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Dos hippies ao Bem Viver

A jornada por um mundo mais nativo

Por GABRIEL SANTANNA

Uma vida de paz sem guerra, baseada na luta pelo bem comum. É assim que alguns jovens estadunidenses viam os povos originários do país. “Havia essa percepção – até estereotipada – de que os nativos viviam (…) de maneira simples, da terra, vidas de intensa espiritualidade”, diz Sherry L. Smith, historiadora estadunidense e escritora do livro Hippies, Indians and the Fight for Red Power em entrevista ao jornal on-line Indian Country Today. Na verdade, a visão romântica não era completamente real. Havia rixas nas tribos e entre as tribos; certos pudores sexuais compunham a moral de muitas das comunidades; o clima perverso de algumas regiões impunham dificuldades que às vezes resultavam em racionamento de alimentos. Enfim, o paraíso não era perfeito.

Mas havia muito o que ser aprendido. O respeito pela natureza, a noção de vida como algo que transcende o humano e a própria biologia tradicional eram elementos que intrigavam a juventude do país. “Encarar a natureza como sujeito de direitos, trabalhar o Bem Viver, são coisas que o movimento hippie já falava desde o final dos anos 60″, conta Thomas Enlazador, permacultor e cientista jurídico especialista em cultura dos primeiros povos. Segundo essa filosofia do Bem Viver, a natureza é a composição de todas as existências. Não se pode pensar no indivíduo sem o coletivo, da mesma forma que não se pode pensar no coletivo sem a natureza. Existe uma energia que flui entre tudo e todos. A essência vital. Uma árvore tem direitos, as águas também. A Mãe Terra tem direitos. Isso é Mino-bimaadiziwin, a maior das filosofias, com versões em muitas tribos em toda a América. Em Quíchua, na Colômbia, Sumak Kawsay; em tupi, no Brasil, Teko Porã. Em português conhecido como o Bem Viver.

A juventude estadunidense, crescida em momento de crise das instituições (momento de guerra fria e conflitos ideológicos por todo o mundo), abraçou a filosofia do Bem Viver como contestação a valores tradicionais e capitalistas. A luta sempre foi, em parte, por alternatividade. O afronta pela afronta. Hippie significa “estar por dentro”, saber das boas-novas. “o grupo surge com um conjunto de jovens economicamente privilegiados que buscam se retirar da sociedade tradicional”, nos conta a historiadora Débora Bergamini. Assim, era inevitável que alguns não se interessassem realmente pelo que os nativos se propunham a ensinar, mas pela estética do movimento e como ela poderia melhorar suas autoimagens. Daí têm-se as mais diversas distorções dos princípios. O uso de drogas sem a reflexão espiritual; o poliamor baseado em um senso de consumo, em vez de no sentimento de amor para todos; a conversa em roda, mas sem reflexão sobre as filosofias dos primeiros povos. Todos os tipos de desvios e perdas. A justificativa sendo, muitas vezes, uma leitura equivocada das tradições nativas.

As comunidades originárias também não aceitavam a juventude indignada apenas por questões filosóficas e metafísicas. Queriam que suas terras e direitos fossem reconhecidos. “Alguns nativos queriam se engajar com os hippies por considerá-los politicamente úteis”, explica Sherry L. Smith. Viam nos hippies uma forma de conseguir atenção da mídia, bem como suporte legal e político de pessoas acostumadas a navegar pelos meandros da sociedade republicana.

Mas mesmo que por vezes conturbada, e permeada por segundas intenções, a aliança entre jovens e nativos potencializou a filosofia ancestral do Bem Viver. “Conseguiram uma visibilidade muito maior para o tema ambiental. Não ficou mais uma questão restrita a um nicho. A temática alcançou a todos os setores da sociedade.” E não é para menos: Aliados vindos de comunidades ocidentais e nativas acorrentavam-se a árvores no caminho de tratores encomendados por grandes corporações. A ganância não pode passar por cima dos direitos da floresta! Em alguma extensão não importava muito se princípios individualistas rondavam os estímulos de alguns integrantes do movimento. A luta era das mais nobres. E o legado filosófico, inegável.

