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Aprenda com o Teko Porã

Teko Porã, o sistema milenar de equilíbrio dos índios

Por Cristine Takuá

O atual modelo de sociedade em que estamos inseridos nos faz esquecer de quem realmente somos, não deixando olhar para o fundo de nossa essência, para conseguir atravessar as barreiras do desconhecido. Junto a isso a imensa fonte de informações na qual estamos mergulhados, os maus hábitos alimentares, o egoísmo, o desamor e a falta de bom senso estão nos conduzindo para uma vida insana.

Sabemos que atualmente vivemos uma emergente e complexa crise social, política e ambiental, a qual nos leva a questionar e a repensar o ser e o saber, resultando numa conscientização de que temos que reaprender a pensar e agir no mundo. No entanto, os seres humanos, numa incessante busca de compreensão, dominação, ordenação e controle sobre o meio e sobre si mesmo, acabou por desestruturar a natureza e acelerar o seu desequilíbrio.

De um modo geral, a civilização ocidental está percebendo que uma quantidade de pressupostos que a sustentaram por muito tempo está levando a uma situação totalmente insustentável da sobrevivência da espécie, notadamente no que diz respeito às condições ambientais. Uma das principais coisas que as sociedades indígenas têm e que as tornam seu pensamento valioso é justamente outra maneira de conceber a relação entre a sociedade e a natureza, entre os humanos e os não-humanos, uma outra forma de conceber a relação entre a humanidade e o restante do cosmos. A existência de um equilíbrio, onde todos os seres interagem e se respeitam, não só os mais velhos, os anciãos e pajés, mas todos; até os jovens e crianças.

Para os povos indígenas, a natureza é quem dá sentido a vida. Tudo em seu equilíbrio. Como uma imensa teia, na qual tudo está interligado, um organismo vivo. O seu poder está em nos direcionar, nos mostrar o caminho de luz a trilhar em busca de sabedoria. Cada sinal que recebemos tem um significado para nossa vida. O canto de um pássaro pode indicar algo, os trovões que passam são sinal de que algo está pra acontecer, as formigas no meio do caminho, as formas das nuvens, a direção do vento, enfim, muitos presságios nos são transmitidos pelos sinais da natureza, que com sua delicadeza e sabedoria vão nos guiando e nos ensinando como bem viver, que em guarani se fala Teko Porã, um conceito filosófico, político, social e espiritual que expressa exatamente essa grande teia, onde vivemos em equilíbrio, respeito e harmonia; é a representação da boa maneira de ser e de viver.

Porém, toda essa complexa crise de relações que os humanos hoje estão vivendo nada mais é do que reflexos de séculos de uma caminhada mal feita, pois antes quase todos viviam na natureza, com a natureza e da natureza. E hoje, as pessoas se desinseriram do meio, usam e abusam da natureza para sobreviver. Sem pensar que fazemos parte dessa imensa teia, que não deve e não pode ser separada.

Para o povo Guarani, não há Tekó se não tiver Tekoá; ou seja, não tem modo de ser sem o lugar do ser. Sendo assim, é preciso ter terra, com floresta, com água e com toda a sua vida incluída para poder viver sua cultura e para ser Guarani.

Vivenciar o sentido pleno do Bem Viver nos dias de hoje pode muitas vezes parecer algo contraditório, devido a diversas situações que nos afastam dele, e nos levam para o “Tekó Vai”, o Mal Viver, que está presente no consumo desenfreado e na esquisita mania de servidão voluntária onde muitos vivem escravos de seus quereres, está presente nas guerras, no individualismo, na poluição dos rios, no empobrecimento, na depressão, enfim em diversas situações que colocam o ser humano numa incessante busca de Viver Melhor, na ilusão de que os bens materiais, o conforto, o luxo irão lhe trazer a delicada e profunda satisfação da experiência que penetra no próprio ser e no estar quando se alcança o Bem Viver nas ações diárias da Vida.

Mas é possível aplicar esse sistema, esse hábito indígena do Bem Viver nas cidades, justamente como pressuposto para revolucionar, metamorfosear as relações, a própria democracia que está despedaçada em meio a tantos abusos e egocentrismos. Através desse amplo conceito, uma vez praticado, podemos equilibrar todo o caótico cenário de violências, poluição, intolerância religiosa que pairam sobre as cidades.

Os povos indígenas, de um modo geral, resistem há séculos contra os mais diversos abusos e agressões cometidos contra eles, contra suas culturas, mas, mesmo assim, ainda hoje praticam o respeito, a tolerância, a igualdade, a participação política, a paciência com os mais velhos e com as crianças, enfim, praticam o Bem Viver em suas múltiplas faces.

Porém, penso que ainda há tempo, de reconstruirmos e de nos harmonizarmos. Há alguns caminhos, como as práticas educativas do Tekó Porã. Mas as sociedades urbanas devem repensar as formas de educar suas crianças. Valorizando o potencial que jaz dentro de cada uma, e principalmente fazendo uma escola que seja útil para a vida das pessoas. Ouço muitos dizerem que a escola serve para nos tornar alguém na vida, muito pelo contrário, já somos alguém na vida, temos que usar das ferramentas escolares para nos tornarmos guerreiros. Guerreiros esses que possam compreender o complexo sentido do Bem Viver e transformar o mundo à sua volta.

Penso que assim como os grãos, as pessoas precisam conhecer sua origem, a fala que habita em cada semente. Todo ser que consegue escutar a voz do silêncio ouve as suas verdades. Há uma ponte existente entre o conhecimento visível, letrado, e o saber que habita nas profundidades dos cantos, danças, trançados e em toda a complexidade da arte e espiritualidade dos povos nativos. Porém é necessário romper as barreiras da aparência, sempre penso nisso. Porque enquanto alguns ficarem se baseando e presos ao não ser das coisas (aparência), jamais chegarão à dimensão maior do verdadeiro conhecimento, da sabedoria dos que sabem e conseguem sentir sua própria sombra!

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