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Como, logo não penso

Ele é alemão, mas adotou o Brasil e tenta trazer a cultura dos orgâncicos da Europa para e conscientizar o público dos benefícios da alimentação orgânica

Por Redação

O que come, Matthias? 

Gostei da pergunta. Olha, nós não somos diferente de todo mundo. Tentamos comprar ao máximo orgânicos, e, quando falamos ao máximo, significa 30% e 60%. Uma coisa eu sei: quando consumo alimentos orgânicos eu me sinto muito mais à vontade. Eu sou um daqueles loucos que come banana com casca. Mas orgânicas, por favor! Eu gosto de fazer suco com a casa do abacaxi. Fica uma delícia e com uma consistência diferente.

E um refrigerante ou uma coxinha de vez em quando?

Eu tenho um filho e nós vamos muito a comemorações de aniversário infantil onde tem coca e guaraná à vontade. Não vamos baixar o santo e querer mudar o mundo. Não vamos ser o terror da alimentação. Nós compramos orgânico, mas lógico que não temos só isso em casa. Outro dia meu filho pediu uma coxinha. Nós perguntamos: tem certeza? E pediu a coxinha,  comeu a parte da casca, da massa e deixou o recheio. Eu perguntei: não vai comer a parte de dentro? Não, eu não quero comer esse animal. Olha só a consciência da criança. Interessante, não?

Qual é a diferença entre o Brasil e a Alemanha em relação aos orgânicos?

Eu sou alemão e percebi que lá a alimentação era orgânica e principalmente era natural. Nós tínhamos eventos populares e festas com comidas naturais. Hoje, na Alemanha um prato tem de 20% a 30% de alimentos orgânicos. Isso é menos da metade ainda, mas no Brasil isso é 1%. Na Argentina, 7%, e no Chile, 6%. Nos EUA são 10%. O Brasil está na lanterninha mundial. Mas por outro lado, o país tem um tamanho e uma estrutura que favorece o cultivo orgânico, com a pequena agricultura familiar e propriedades que são propícias ao cultivo orgânico. Um potencial gigantesco, o Brasil tem três safras por ano. A Alemanha só tem uma. O país é 36 vezes maior que a Alemanha.

Mas o orgânico não é caro? Como baratear e fazer o ecossistema orgânico ganhar mais adeptos?

Todo mundo reclama dos fornecedores e dos preços mais altos. É o que ainda está na cabeça das pessoas, que custa o dobro. Mas quando o mercado de varejo entrou, isso mudou um pouco. Com mercados como o Pão de Açúcar estimulando o consumo, a cadeia mudou. A marca teve um papel importante na cultura do orgânico e no desenvolvimento dos pequenos produtores. O que quero dizer é que a iniciativa privada pode fomentar e fortalecer um sistema como o dos orgânicos e a agroecologia sustentável. Um empresário consegue entusiasmar todo o segmento. Por outro lado, no mercado gastronômico, os chefs ainda não compraram tanto a ideia. Por enquanto.

E como conquistar a opinião pública sobre o valor e a qualidade do produto orgânico?

Você tem que chegar no preço viável como é na Europa hoje. Se a diferença for até 10% na gôndola, entre um orgânico e outro não orgânico, o consumidor opta pelo natural. E é uma tendência mundial irreversível. O mercado que não tiver orgânicos, no futuro, vai fechar. Quando você fala entre caro e barato, você tem que saber que os orgânicos são produtos premium. Uma geleia orgânica, por exemplo, tem mais fruta. Uma convencional, você tem engrossador e um monte de outros ingredientes e, em razão disso, esses produtos não podem ser comparados de maneira tão simples. Se comparar pelo produto de fato, você vai ver que o orgânico é mais em conta, pois é mais integral e, portanto, tem mais valor.

Mas existem produtos premium que não são orgânicos. Por que comprar um orgânico?

Qual a diferença do chocolate Lindt e da Amma? A marca. Os dois produtos são premium, mas o que faz o chocolate Amma melhor? 1º, ele é regional e vende aqui. 2º, ele é orgânico; a marca olha toda a cadeia, é sustentável e preza pela saúde de quem trabalha e também de quem consome. Dentro desse produto não tem glisofato (herbicida usado em plantações que causa dano ao meio ambiente e à saúde). No Lindt, fatalmente você vai encontrar o glisofato. Todo produto convencional hoje tem algum grau de resíduo tóxico. O orgânico pode até ter um grau disso, por contaminação, mas nunca passa de 5% e nunca acima do limite da Anvisa. O morango convencional passa 60%, o pimentão passa 80% de substâncias tóxicas. Você tem a certeza que está comprando resíduos agrotóxicos. 

E por que consumimos alimentos que possam ter agrotóxicos? Ou no caso dos alimentos industrializados, por que comemos determinados produtos feitos de maneira artificial?

