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As verdades e as mentiras quando o assunto é fake news

Notícias falsas são tão antigas quanto a imprensa. O que está por trás do uso do termo fake news pode ser, em realidade, a manipulação da opinião feita pela própria mídia

Por FABIO ST RIOS

Quase que em tom de histeria, de uma hora para outra o mundo parece ter descoberto que existem notícias falsas e, o mais interessante, sob um novo nome, “Fake News”. Com o mesmo ímpeto moralizante das “grandes guerras” contra alguma coisa, em que os americanos empreenderam no mundo, como a guerra às drogas e a guerra ao terror, agora, temos a guerra ao fake news. Eleito o inimigo comum, internamente, os EUA encontram uma fórmula mágica para manter a unicidade, já que o pensamento do antagônico é a única maneira de manter sua sociedade unida. Se por lá a tal “Fake News” tem cara de russo e cheiro de “macartismo”, por aqui segue a mesma toada, o discurso anacrônico de uma guerra maniqueísta do bem contra o mal. Desde o invento da prensa de Gutenberg, existe notícia falsa, ou tendenciosa.

O que separa o fenômeno digital fake news das tradicionais mentiras em jornais e livros não é a falta com a lisura ou verdade, mas o grau de popularização da prensa. Enquanto se mantinha na mão de poucos, quase não se falava nas manipulações grosseiras, como a edição do debate entre Lula e Collor, ou mesmo os sequestradores do empresário Abílio Diniz portando material de campanha do PT, na eleição de 1989.Não soa estranho que somente veículos digitais
e de baixo custo de desenvolvimento, como blogs e páginas de redes sociais, sejam classificados como geradores das tais fake news? O que estaria na raiz da histeria seria a descentralização da geração de conteúdo de massa. Até pouco tempo, antes da popularização da internet, apenas algumas famílias dominavam o broadcast de notícias e formação de opinião. A internet, com as redes sociais e os blogs, abriu a janela que fez a luz entrar, e qualquer cidadão pode gerar conteúdo lido, no mínimo, por mil pessoas que compõem o seu círculo de influência. Portanto, foi a popularização da prensa de Gutenberg que gerou a histeria.

Do ponto de vista dos jornalões, é preciso desclassificar as opiniões, os textos e as informações fora dos círculos “oficiais” do jornalismo. O que serve aos comuns, serve aos veículos como jornais, revistas e outros de
porte menor que os jornalões e as TVs. Busca-se, portanto, reconstruir a ideia de que um fato só existe caso seja publicado na Folha, filmado no Jornal Nacional, ou publicado em qualquer veículo permitido pela oligarquia da informação. Não seria estranho que as agências de checagem jamais tenham analisado as manipulações dos jornais tradicionais? Por óbvio, questionar a classificação de fake news e a quem serve não significa não reconhecer fenômenos como o MBL, classificado como uma distorção do uso abusivo dessa liberdade por entidades que buscam fraudar processos eleitorais e de opinião, como a Cambridge Analytica. Seria, então, uma forma de questionar a quem servem as tais fake news e a quem serve a desclassificação das opiniões fora dos jornalões. Certamente, na sociedade do escândalo, a prevalência das informações se dá em episódios explosivos, e não na continuidade analítica. É nesse fenômeno da superficialidade dos discursos e na “desintelectualização” da sociedade que tais histerias se formam e as notícias falsas, que muitas vezes beiram o ridículo, ganham corpo e se propagam. Na raiz desse fenômeno e a quem serve está o histórico déficit educacional e a opção por uma formação tecnicista, em detrimento da pedagogia crítica, defendida por Paulo Freire. Não por acaso, o MBL defende uma anomalia chamada “Escola Sem Partido”, com uma lei-padrão que pode ser baixada, impressa e apresentada por vereadores em qualquer município do país.

Ou seja, se o Brasil tivesse dado o passo definitivo em direção a uma educação verdadeiramente democrática, as fake news não seriam problema, mas também, a mídia não se tornaria o partido político que se tornou, a influência da aristocracia econômica seria ínfima e a consciência do exercício da cidadania seria plena. Portanto, mais que um fenômeno editorial, as fake news são um caso educacionalmente de intelectualização da sociedade e de libertação dos povos, já que serve aos mesmos grilhões da escravidão moderna.

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