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Bons Ventos Voltam a Soprar no Leste

Como o trabalho de equipe feito por diferentes movimentos sociais está formando um polo de mobilização e transformação em um dos bairros mais emblemáticos da Zona Leste paulistana.

por IVAN ZUMALDE

Todos sabem onde é o campo mais famoso de Itaquera e qual a equipe que joga no estádio. Mas há um outro jogo acontecendo nas ruas, praças e centros espalhados pelo bairro onde novos times de mobilizadores sociais estão ganhando protagonismo e pontos com os moradores do região. Juntas, as equipes vestem e suam a camisa para lutar por mais justiça social. São coletivos, movimentos e organizações sociais que, cada um com sua tática, estão ajudando a resgatar a tradição de Itaquera na liderança de mobilização na Zona Leste. Sabem da responsabilidade em honrar a camisa do distrito que tem longa tradição em lutas sociais. Foi aqui que muitas das comunidades eclesiais de base se formaram na época da ditadura, além de ser palco de importantes lutas por moradia, saúde e educação. O bairro sempre foi um polo de mobilização e amparo social, mas nas últimas décadas esse movimento havia ficado adormecido. Isso mudou nos últimos anos, e agora o movimento volta com força de um líder que desperta. Conheça a multifacetada Itaquera de hoje e a mobilização que vai transformar o território nos próximos anos.

Ventos de propostas

É domingo de uma manhã ensolarada de setembro, e um grupo de integrantes do movimento Raiz Cidadanista se prepara para fazer sua primeira consulta pública com os moradores do bairro. A ação é realizada perto da feira livre dominical e faz parte do projeto do movimento para criar um plano de bairro para a região de Itaquera.  “Achávamos que ninguém iria querer responder o questionário, mas quando as pessoas viam os cartazes e ouviam nossa proposta, se prontificavam a participar. Ficou claro que é urgente colocarmos em prática mecanismos de participação da comunidade na construção das políticas públicas para o bairro”, ressalta Valdir da Silva Oliveira, um dos fundadores do círculo cidadanista de Itaquera, uma unidade local da Raiz fundada este ano no bairro. “O Círculo de Itaquera tem a pretensão de ser um espaço de participação e construção coletiva de propostas para a melhoria da qualidade de vida dos itaquerenses”, salienta Valdir, que já dispõe de dados e demandas locais para começar a formular o plano que, em sua segunda fase, será construído com a participação de outros coletivos e organizações do bairro que serão convidados a participar da formulação conjunta do projeto. “Toda nossa ação está articulada às proposições do Fórum Agenda 21 da Região Macroleste, na qual os prefeitos regionais se comprometeram, por meio de assinatura de uma carta, a construir o plano de bairro em consonância com os princípios da Agenda 21 e das ODS (Objetivos do Desenvolvimento Sustentável) 2030”, afirma Kida Sanches, integrante fundadora do grupo juntamente com Eduardo Cesar Santos e Ivan Zumalde. A iniciativa do círculo de Itaquera também foi compartilhada com a DGD (Departamento de Gestão Descentralizada) e soma-se a outras iniciativas como outro plano de bairro que está sendo desenvolvido na região de São Miguel Paulista, bairro vizinho. Lá, a população está formulando, com a Fundação Tite Setubal, um plano para o Jardim Lapenna. Ao final, as ações fortalecem a região e servem de experiências para outros bairros. “Esse instrumento vai nos permitir mobilizar a comunidade para discutirmos nosso bairro e construírmos propostas de melhoria da qualidade de vida da comunidade”, finaliza Valdir.

Ventos de formação

Formado em 2010, o IPDM (Igreja Povo de Deus em Movimento) é um grupo fundado por seis padres que surgiu para resgatar a vocação de uma Igreja comprometida com mais justiça social e próxima dos pobres. O grupo, que contou com a assessoria de dom Angélico em sua concepção, busca romper o silêncio dentro das comunidades católicas do Brasil e encontrou terreno fértil em Itaquera, onde o padre Paulo Bezerra lidera uma igreja menos conservadora e mais alinhada com os ideais do papa Francisco. O movimento ganhou força e se articulou nos últimos anos devido aos retrocessos sociais vistos – sejam eles na capital ou no Brasil – e também ao poder de jovens que mobilizam a comunidade local buscando uma “Igreja em saída”, como relata um dos coordenadores do IPDM, Eduardo Brasileiro. “A estratégia se dá por dialogar e sair da bolha de alienação presente nos discursos religiosos hoje e retomar a caminhada da Igreja sobretudo para com os mais pobres, ouvindo os movimentos sociais populares.” A estratégia do IPDM é clara e tem surtido efeito. Primeiramente, traz pautas para o debate junto com as comunidades e depois busca se articular com os movimentos sociais locais. “Será deles que construiremos um Brasil melhor. Serão eles que dirão como resolver a crise e que irão propor reformas estruturais contra a desigualdade continental que temos”, afirma Eduardo. Uma segunda forma de atuação do IPDM está na conquista de mentes e corações das pessoas, promovendo uma consciência mais libertadora. “Queremos disputar espiritualidades libertadoras, onde não somos engolidos pela alienação do consumismo”, afirma Eduardo.