Porque nós crescemos aprendendo a consumir esses produtos. O caso da cerveja, por exemplo,  é um exemplo de alteração. As cervejas fizeram uma evolução nos últimos 30 anos e por uma lógica econômica são mais baratas hoje. Para ter mais lucro e maior margem, o preço vai aumentando enquanto o da produção vai diminuindo. Como você diminui? Você usa milho na cerveja, por exemplo. Aonde quero chegar? Se você tem uma cerveja que desce de um jeito especial é porque eles estão usando ingredientes que no início jamais usariam. Eles baratearam a produção e o produto que você gostava mudou, mas você continua consumindo porque desce de um jeito especial, entende? E assim funciona com a maior parte dos produtos industrializados alimentícios. Ou até no setor de vestuário. Algo entre 60% e 70% do algodão brasileiro é transgênico. Usa-se bastante glisofato ou também outras substâncias no algodão transgênico. Isso está na sua camiseta, no seu jeans. Ou pior, nas mulheres, está no absorvente íntimo. Você tem resíduos tóxicos perigosos que são proibidos em outros países, mas que no Brasil podem ser usados. A gente gosta de não olhar isso, pois vai se assustar muito. A opinião pública pressente e tem medo. Todo mundo conhece e vê isso. Pessoas com alergias ou problemas de saúde, câncer. Tudo isso são sinais de um mundo que está em cheque e a gente ignora. O fato é que a gente consome as mais altas porcarias. Quem vai em sã consciência tomar caramelo 4, um cancerígeno? Quem vai tomar? Todo mundo. Porque existe uma marca e tomamos há décadas. Tem guaraná em todos os aniversários infantis. A gente dá isso para nossas crianças. Guaraná é uma delícia, mas de fato não faz bem à saúde.

Acredita que se as restrições e a legislação fossem iguais às que se aplicam sobre cigarro, estaríamos mais protegidos?

A sociedade decidiu que o cigarro é ruim. Todos podiam fumar onde queriam. Depois o fumante não podia mais no avião, depois no trem, depois no restaurante, depois não vai mais poder fumar em casa. Se eu fosse um legislador da bancada do alimento saudável, não existe, aliás, mas se existisse, e eu fosse responsável pelas leis, eu aplicaria o mesmo rigor que está sendo aplicado ao cigarro e ao álcool aos alimentos. Todos podem tomar um gole de cerveja e não vai acontecer nada no trânsito, certo? Não mais. O Brasil fez um sinal. Não queremos que você tome nada. Por que afinal qual a diferença entre tomar uma e duas? Me diga, naquela conversa com o guarda que te parou. Você vai falar: “só tomei uma, seu guarda”, mesmo que tenha tomado dez. Então o legislador se antecipou a malandragem e fez a lei. Fizeram um radicalismo total no cigarro, no álcool e, muito pior, nas drogas como maconha e cocaína. Estaríamos mais protegidos se fosse feito isso com os alimentos.

E por que o Estado não intefere? Por que acha que não faz isso?

Interfere onde a opinião púbica é forte e consciente. Na Dinamarca vão mudar tudo. Em 20 anos eles vão comer tudo orgânico. Um caminho muito forte, onde a opinião falou: “Já deu, agora a gente vai fazer direito”. Vai ter imposto sobre açúcar que tem dentro da nossa comida, como o caramelo 4 que tem na cerveja escura, nos refrigerantes. O Estado vai interferir pelos impostos.

Como vê o Brasil dentro do contexto mundial de mudanças dos países por um mundo mais sustentável?

O Brasil é hoje a Alemanha de 30 anos atrás. Naturalmente está atrasado em alguns aspectos, mas está melhor em outros. Outra questão que se nota aqui é ainda uma falta de conscientização pública e por consequência do Estado. Hoje, no Brasil, os governantes querem que se aprenda matemática e química e isso pode fazer com as pessoas sejam mais facilmente influenciáveis. Tem gente contando que só a agricultura transgênica consegue alimentar a população. Se você repete, repete, repete, as pessoas acabam acreditando nisso.

O Brasil  é um país de grandes latifúndios e com uma bancada ruralista forte que protege interesses do agronegócio. Vê isso como um entrave ao crescimento dos orgânicos no país?

Esse setor tem a intenção de crescer e não acho isso ruim. Na minha opinião, o que tem que ser feito é o Estado limitar e regular o agronegócio e o sistema. Então, se tiver que desmatar para plantar, não pode. Tem que reflorestar. Sim, isso vai aumentar o preço da carne, mas são medidas sustentáveis e o governo tem que fazer isso. Se você vende uma carne aonde o gado pasta em uma área livre de desmatamento, com projetos de escolas e não usa agrotóxico isso vai conquistar um mercado com um selo de sustentabilidade. O governo tem que sair do transgênico e estimular a sustentabilidade. Esse é o caminho: criar mais valor com menos destruição.

E o sistema de certificação, como funciona? Como uma propriedade pode se tornar orgânica?

Temos certificadores que visitam a fazenda, colhem os relatos, os índices de agrotóxicos e fazem um plano junto com o proprietário para a propriedade virar orgânica em até dois anos. A partir desse momento eles entram no regime e no sistema de trabalho orgânico. E em três anos, com o solo recuperado, eles recebem o selo. É um processo ISO muito rígido. E realmente as pessoas ficam fiéis para não perder, uma vez que já investiram dinheiro no processo. Mas o melhor são os vizinhos. Eles estão vendo o que está fazendo. Sabem se tem glisofato na sua prateleira. Não existe falsidade, funciona. As relações entre as pessoas também acabam mudando com maior diálogo entre trabalhador e produtor. Esses conceitos são bem firmes no orgânico, é um sistema que vale muito a pena para todos.

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