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Aprendendo a renovar a política

Uma reflexão a partir das eleições mexicanas

Por CAIO TENDOLINI

No dia 1 de julho de 2018 os mexicanos foram às urnas para escolher seus representantes para o Legislativo e o Executivo em âmbito local e federal. Você provavelmente ficou sabendo que Andrés Manuel Lopez Obrador foi eleito Presidente do México, num resultado histórico que tem, em suas potências e riscos, similaridades com a eleição de Lula em 2002.

Este artigo é para contar uma história que você não escutou – a de um grupo político independente chamado WikiPolítica.

O WikiPolítica (WP) surgiu a partir das manifestações #YoSoy132 em 2013, que emergiram nas universidades para protestar contra a candidatura de Enrique Peña Nieto à presidência. Peña Nieto é do Partido Revolucionário Institucional (PRI), que governou o México ininterruptamente por mais de 70 anos, no que os mexicanos chamam de “a ditadura perfeita” – um período democrático no qual o mesmo partido ganhou todas as eleições.

Ali, o coletivo ainda se chamava de WikiPartido e tinha o objetivo de formalizar-se como partido político para conseguir disputar as eleições. Em 2014, o jogo mudou. O próprio Peña Nieto, pressionado por diversos grupos que pediam mudanças que deixassem o jogo mais justo, aprovou uma reforma política que permitia candidaturas independentes – candidaturas de pessoas que não estivessem filiadas a partidos políticos (algo ainda proibido no Brasil).

Nesse momento, o WikiPartido virou WikiPolítica. A estratégia que tinham era clara: percorrer o processo que aprovaria candidaturas independentes para disputar nas eleições de 2015 e conseguir dar visibilidade, estrutura e poder a esse projeto político.

Em Jalisco, o jovem Pedro Kumamoto, de apenas 23 anos, foi o nome selecionado pelo coletivo para ser o candidato que representasse o projeto nas urnas. Pedro, um jovem de classe média, gestor cultural, tinha alguma experiência política em centro acadêmico e alguns movimentos ativistas.

Para coletar as cerca de 8 mil assinaturas necessárias para validar a candidatura independente, o WP penou. Quase não tinham dinheiro, mas contavam com um pequeno grupo de pessoas altamente engajadas e um discurso potente e inspirador. “A política foi sequestrada de nós e está cercada de muros”, diziam algumas peças de comunicação, “mas esses muros vão cair.”

E os muros caíram. Com quase 70 mil votos, numa campanha inovadora que custou menos de 70% das demais campanhas locais, Kuma foi eleito o primeiro deputado distrital independente do México, pelo estado de Jalisco.

Em três anos de mandato, contrariando a lógica que diz que um candidato independente não seria capaz de fazer nada uma vez eleito, Kuma e o WP conseguiram acabar com o foro privilegiado em Jalisco, mudaram a forma de distribuir fundos públicos aos partidos, assim como aprovar leis que dizem respeito a imigração e meio ambiente. O WP deixou de ser somente uma potência eleitoral e tornou-se uma potência política.

Em 2017, fui a Jalisco ao festival La Ocupación, promovido pelo WP para conectar seus mais de 12 núcleos locais que se formaram desde então, e pude presenciar o lançamento de uma campanha altamente ambiciosa. Kumamoto se lançava ao Senado mexicano e outros 15 integrantes do movimento a deputados estaduais e federais.

Para ter sucesso, precisariam somar cerca de 1,5 milhão de votos nos diferentes territórios onde iriam disputar. De partida, precisaram coletar cerca de 200 mil assinaturas entre os candidatos postulantes para validar as candidaturas independentes. Só Kumamoto precisava de 150 mil para disputar o Senado.

Conseguiram. Voltei a Jalisco em março deste ano pra acompanhar o início do período eleitoral e fiquei surpreendido com o que vi. Eram mais de 50 pessoas contratadas na estrutura centralizada de campanha, além de centenas de voluntários. O nível de organização era surpreendente, com cada um sabendo seu papel, tendo clareza de suas métricas e trabalhando dia e noite para alcançar o objetivo coletivo que havia sido traçado.