Para isso, o grupo está prestes a lançar sua primeira cartilha de formação, na qual trará conteúdos para estimular encontros nas vilas e comunidades visando provocar pessoas decididas a retomar o trabalho de base. “Ao lançar sua cartilha, o IPDM inicia uma segunda etapa da sua caminhada. Deixa de ser “inspiração e aspiração” e ousa assumir os passos seguintes: uma “provocação” resultante da “mística” proposta por Jesus de Nazaré, crucificado e ressuscitado”, profetiza o padre Paulo, que, consciente da atual conjuntura sociopolítica nacional, acredita na transformação vinda pela consciência e pela ação do IPDM com a população. “Estamos quase submersos numa crise econômica e socioambiental, cultural e religiosa. O IPDM, no entanto, provoca a inércia pastoral”, finaliza o padre.

Ventos de resistência

Para completar o tripé dos bons ventos que trazem esperança para a poulação da Zona Leste, um vento mais forte bate na janela dos itaquerenses: o vento formado pela resistência das ruas. Se por um lado a Raiz propõe um plano de bairro e o IPDM forma a consciência da comunidade, nada se faz sem luta. E aqui entram diversos movimentos, como o Bairro Sem Medo, formado em Itaquera, ou ainda o Panelas Populares, que se organiza na região da Praça Brasil, na Cohab II – José Bonifácio. O território de luta da praça também acolhe a emblemática Okupação Cultural Coragem, importante motor de resistência cultural periférica do bairro. Cada um com seu jeito, formam a barreira da luta na região.

Um dos movimentos que conseguiu grandes mobilizações e atos ultimamente foi o Bairro Sem Medo de Itaquera. O grupo faz parte da Frente Povo Sem Medo, ligado ao Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e que tem histórico de lutas na região com a Ocupação Copa do Povo na época da Copa do Mundo de 2014 – hoje as famílias aguardam a construção das moradias no local. O Bairro Sem Medo foi formado em abril desse ano, mas já conseguiu realizar atos importantes frente à intenção do governo do prefeito Doria de privatizar o Parque do Carmo, o segundo maior parque urbano da cidade e refúgio de mata atlântica e de lazer para a população do bairro e da Zona Leste. O parque, independente da opção da privatização, é um bem local público e merece atenção e debate aprofundado sobre seu futuro, o que deve ser feito pela iniciativa da Prefeitura, mas com a participação da comunidade local. “A gente já fez uma série de atividades, desde panfletagens no próprio parque até coleta de assinaturas que propõe um plebiscito. Fizemos um ato no próprio Parque do Carmo no dia da Festa das Cerejeiras e, além disso, fizemos uma ocupação da Prefeitura Regional de Itaquera, que tinha como objetivo alertar sobre como essa discussão não está sendo feita no bairro”, afirma Josué Rocha, 28 anos, médico e coordenador do grupo em Itaquera. A organização tem como objetivo estimular moradores na região que queiram atuar em ações locais e estimular uma relação de pertencimento com o local, que já teve um histórico de mais empoderamento. “A região vivenciou um processo de lutas comunitárias pela saúde, por creche, o que foi muito importante. Essa memória precisa ser retomada, e acho que o Bairro Sem Medo pode cumprir muito bem esse papel de organização”, finaliza Josué.

Outra iniciativa recente na região é o Panelas Populares, “um terreiro de afetividade e diálogo em torno da construção de um projeto político com a cara da periferia”, defende Jesus dos Santos, 33 anos, e um dos coordenadores do projeto que quer promover cozinhas comunitárias nas ruas e estimulando debates sobre a realidade da política nacional. A inspiração veio da Argentina atual e do Chile da época pré-golpe de Pinochet, mas a versão brasileira tem um tempero mais eclético e uma proposta mais periférica. “Temos quatro eixos temáticos – raça, gênero, sociedade e território” e uma formação mais heterogênea. Conta com sindicalistas, pessoas vindas de ligas anarquistas e também grupos que formam a “marcha pela consciência negra” e frentes como “São Paulo não está à venda”. “A ideia é que a gente possa começar a produzir a partir de outros olhares e referências”, finaliza Jesus.

Ainda não é possível prever para onde os ventos levarão Itaquera e região, mas não há dúvidas que existe algo novo no ar e que o futuro dessa região habitada inicialmente por índios terá um novo rumo. Dias onde não apenas interferências urbanas feitas por cimento e ferro darão o tom do local, mas um destino idealizado e construído com a participação de seus moradores. Um vento e uma ventania que levem – e não façam voltar – a um lugar com justiça social para seu povo.

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