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Entrevista: Áurea Carolina

Candidata a uma vaga a deputada federal, a vereadora mais bem votada de BH, Áurea Carolina (PSOL) fala sobre a experiência de renovar a política e como é atuar por um mandato municipal

Por IVAN ZUMALDE

Você está gostando da experiência de exercer o mandato de vereadora por Belo Horizonte?
Estou gostando porque acredito que estamos, efetivamente, fazendo a diferença. Chegamos aqui com a proposta de ocupar a política com cidadania e ousadia e, neste primeiro ano de mandato, abrimos canais de participação popular, contribuímos para vocalizar as lutas da cidade e fizemos um grande esforço de diálogo e fiscalização na prefeitura para melhoria das políticas municipais em diversas áreas. Tudo isso é prova de que pessoas comuns, que pegam busão, batalham por moradia digna e enfrentam o machismo, o racismo e a LGBTfobia no cotidiano, precisam estar nos espaços de poder. É um trabalho exigente, sem descanso nem nos finais de semana, mas que faz valer o sentido da política que queremos, capaz de realizar pequenas e potentes transformações.

Já entendeu como a máquina funciona. Você consegue mudar mais dentro da Câmara ou quando estava fora militando? Te escutam?
Não deixamos de ser ativistas para entrar na institucionalidade, e isso é um traço fundamental do nosso mandato. Assim, não existe o “fora” e o “dentro”, mas o uso da institucionalidade como um recurso para a luta, um instrumento que pode contribuir para melhorar a vida da população, mas que jamais substitui a resistência popular.  
Já sobre a escuta, estar em um espaço de poder me trouxe mais visibilidade e projeção, mas a vivência do ambiente da política institucional dá a verdadeira dimensão do quanto é um lugar exaustivo, masculino, machista e racista. O jogo não é feito para nós, não é feito por nós, não é feito para a gente permanecer nele, já disse em algumas entrevistas, e cada vez isso fica mais evidente. Apesar de a bancada progressista ser minoria, conseguimos contrapor os argumentos e impedir que alguns retrocessos aconteçam, e essa possibilidade aumenta à medida que as pessoas vêm e ocupam o mandato: as ativistas e os movimentos nos dão força, sustentação e legitimidade para seguir com coragem nessa saga que só existe porque é coletiva e aberta.

Você foi a vereadora mais votada da cidade, é negra, mulher e jovem. Como está sendo lidar com a pressão e a expectativa dos eleitores e dos movimentos que a apoiaram?
Ser a vereadora mais votada da história de Belo Horizonte foi a confirmação de um trabalho. Essa votação fenomenal mostra que o campo das lutas populares tem um potencial muito grande, que a gente pode ir muito além, ainda mais nessa conjuntura de golpe, de destruição de processos históricos de políticas inclusivas. Fui eleita com a intenção de fortalecer o que as lutas estão construindo, denunciar injustiças, contribuir para que as pessoas acessem os espaços de poder, defender pautas urgentes, ou seja, ser uma agente colaboradora a serviço das lutas. Nesse sentido, conseguimos atuar sobre diversos temas: o compromisso da prefeitura com a urbanização da Izidora e a recriação da Secretaria Municipal de Cultura são alguns deles. Na sua grande maioria, tenho muitos retornos positivos sobre a minha atuação e a da Gabinetona, que é como chamamos o mandato compartilhado com a vereadora Cida Falabella.

Foi eleita com apoio do “Muitas – pela cidade que queremos”, um movimento de renovação da política. Conte-nos como foi a experiência da campanha e se acredita que esse movimento possa repercutir em 2018?
Muito mais do que um apoio, participei e participo ativamente da construção da movimentação. O Muitas surgiram em 2015, inspirada em movimentos municipalistas e com a confiança de que outra política é possível. Como resultado de um ano e meio de movimentação e da aliança com o Partido Socialismo e Liberdade, via Frente de Esquerda BH Socialista (que reúne o PSOL, o PCB – Partido Comunista Brasileiro, as Brigadas Populares e o MLB – Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas), o Muitas apresentou à cidade 12 candidatas que representavam, com seus corpos políticos, as lutas que nos atravessam: mulheres, pessoas negras, povos indígenas, pessoas LGBTIQs, a luta pelo direito à cidade, pela cultura, pelos animais e verdes, antiprisional, pela legalização das drogas e pelas juventudes. Em uma eleição marcada pelo perigoso discurso de rejeição à política, fizemos uma campanha com poucos recursos financeiros, muita força de trabalho voluntária e engajamento de pessoas que acreditavam na proposta, e com isso reencantamos a política em BH. Outras movimentações parecidas surgiram no Brasil na mesma época e também conseguiram eleger vereadoras e vereadores em suas cidades. Acreditamos que, em 2018, podemos levar o desejo por uma outra política possível para Minas e para o Brasil. Fala-se muito em renovação da política, mas só existe renovação com práticas democráticas e compromisso com o enfrentamento à pobreza e às opressões.

Junto com a Cida, você está inovando na forma de atuar dentro do sistema também. Nos conte como funciona a “Gabinetona” e a prática de compartilhar o mandato?
A nossa campanha coletiva trazia como lema “Votou em uma, votou em todas” e, quando soubemos que seríamos duas vereadoras dentro da Câmara Municipal, entendemos que a melhor forma de efetivar isso seria por meio de um mandato coletivo. Assim, nasceu a Gabinetona, o mandato compartilhado entre mim e Cida Falabella, em covereança com Bella Gonçalves, a terceira mais votada. Em um espaço físico sem divisórias, uma equipe comum trabalha em conjunto. Atualmente, somos 41 pessoas, sendo 24 negras, 25 mulheres, uma indígena, 15 LGBTIQs e quatro moradoras de ocupações urbanas.  A experiência da Gabinetona também concretiza nossos compromissos de confluência máxima, incluindo diversas forças do campo progressista e de experimentação de processos participativos.

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