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De volta à terra sagrada

Índios Mbya Guarani retomam área ancestral no Rio Grande do Sul e restabelecem vínculos com seus antepassados. Uma conquista dentro da luta dos povos originários pela terra subtraída e pelo direito de exercer seu modo de vida com respeito.

POR MARCELO SOARES e JOÃO MAURÍCIO FARIAS

Foi em 27 de janeiro deste ano, na Arapiau (estação nova, estação dos deuses), que setenta famílias Mbya Guarani retomaram uma área em Maquiné (RS), onde viveram seus antepassados. A área estava na posse da Fepagro – Fundação de Pesquisa Agropecuária –, uma das fundações que o governo do estado gaúcho está extinguindo para fazer caixa, através da venda do patrimônio público.

         Cansados de viver em terras ruins que os governos lhes destinavam, essas famílias encontraram nessa área tudo que necessitam para viver de acordo com suas tradições e necessidades, de viver segundo seu Nhanderekó (modo de vida Mbya): água limpa, árvores frutíferas, plantas nativas para seus remédios e, nas palavras do cacique dessa nova Tekoá (aldeia), Andre Benites, tem até matéria- prima para fazer a Opy, a casa de reza deles.

          Nesses mais de quatro meses de retomada, os Mbya Guarani construíram não apenas uma Opy e onze casas, mas principalmente uma ampla rede de apoio que tem garantido a sua resistência e permanência no local. Esta rede é constituída pelo CIMI – Conselho Indigenista Missionário –, a AEPIM – Associação de Estudos e Projetos com Povos Indígenas e Minoritários –, o Cepi – Conselho Estadual dos Povos Indígenas –, a RAiZ – Movimento Cidadanista, a Anama – Ação Nascente Maquiné–, a Amigos da Terra Brasil, Coletivo Baçara, Clapa – Coletivo Libertário de Apoio aos Povos Ameríndios –, Centro Budista – CEBS e dezenas de ativistas e técnicos (antropólogos, historiadores, especialistas em desenvolvimento rural e outros pesquisadores) comprometidos com as lutas dos povos indígenas.

          Seguindo os desígnios de Nhanderú Tenodé (grande pai provedor e uma de suas principais divindades), os Mbya Guarani de Maquiné têm demonstrado ao longo desses cinco meses de retomada uma resistência incomum em uma conjuntura de retrocessos em relação aos direitos dos povos indígenas, com um acentuado desmonte da Funai e uma ofensiva ruralista iniciada ainda no governo Dilma, mas que se intensificou sobremaneira no governo Temer. Mesmo com a concessão da reintegração de posse por parte da Justiça Federal, essa resistência e a ampliação da rede de apoio permitiram a abertura de negociações com a Procuradoria-Geral do Estado, levando-a a suspender a reintegração, apostando em uma solução de repartição da área de 367 hectares entre os indígenas e a Fepagro.

          Mas o que fica patente em todo esse processo é a alegria dos índios de poderem exercitar o Teko Porã, o bem viver, seu modo de vida integrado com a natureza, com os outros seres do cosmos (modo de ser semelhante às divindades). Em uma conversa que tivemos nos primeiros dias da retomada, o cacique José Cirilo Morinico, da aldeia da Lomba do Pinheiro, em Porto Alegre (RS), expressava toda sua alegria em vivenciar a construção dessa nova Tekoá: “A felicidade significa a manifestação de que o corpo está se sentindo bem com a natureza, no lugar, no ambiente para ter corpo bem instalado. Daí, você não tem problema de saúde, não tem problema pra reclamar, daí é uma alegria, criança cantando, todos cantando, fazemos ritual todas as noites. Eu me sinto muito bem aqui, eu me sinto muito feliz aqui, porque não ouço barulho dos carros. Só passarinhos, só os insetos cantando com nós de noite. Então isso é uma forma de caminhada dos Guarani mesmo, dos antigos que caminharam dessa forma, respeitando a natureza, respeitando os seres vivos também. Então isso pra mim é o que nós precisamos, o que nós perdemos há quase dois mil anos, perdemos essa vida que a gente tem, a saúde. Quando a gente trata de falar em saúde muitas vezes não consegue essa forma de viver”.

