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Cem anos da Revolução Russa

"O triunfo da revolução consiste no seu principal legado"

entrevista com ADEMAR BOGO

Por que cem anos depois – e num mundo em que cresce o conservadorismo –, é importante relembrar a Revolução Russa?

As revoluções são atos no teatro da história impulsionados por dois fatores reais: as condições históricas e as circunstâncias em que tais atos acontecem. A Revolução Russa foi composta pela sequência de um conjunto de atos históricos até que, no desfecho final, tornou-se um grande acontecimento, um marco histórico que jamais será esquecido.

O conservadorismo, por sua vez, também se afirma por meio de atos históricos, sustentado por condições e circunstâncias diferenciadas, muitas vezes disputadas dentro do próprio processo revolucionário e, por esta e outras razões, há revoluções que chegam a ser derrotadas pelo movimento oposto, contrarrevolucionário ou pelos equívocos cometidos pelo comando da revolução.

Desde o advento do capitalismo, a humanidade convive com essas oposições e vê, em um momento, o ascenso das revoluções e, em outro, o avanço do conservadorismo. Nas últimas décadas vivemos esse último movimento, mas isso não significa que ele anule a memória dos movimentos anteriores e nem que impeça que novos movimentos ascendentes e revolucionários possam surgir.

A Rússia da época vinha de um sistema semifeudal com recente industrialização, contrariando teses de que só o pleno desenvolvimento do capitalismo acirraria as contradições e a luta de classes para criar um Estado revolucionário entre os trabalhadores. Como explicar que a primeira grande revolução socialista do mundo acontecesse ali?

Primeiro, não podemos considerar que seja puramente o teor das teses pré-elaboradas que dá o destino à história; depois, que em todos os lugares a revolução possa ocorrer da mesma forma e pelas mesmas razões.

É evidente que Marx e Engels colocaram como elementos importantes a considerar para a realização de uma revolução as contradições entre o desenvolvimento das forças produtivas e as relações sociais de produção. Mas isso não significa um dogma, porque em outros momentos apresentaram as condições e as circunstâncias históricas como fatores decisivos.

Em relação à Revolução Russa especificamente, eles mesmos alertaram que havia elementos diferenciados naquela realidade que poderia acelerar o processo revolucionário. Marx evidenciou isso em 1881 num primeiro esboço de resposta à carta de Vera Zasulitch, militante russa com a qual Engels também se correspondia e, em 1882, no prefácio à segunda edição russa do Manifesto do Partido Comunista. O entendimento de Marx era que, graças a uma combinação de circunstâncias únicas, a comuna rural estabelecida em escala nacional poderia livrar-se das características primitivas e se desenvolver diretamente com o elemento da produção coletiva em escala nacional. Nesse sentido, a Rússia era o único país em que a “comuna agrícola” mantivera-se em escala nacional; tendo ela, na forma comum do solo, a base da apropriação coletiva, poderia incorporar as conquistas positivas produzidas pelo sistema capitalista e substituir gradualmente a agricultura parceleira pela agricultura extensiva com o auxílio de máquinas. Por isso, ela poderia tornar-se o ponto de partida direto do sistema econômico para o qual tende a sociedade moderna e “trocar de pele sem ter de cometer suicídio”.

Por outro lado, também não é estranho o pensamento marxista sobre os modos de produção. Marx astutamente considerou que havia na Ásia um modo de produção diferenciado, razão pela qual o denominou de “asiático”, e não feudal. De certo modo, essas nuances ainda persistem em relação ao todo, e se imaginarmos que a China passa longe de 1 bilhão de pessoas, deveríamos refletir: se houvesse perdurado o capitalismo nos moldes ocidentais, tamanha população teria sobrevivido? Pois eles vivem. Fizeram também a sua revolução socialista em 1949 e lá estão com todas as contradições de nosso tempo.

Quais foram as principais conquistas que a Revolução permitiu aos trabalhadores? Qual delas persistem até hoje?

