Eu sou pela socialização. Sou por uma economia solidária. Eu acredito que todos os partidos, especialmente os partidos de esquerda, devam passar por uma profunda revisão. Me permitam fazer essa crítica, mas o PT abandonou as bases populares. Ele ficou mais na governabilidade do Parlamento. E o que aconteceu? Alguns de seus membros inclusive foram condenados por corrupção juntamente com segmentos das grandes empresas. É preciso que esses partidos voltem às suas bases. O sindicato e os operários também estão divididos com opções partidárias e isso enfraquece muito a luta. O sindicato deve olhar para o trabalhador e não para opções partidárias que prejudicam a causa. 

O senhor acredita que a Igreja Universal tenha um projeto de poder baseado na fé? A eleição do Crivella no Rio representa isso? 

ANGÉLICO: Os cristãos têm um compromisso com o Reino de Deus e acreditamos que toda a humanidade deve deixar de lado os interesses do capital. Eu acho que o cristianismo é a opção evangélica pelos pobres. Deve trabalhar para que realmente a miséria seja extinguida na face da Terra. E nós como cristãos devemos trabalhar para que nos entendamos como irmãos. Eu tenho muito medo quando uma igreja cristã se partidariza. Não é o caminho. Se a Igreja Universal está fazendo isso, eu não quero afirmar, mas só tenho lido isso. À Igreja Universal compete explicar.

E na opção da Igreja pelos mais pobres, não seria oportuno uma renovação da Teologia da Libertação para os dias atuais? 

ANGÉLICO: Meu irmão, para nós basta a palavra. Nós temos que ter menos de teologia e mais de ética. Colocar em prática o que disse Jesus, quando em Jerusalém ele enfrentou o poder econômico e o poder politico.

Qual será o principal legado do papa Francisco? 

ANGÉLICO: O papa Francisco é um iluminado. Que alegria de estar com ele. É um homem iluminado. A urgência de nós irmos às periferias humanas e geográficas, ao encontro dos pobres, num compromisso inarredável será sem dúvida um legado.

Qual é a esperança do Dom Angélico para o futuro do país e do mundo?

ANGÉLICO: Quando era criança lá no interior, filho de trabalhador, eu aprendi no grupo escolar de Saltinho, que é minha terra pertinho de Piracicaba, que não há país melhor do que esse. O Brasil é muito maior do que as suas crises, aliás essa crise que falam tanto não é só do Brasil, não, é crise cíclica do capitalismo liberal que atinge países da Europa, como França, Portugal, Grécia, Espanha… Mas a realidade maior que nós temos nesse país é a grandeza de seu povo, que deve ser amado, respeitado, organizado e jamais explorado.

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