Estive como observador em uma atividade de rua, onde senti algo inédito: pessoas indignadas com a política, cansadas dos vícios dos partidos políticos, paravam seus carros para dar oi, para fortalecer, para pedir um adesivo e perguntar como podiam ajudar. Pessoas com tesão por política e inspiradas por um projeto que conseguia apresentar, na ética e na estética, uma outra política.

Voltei ao Brasil com a certeza de que aquele grupo já era vitorioso e inspirado para dar sequência aos trabalhos aqui no Instituto Update, na Bancada Ativista e no #OcupaPolítica.

No dia 2 de julho, que por acaso é meu aniversário, acordei pronto para celebrar por diversas razões: por mais um ano de vida, cercado de pessoas incríveis que dedicam sua vida para construir uma sociedade menos desigual e uma política mais acessível; porque o Brasil ia bem na Copa; e porque o WikiPolítica ia celebrar uma vitória mais do que justa.

Eles perderam. Tudo. Nenhum dos 17 candidatos que disputaram em mais de 12 cidades distintas foi eleito. Entender o porque é aprender sobre como renovar a política.

Primeiro, as regras do jogo. No México, o voto é distrital para o Legislativo, então só entra o candidato que ficou em primeiro lugar no distrito. Mas podem haver coligações, que somam votos para definir o mais bem colocado. O Kuma teve cerca de 800 mil votos, sendo o candidato mais votado para o Senado em Jalisco. Entretanto, sendo candidato independente, pela lei não podia se coligar e acabou ficando em terceiro lugar. O mesmo ocorreu com a maior parte dos candidatos do WP – todos ficaram em segundo ou terceiro lugar.

Segundo, as estruturas de poder. O acesso dos partidos a recursos públicos foi muito superior ao que as candidaturas independentes tiveram, dando uma vantagem concreta para candidatos partidários realizarem campanhas milionárias.

Terceiro, campanhas sujas. A campanha do WP pregava o jogo limpo: não disseminar fake news, não comprar votos, não fazer boca de urna etc. Os concorrentes, na ausência de fiscalização e punição concreta pela justiça eleitoral, abusaram desses recursos.

Mas a responsabilidade também foi do WP. Eles menosprezaram a onda AMLO (sigla do presidenciável vitorioso), que foi avassaladora tanto em âmbito federal quanto local. Menosprezaram a ponto de evitar diálogo e às vezes até chegar a antagonizar. Foram extremamente ambiciosos: quiseram dar um salto de 60 mil votos para 1,5 milhão, um crescimento de mais de 20 vezes em apenas três anos. Caso Kuma tivesse saído para o congresso local em Jalisco, a história poderia ter sido diferente.

Por fim, o WP concentrou toda a sua narrativa em antagonizar com os partidos políticos como grandes responsáveis pela falência da sociedade mexicana, dialogando fortemente com a indignação dos cidadãos, mas criando inimizades poderosas no jogo político.  

Ao fim das eleições, o WP reconheceu a derrota e demonstrou clareza de que essa jornada está apenas em seu início. Vão seguir fazendo política, dentro e fora das instituições, e reforçaram que esse projeto político foi vitorioso em ampliar seu diálogo com a sociedade de forma exponencial.

O WP vai ter que reajustar sua estratégia para se manter vivo e potente até o próximo ciclo eleitoral, daqui a três anos. Mas sua experiência é extremamente rica para todos nós que estamos buscando a construção de uma outra forma de fazer política, que desafia as estruturas de poder e muda o quem, o como e o para quê ocupar espaços de poder.

*

Tem crescido o uso do termo renovação política como uma solução para a crise política que estamos vivendo no Brasil. O conceito – que está em disputa e, dependendo dos rumos pode rapidamente cair em descrença no imaginário da população – implica que mudar a política do nosso país tem a ver com mudar quem ocupa os espaços de poder. A ideia de mudança tende a emergir durante períodos eleitorais como uma forma de dar visibilidade a outros nomes e grupos políticos, dado que é fácil apelar para o que não está funcionando ou o que pode melhorar.

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