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Carta aberta à família

Marcelo foi um bem-sucedido executivo de banco de investimentos. Hoje, desde Alter no Chão no Pará, escreve uma carta à sua família onde compartilha sua forma diferente de encarar a vida

Por Marcelo Luna

Mãe e pai, saudades! Mudei muito desde nosso encontro um ano atrás. Talvez não reconheçam seu filho nesta carta, mas apreciarão as novidades. Conto sobre as transformações que vivi nos seis meses longe da cidade grande, em Alter do Chão, Pará, na Amazônia brasileira. Ao deixar São Paulo, viajei pelo Norte até chegar aqui, em agosto de 2016. Planejava ficar 10 dias em Alter e seguir visitando escolas inovadoras pelo país, mas não pude partir. Hoje entendo a influência da natureza sobre mim e confio nas energias que me movem.

INTENÇÃO E ATITUDE DE MUDANÇA

Os trabalhos de autoconhecimento que fiz por anos – meditações, budismo, Processo Hoffman –, simultâneos às carreiras individualistas em finanças e startups, provocavam reflexões. É possível sentir felicidade plena? Que propósito tem minha vida na Terra? Que possibilidades não materiais – emocionais, de consciência, energéticas, espirituais – tenho durante e após essa passagem aqui? De me relacionar com outros seres mais profunda e poderosamente? Me conectar a outras dimensões do cosmos?

Incomodado por dúvidas e inspirado por histórias de renovação, deixei o “emprego dos sonhos” e recomecei a vida em 2014, viajando por alguns meses para regiões de montanhas. Lembram-se?

Eu precisava me afastar de influências que contribuíam para minha identidade no “sistema” 1. Também queria me reaproximar da natureza, a paixão de infância esquecida na vida adulta, e experimentar outros estilos de vida2.

Nessa jornada, visitei locais de natureza energizados, como Conceição de Ibitipoca e São Tomé das Letras, e já havia estado em Fernando de Noronha, Marrocos, Índia… Só não imaginava o que estava por vir.

UM LUGAR DIFERENTE

A natureza na Amazônia é encantadora e intimidadora, por sua energia e força espiritual.

Alter do Chão, rodeada pela Floresta Amazônica e às margens do imenso Rio Tapajós, é uma vila de menos de 5 mil habitantes. O encontro das areias brancas com o rio forma praias deslumbrantes. Hoje vivo numa cabana em um grande terreno 95% coberto por floresta e percorro as ruas de barro a pé ou de bike, e há um pouco de urbanização.

A vila atrai mochileiros da América do Sul e de partes da Europa, como França. Assim, o dia a dia mistura culturas locais e externas: cerimônias e medicinas ancestrais indígenas, como ayahuasca e kambô; práticas como permacultura e bioconstrução; artistas de rua, músicos e malabaristas de circo; chefs e cozinheiros de diferentes origens; muitas línguas… e mais.

TRANSFORMAÇÃO

Esse caldeirão de vida tem me inspirado a experimentar. Viajo pela região à base de caronas; faço trabalho voluntário como educador, cozinheiro e até agricultor, recebendo em troca hospedagem e alimentação; peço doações de alimentos na feira, o que supre metade de minhas necessidades; reduzi minha dependência de dinheiro e me desapeguei de coisas, mantendo cinco camisetas, um par de jeans, um short e um par de tênis, além do laptop, que é minha biblioteca e bloco de notas; passei semanas dormindo em uma rede pendurada em árvores, sem moradia fixa; e há seis meses não tiro fotos ou utilizo celular, que deixei de lado após pifar.

Tenho vivido uma nova espiritualidade. Estive em uma cerimônia de ayahuasca, tradição indígena que envolve, entre outras coisas, a tomada de um chá. Senti uma forte conexão ao cosmos e aplico essa energia me voluntariando na proteção da floresta e das águas. Também leio e assisto a documentários sobre o tema. Nos passeios, sinto em cada inspiração e na água o amor da terra e da flora. O planeta me dá o dom da vida. A natureza é parte de mim e sou parte dela. Me afastei do que não é natural, como álcool, cigarro e alimentos processados. Estou com 78 kilos. Tinha quase 100 há alguns anos.

Também mudaram minhas relações humanas e as pessoas com quem escolho estar, com base nas energias que sinto, nos valores e no amor.

Essa curta estada na Amazônia me transformou demais. É como um renascimento. E é libertador. Sinto no coração que é um caminho sem volta, pois não desejo voltar. Escolho cada passo com carinho e vivo a vida maravilhosa que o universo me oferece.

Esse novo caminho diz respeito ao ser único da natureza que sou. Imagino ser de difícil compreensão, mesmo para alguém tão conectado a mim como minha mãe.

Mas qualquer um pode experimentar um novo caminho. Basta dar o primeiro passo. A natureza e o universo te acolherão.

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