As principais conquistas da revolução para os trabalhadores russos foram a superação da exploração econômica e a dominação política. O salto cultural alcançado já na primeira geração dos revolucionários é incomparável com quaisquer das décadas  mais promissoras do capitalismo.

Além disso, a experiência construída pela organização dos comitês ou conselhos, que representavam de fato os anseios da população e que transformaram desde o mais simples camponês até o mais elevado intelectual em verdadeiros sujeitos da própria história, demonstra o que significa o conceito de emancipação na teoria marxista.

A demonstração de que a revolução necessita de um partido dirigente com a capacidade interativa de valorizar todas as forças, cuja função é determinada pelo próprio processo é um aprendizado que até hoje não pode ser ignorado.

A formação da consciência da militância e das massas tendo os meios de comunicação como veículos das mensagens foi e continua sendo fundamental para se pensar um processo revolucionário. E a visão internacionalista dos dirigentes da revolução que não só deram continuidade à tradição, criando a Terceira Associação Internacional como tentativa de unificar o proletariado e os comunistas do mundo inteiro, demonstra ser uma lacuna na atualidade que precisa ser preenchida.

Que erros considera que foram cometidos durante e depois da revolução e o que nos ensinam para pensar o socialismo no século XXI?

Há muitos indicativos de erros apontados por estudiosos da história da revolução, mas devemos observá-los com certa serenidade, seja a crítica sobre o “partido único”, a “burocratização governamental”, a “ingerência do Estado” em todos os setores da produção, etc. No entanto, não se pode esquecer que todo o processo foi vivenciado universalmente dentro do modo de produção capitalista na sua fase mais perversa, a imperialista.

Se a tese era de que “não se poderia iniciar o socialismo em um só país” e que “a revolução não ocorreria em países atrasados”, como exigir que aquela revolução se universalizasse e, ao mesmo tempo, passasse pela transição socialista?

Na teoria revolucionária que Lênin e os bolcheviques estudaram estava claro que os trabalhadores não deveriam tomar para si e fazer funcionar a seu favor a máquina do Estado. Era a ditadura do proletariado a forma ideal a substituí-lo, mas era possível, sem um instrumento de poder centralizado, preparar-se para sair da Primeira Guerra Mundial vitoriosos e logo em seguida iniciar a preparação para a Segunda Guerra  e vencê-la?

Portanto, teoricamente, podemos encontrar inúmeros erros e equívocos, mas na prática não podemos esquecer que esta que completa cem anos foi a primeira insurgência, depois de Paris, a de fato instituir um governo dos trabalhadores.

Para pensar o socialismo do século XXI é importante considerar as experiências históricas, mas as revoluções não são exportáveis, e os países, as culturas etc. são diferentes. O socialismo deixou de ser utópico quando Marx e Engels revelaram cientificamente as leis de funcionamento do capitalismo, que continuam em vigor. No entanto, não são apenas as leis que levarão à superação do capitalismo. É preciso que a favor delas se movimente a força do sujeito da história, sejam formuladas e aplicadas medidas políticas, as quais dependem da capacidade de cada organização.

Quais são considerados os principais legados da Revolução Russa?

O triunfo da revolução consiste no seu principal legado. Isto porque as forças revolucionárias mostraram ser possível, em condições adversas, colocar-se o propósito de fazer a insurreição, avançar para o segundo momento, que é a tomada do poder e, em seguida, implantar a ditadura do proletariado, que é de fato organizar o poder da maioria.

Ao relembrarmos nesta data os cem anos da Revolução Russa, devemos pensar na quantidade de lutas pelo mundo que ela motivou; quantos estudos foram elaborados e obras de arte produzidas. A Revolução Russa afirmou perante a humanidade que a contemporaneidade inaugurou e superou o velho tempo em que as minorias lutavam pelas minorias; agora as maiorias devem lutar pelas maiorias, e nisso não há segredo. Basta que se tenha claro para onde ir e embrenhar-se na luta para lá chegar.

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