      Enquanto aguardam por uma decisão que lhes garanta a posse da área e a continuidade desse vínculo com a natureza, os seus ancestrais e suas divindades, as famílias da nova Tekoá vão tecendo uma nova teia de significados e uma rede de parcerias que transbordam a retomada e a ampliação da sua presença no litoral norte gaúcho. Na audiência realizada na Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do estado e na reunião ampliada com apoiadores na própria retomada, se fizeram presentes representantes dos Mbya Guarani de diferentes regiões do Ivyrupá (grande território Mbya Guarani), como do litoral gaúcho, Santa Maria, Porto Alegre, Ilha do Cardoso (SP), debatendo pautas voltadas à espiritualidade, à cosmopolítica Mbya e ao processo em andamento.

     Em uma demonstração de diálogo e da sua aposta em uma solução negociada com o governo do estado, os Mbya Guarani da retomada compareceram no início de junho a um seminário de apresentação das pesquisas realizadas pelo Centro de Pesquisa do Litoral Norte que, com a extinção da Fepagro, hoje pertence ao Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária da Secretaria Estadual da Agricultura, Pecuária e Irrigação. Na ocasião, os índios ouviram do próprio administrador do Centro que eles estão abertos ao diálogo com as famílias da retomada. Isso não significa, porém, uma garantia de sucesso na negociação, pois recentemente o governo Sartori destinou outra área pertencente à extinta fundação para a construção de um presídio em Viamão, deixando claro quais são suas prioridades.

      No seminário, o indígena pataxó Merong Tapurumã, que também vive na retomada, deixou clara essa intenção de diálogo e o compromisso das famílias com a preservação da área: “Se a gente ficar por aqui, não vamos atrapalhar o trabalho de pesquisa, pois apoiamos e defendemos a natureza. Nós somos a natureza, somos seus guerreiros guardiões.” Segundo Merong, onde existirem indígenas vai haver floresta, água, vida: “Essa terra é sagrada para nós, queremos cuidar dela. Quem produz alimento no Brasil são os povos indígenas e os agricultores. O nosso povo tá ameaçado de extinção, somos pisados, roubados, massacrados. Só queremos o suficiente para viver. Peço respeito com os povos indígenas, com nossa luta”, disse emocionado.

       Após resistirem ao longo do verão e de todo o outono, as famílias da retomada seguem enfrentando muitas dificuldades para a sua subsistência e continuam dependendo de doações nessa fase de incertezas em relação à sua permanência na área e de consolidação da nova Tekoá, o que lhes impede de garantir a autonomia na produção de alimentos com o plantio de suas roças tradicionais, criação de pequenos animais, venda de artesanatos e implantação de propostas de etnoturismo.

         Como movimento de primeira hora na rede de apoio à retomada, a RAiZ continua atuando em várias frentes, técnica, jurídica e de mobilização para as doações dos alimentos, roupas e ferramentas necessárias para a resistência das famílias Guarani de Maquiné, entendendo que o que está em jogo não é a simples posse de uma área, mas a garantia de um reencontro dessas famílias com sua espiritualidade e um modo de vida que lhes vem sendo negado há séculos pelos Juruá (não indígenas, brancos). Um modo de vida que se realiza com a convivência na mata, no banho em um rio de águas limpas, nas árvores frutíferas e com todas as espécies animais ali presentes.

A RAiZ está presente, junto com outros apoiadores, para resistir, com essas famílias indígenas, durante esse inverno, pois sabemos que depois virá a primavera, e esperamos que ela signifique o coroamento desse processo de lutas, com a garantia da fartura que essa terra significa para os Xondaros (guerreiros que defendem as Tekoá, como modo de vida Mbya) que atenderam a orientação de Nhanderú e Nhandeci (grande mãe verdadeira) para essa retomada de parte do seu território ancestral. Aguyjete (a busca da perfeição, da verdade verdadeira) para quem luta!

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