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Pessoas transformam o mundo

Como a proximidade com os alunos e a dinâmica horizontal proposta pelos cursinhos populares pode inverter a lógica da educação e romper com a estrutura do poder do capital que asfixia a educação brasileira.

por FRANCIS DUARTE

São Paulo, 23 de setembro, sábado ensolarado e o Cursinho Popular Laudelina de Campos abre suas portas na Escola Estadual Alcântara Machado, no Alto do Ipiranga, para a realização da Feira de Profissões, uma das atividades que é referência entre os alunos, e para um bate-papo muito agradável sobre educação popular e o futuro do ensino no país. Fui recebida pelos coordenadores Victor e Grazi, que apresentam o evento em forma de diálogo aberto e franco entre professores, profissionais e alunos a respeito do mercado de trabalho, escolhas, perspectivas de futuro e, principalmente, olhar para além de uma ótica perversa e que priorizaria apenas o capital. O Cursinho Popular Laudelina de Campos teve suas origens na Rede Emancipa, do PSOL. Tem aproximadamente sete anos de existência, mas, hoje, é dirigido de forma independente por coordenadores, professores e, agora, com a presença de alunos que participam diretamente de debates e escolhas, de forma horizontal, para assim construírem juntos o ideal de educação popular. Ambos os coordenadores destacaram a dinâmica de ensino, tanto do conteúdo voltado para o vestibular quanto da prática dos “círculos de discussão/debates” e saraus culturais, ensinamentos vindos da pedagogia Paulo Freire e que trazem temas desde questões agrárias, feminismo, violência na periferia, chegando à situação dos refugiados – no dia, o grupo recebeu um militante congolês que dialogou com todo o grupo. A respeito da abrangência do território, o projeto apresenta grande acolhimento, pois o cursinho recebe alunos dos mais diferentes lugares, como a região do ABC, Cidade Tiradentes, Heliópolis e Vila Prudente, o que demonstra a carência de cursinhos populares para atender as demandas do ensino/aprendizagem de grupos sociais distanciados e silenciados dos grandes centros. Os coordenadores reforçaram que há um trabalho de preparação para o vestibular tradicional, mas também que priorizam uma formação crítica, discutindo, inclusive, o quanto o próprio vestibular se mostra como “catraca social”, uma vez que as universidades se tornam locais de abismos onde nem todos os aprovados conseguem manter os gastos com o ensino e as dificuldades de adequação de horários por trabalharem em rotinas muitas vezes exaustivas e engessadas pelos próprios empregadores. É perceptível a construção do processo de educação popular que questiona a segregação social e estimula a ação como forma de resistência da periferia. Victor e Grazi abordaram de maneira contundente que a educação não pode ser vista como uma mercadoria e que a partir do momento em que ocorre o diálogo na sala de aula, há o entrelaçamento da vida tanto de professores quanto do aluno, torna-se algo integrado e coletivo. A realidade concreta pode ser então transformada e questionada, o que impulsiona a busca pelo conhecimento. Reforçaram que os próprios alunos comentam sobre a importância de os professores irem além do chamado “ensino tradicional”. Nesse sentido, percebeu-se que o processo de educação popular transforma também os professores, que se veem longe de metas ou porcentagens de produtividade extrema, trabalhando com autonomia, o que desenvolve e amplia horizontes para a relação professor-aluno e ensino-aprendizagem coletiva. Victor apresentou a ideia de educação popular como um ideal de construção de uma nova realidade porque tudo se baseia na coletividade, mesmo vivendo um período de perdas sucessivas, duras, numa perspectiva muitas vezes incerta. E é justamente esse pertencimento ao grupo o elemento capaz de promover a ação-reflexão. Nesse sentido, Grazi destacou o quanto é preciso lutar por essa educação popular, visto que há uma estrutura hegemônica que ataca os movimentos que a promovem. Assim, a resistência se configura como luta e fortaleza para todos que ali estão. Finalizando a conversa, tive a oportunidade de ouvir um aluno que participa da coordenação, Vlademir, e uma ex-aluna, a estudante de Comércio Exterior, Ana. Ambos reforçaram o conteúdo preparatório, mas principalmente salientaram a importância da existência dos círculos de debate como forma de ampliar horizontes e conscientizar a todos sobre a construção de uma sociedade mais justa e humana.

Destaco o quanto saí tomada de um sentimento de força e coragem e o quanto ideais libertadores ecoam para além dos muros da educação tradicional, como afirmado por Paulo Freire: “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão-ação. Pessoas transformam o mundo”.

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