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Caminhos da Catalunha

Engana-se quem pensa que a questão da Catalunha é apenas de independentismo. Existe muito mais no caminho que a região começa a trilhar

por IVAN ZUMALDE


TV está ligada no bar-restaurante do centro histórico de Oviedo, Norte da Espanha, mas ninguém presta atenção ao programa de entretenimento. Um grupo de três senhoras joga tranquilamente cartas enquanto um trabalhador toma seu vinho e uma família se acomoda para jantar. O casal e donos do restaurante correm de um lado para outro em função dos pedidos. É próximo das nove horas da noite e o clima de repente muda naquela terça-feira que parecia comum. Todos olham para a TV e os ânimos começam a se alterar. O rei vai falar. Não será um pronunciamento qualquer. O feito é inédito e histórico e o tema é áspero: a independência da Catalunha. O rei Felipe VI nunca tinha se dirigido à população de forma institucional, mas a pior crise política dos últimos quarenta anos na Espanha obrigou o monarca a fazê-lo. A data é 3 de outubro, três dias depois que a Generalitat – governo local de Barcelona – fez um referendo perguntando se a população queria a independência. O resultado da eleição – ilegal para o governo central espanhol – foi um sonoro sim (embora sem participação contundente da população com cerca de 60% de abstenção). Houve muita repressão policial por parte do governo de Madri o que acabou culminando em uma espiral de acontecimentos que inauguraram um novo ciclo na Espanha, revisitando temas históricos e jogando para o futuro um cenário ainda incerto e ao mesmo tempo pessimista.

O discurso do rei não foge ao protocolo e pede unidade para a Espanha. Não chega a convencer nem os asturianos que estão no bar e muito menos os catalães, bascos ou galegos que fazem parte dos diversos povos que compõem o caldeirão étnico do estado espanhol. Mas a fala do rei ativa o debate em torno da polarização: “Os catalães querem se separar, mas não querem perder o passaporte espanhol”, brada em tom raivoso a dona do restaurante. De acordo com pesquisas, de maneira geral a população espanhola é contrária à independência da Catalunha. “Eu acho que o plebiscito é ilegal. Imagina se os bascos pensam o mesmo”, comenta a senhora que parou de jogar e teme a separação da Espanha. “Só acho que a violência foi exagerada”, afirma, comentando a truculenta ação da polícia no dia do plebiscito e que ocasionou alguns feridos e mais ânimos à flor da pele, seja a favor ou contra a independência dentro da Catalunha. Desde então, muitas manifestações nas ruas da cidade, empresas saindo da região e principalmente muita falta de diálogo entre as lideranças do governo de Madri e Catalunha construíram um cenário de embate contínuo. Acrescente a tudo isso uma série de novas forças políticas e terá uma radiografia da Espanha atual, um país que vivencia uma multitude de ideologias que misturam, no mesmo tempo e espaço, questões étnicas seculares, novas forças políticas pós 15-M (movimento dos indignados de 2011) e rescaldos da guerra civil espanhola da época da II República espanhola (1931-9).

Uma análise rápida da situação vista pela imprensa espanhola sugere uma questão puramente independentista, mas engana-se quem pensa que é só uma questão de separatismo ou secessão. Esse caldeirão complexo é também um jogo de xadrez político do republicanismo contra o monarquismo e ainda envolve questões econômicas da própria Catalunha, que detém grande força dentro do PIB nacional. O então governador da Generalitat, Carles Puigdemont, chegou a proclamar a “república catalã como um Estado independente, soberano, democrático e social”. Com isso, sofreu a repressão forte do Estado espanhol. Seu governo foi destituído e o Parlamento dissolvido, com nova data para as eleições. O governo de Mariano Rajoy, do conservador Partido Popular (PP), se utilizou do artigo constitucional 155 e, com o apoio da maioria do Parlamento nacional, interviu na Catalunha com força. Além da destituição do governo local, vai assumir o comando das forças policiais locais e controlar a Fazenda. Também tem poder e deve destituir diretores da TV catalunha. Muitos especialistas e juristas argumentam que a medida é exagerada e que trata-se de um golpe contra uma autonomia local, uma vez que também fere artigos constitucionais e questiona a intervenção direta no Parlamento. E de fato tudo leva a crer que o seja, uma vez que o mesmo ocorreu na Catalunha e no País Basco nas mãos do ditador Francisco Franco em 1936, que, após vencer a guerra civil, bombardeou Gernika no País Basco com a ajuda dos nazistas de Hitler e instituiu décadas de repressão para as duas autonomias, retirando direitos civis da sua população e minando o ensino do euskera, no caso da autonomina basca e do catalão na Catalunha. Os tempos são outros, mas a repressão continua.

Foi justamente durante a ditadura de Franco que o País Basco viu nascer o grupo separatista ETA – hoje com cessar-fogo definitivo e que tem se articulado para se tornar uma força política democrática espelhando o modelo das Farc na Colômbia. Embora grande parte da população basca também veja com olhos cautelosos a questão da independência da Catalunha, o apoio existe, principalmente quando o governo central de Rajoy imputa tamanha repressão. “Mariano Rajoy é um fascista e já acho que é o novo Franco”, afirma Benito Eulalio, basco e preso político por oito anos nas mãos do general Franco. Esse é um temor que assola a Espanha atualmente, e boa parte dessa desesperança vem da inabilidade política em resolver os conflitos da região, que podem gerar núcleos de resistência frente à opressão, inclusive armados. O fato que reforça isso é que os cidadãos da Catalunha começam a ser estigmatizados dentro da própria Espanha e pelos próprios espanhóis, como relata Raul, morador de Barcelona: “Eu não estou a favor nem contra a independência. Não se trata disso; trata-se de ter opiniões e debatê-las, e hoje tenho receio de dizer que sou catalão e ser rotulado. As pessoas acham que tenho que estar de um lado ou outro”, afirma em tom de confissão enquanto peregrina pelo caminho de Santigo rumo a Compostela.

Diferentemente do destino de Raul que deve chegar em Santiago de Compostela, a instabilidade política, o pouco diálogo e o uso da força imputam uma nova realidade e jogam trevas sobre a democracia espanhola. A onda de conservadorismo e autoritarismo que o muundo vive, como a eleição de Trump nos EUA ou o golpe parlamentar no Brasil, tem suas vertentes também na Espanha. Entretanto, é dessa mesma crise institucional que pode surgir uma nova realidade e um caminho pode ser aberto. A Catalunha pode, hoje, não conseguir sua independência local, mas certamente está abrindo caminhos dentro e fora de Barcelona para o debate democrático e corajoso do seu povo em busca do seu próprio destino.

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