O espírito da paz atravessou a barreira dos interesses e contagiou tanto os jovens quanto os nativos. Para alguns pensadores não se pode entender o Bem Viver sem essa relação com movimentos sociais e políticos da época. “[O Bem Viver] foi igualmente influenciado por críticas ocidentais ao capitalismo (…). Especialmente no campo feminista pelo ambientalismo”, explica o especialista no assunto Eduardo Gudynas, em entrevista ao jornal The Guardian. A exaltação do amor e da paz, como princípios elencados para intermediar a relação entre os primeiros povos e descendentes de europeus, fez nascer uma nova cultura. A indignação foi somada à tradição. Os hippies foram muito mais do que sexo drogas e rock n’ roll. Foi a luta por uma outra forma de pensar o mundo, baseada na cultura da paz, do amor e do Bem Viver.

Mas símbolos são quebrados, movimentos se dissipam e estéticas são sequestradas. O governo de Nixon não foi bom para os hippies. Em 1971, no protesto de “MayDay”, 12 mil hippies foram presos. Nixon temia uma nova Woodstock. E as classes dominantes temiam uma revolução. Colocaram o poder das armas contra o poder das flores. O resultado não foi paz nem amor. Ao mesmo tempo, um sentimento da parte alienada do Ocidente contra o comunismo, a China e a União Soviética provocou um apelo a valores nacionalistas. Na verdade Nixon imitou o autoritarismo russo e chinês, colocando o nacionalismo fanático da população contra todos os que fugissem da norma.

Como se não bastasse, a estética hippie era sequestrada pelo capitalismo. Filmes, músicas e comícios eram realizados com o apoio do grande capital. Muitos, temendo a repressão policial, preferiram as opções mais “seguras” do movimento. Contentaram-se com o formato. Perderam a essência do embate e reduziram o movimento hippie a mais um produto consumido na forma de acessórios de determinada moda, alimentos de determinados tipos, e em shows, músicas e filmes de determinada estética. O que foi um tanto esquecido foi justamente o que os nativos tinham a ensinar: o Bem Viver. A vida para além de bens materiais, para além do prazer instantâneo, da mera estética.

Não são muitos os que se lembram. Infelizmente, mesmo a maior parte da esquerda tradicional permanece omissa aos ensinamentos hippies. Cercados até hoje pelo fantasma da União Soviética, insistem em uma dialética centrada no produtivismo. Não abraçaram os princípios da paz e da harmonia como norteadores de uma nova visão de mundo, preferindo no lugar uma visão europeia centrada no velho marxismo-leninismo. “A grande maioria da esquerda é materialista, marxista. (…) nunca estiveram conectados com as filosofia hippies e dos primeiros povos”, complementa Thomas Enlazador.

Mas nem tudo foi perdido. Ao contrário: o movimento hippie se desdobrou em dezenas de outros por todo o mundo. No México, por exemplo, Coyote Alberto Ruz criou em 1982 a Ecovila Huehuecoyotl. O permacultor, ativista e cientista social coordena no alto da montanha Tepoztlan, no México, uma verdadeira comuna hippie nos tempos modernos. Os princípios norteadores são a paz e o amor, o Bem Viver. De 1996 até 2009, Alberto e sua trupe viajaram por toda a América Latina em expedição, na Caravana Arco-Íris pela Paz. Um conjunto de trailers e caminhonetes que circulam pelo continente aprendendo e ensinando com as populações. Qualquer semelhança com uma caravana hippie não é mera coincidência. No Brasil, o próprio Thomas Enlazador lança suas flechas na luta pelo Bem Viver: é codeputado do Mandato Cidadanista. Uma pré-candidatura a deputado federal com design em roda, que propõe a cultura dos primeiros povos, e os direitos da Mãe Terra como alguns de seus alicerces. No último Fórum Social Mundial, no Brasil, foi também, um dos lançadores da aela (Aliança Ecossocialista Latino-americana), que tenta ser o mediador de uma aliança entre países do Sul do continente pautada no amor e na paz. Nas Constituições do Equador e da Bolívia, os direitos da Mãe Terra e o Bem Viver já têm força legal, inspirando e incentivando o mundo inteiro a considerar as filosofias dos primeiros povos da América. O fato é que há esperança. Pessoas maravilhosas dispostas a ceder seu sangue por um mundo mais tupi, mais náuatles, mais apache. Enfim, por um mundo mais nativo.

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