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Altar dos esquecidos

Conheça o padre Paulo de Itaquera e as pedras de preconceitos que ele está quebrando há 34 anos na Paróquia do Carmo

Por Ivan Zumalde

Padre, o senhor já convidou para o altar pessoas para discursar que geraram forte reação e polêmica. Os fiéis são conservadores?

A comunidade é tranquila. Acontece que existem alguns grupos conservadores fora de Itaquera que ficam incomodados com certos temas que abordamos, como por exemplo, a sexualidade. Isso ocorreu depois que colocamos todas as nossas atividades e comunicados em redes sociais e esses grupos mais conservadores reagiram. A Marilena Chauí veio em certa ocasião e disseram que ela era comunista, uma mulher que é contra a Igreja. Até montagem fotográfica com fundo de guerra fizeram. Em outra ocasião, convidei uma drag queen da própria comunidade e questionaram por que eu a deixei erguer o cálice. Esses grupos prepararam um documento e enviaram para Nunciatura Apostólica em Brasília argumentando que eu não poderia ter feito isso. Outra que pegaram no pé foi a teóloga Ivone Gebara – teóloga feminista que foi censurada pelo papa João Paulo II, e ficou exilada na Bélgica por dois anos. Ela veio aqui falar em uma de nossas novenas e, claro, colocamos convite nas redes sociais e a reação ocorreu: “Ela é contra o papa, contra o bispo, contra a Igreja, exigimos que essa mulher seja impedida de ir à igreja desse padre comunista.” O bispo de São Miguel me chamou para prestar esclarecimento e eu informei que ela nem havia vindo ainda. Resumindo: eu não cancelei o evento, ela veio e fui censurado pelo clero depois. Outro foi o Leonardo Boff, que veio aqui e me mandaram tirar a legenda que fazia associação com a comunidade. E por último foi o padre excomungado que chamei. Eu sei que minha pasta em Brasília está transbordando, mas a comunidade nunca reclamou. A paróquia vai seguir investindo na formação do povo, pois isso é muito importante.

Como é ser padre na periferia de São Paulo? Quais são os principais desafios que o senhor encontra hoje aqui na paróquia de Itaquera?

Como falava anteriormente, o desafio atual na paróquia e na periferia é retomar uma caminhada de educação popular e formação das bases a partir de uma teologia engajada, a partir de uma fé comprometida. Esse desafio bate em outros desafios maiores, como, por exemplo, essa onda de privatização da fé que vem tanto da vertente pentecostal-evangélica quanto da linha católica-carismática. Na religião que vejo hoje, as pessoas buscam resultados imediatos. É só você ligar a televisão e ver os cultos de madrugada, de dia, de tarde, tanto nas neopentecostais como na Canção Nova. Para enfrentarmos esse desafio de formação e levar o povo a uma fé mais engajada, você tem que enfrentar esses grandes meios de comunicação. Acho que esse é o foco: a disputa pelo pensamento do povo.

Na sua visão, o que o povo vem buscar na paróquia de Itaquera? Quais tipos de questionamentos as pessoas trazem ?

São sete comunidades agregadas a Itaquera e acho que as pessoas vêm com sede da palavra de Deus, com a vontade de buscar uma mudança. Como eles não encontram aqui na paróquia respostas espirituais superficiais como nos cultos de cura e libertação, eles vêm pelo tipo de pregação que oferecemos, mais engajada. Sobre os questionamentos que eles trazem, creio que estão relacionados à precariedade da vida, como o papa Francisco já falou, que é algo profundo e que atinge toda a humanidade.

É consenso que a Igreja entrou em uma nova fase com o papa Francisco. Quais serão os legados de seu papado?

O papa Francisco é um dos maiores líderes políticos do mundo atualmente. E ele definiu muito bem o que ele quer. Ele sabe o que quer, não está preocupado com verdades eternas; a preocupação dele é com o processo de vivência da fé, o processo de empoderamento das pessoas, literalmente. E quais pessoas hoje estão mais interessadas em desencadear processos do que em buscar resultados imediatos e ganhos fáceis? Constantemente esse papa colocou a Igreja nesse processo. Qual será o legado desse movimento eu não sei, mas acho que ele está preparando isso hoje. Por exemplo, ele nomeou uma comissão para estudar o diaconato feminino. Esse papa é articulador e por isso deve permanecer mais tempo, não exatamente no poder, mas justamente por desencadear esses processos para o futuro. Ele já afirmou que o tempo é maior que o espaço.

Como fazer o povo se organizar e se mobilizar por seus direitos e qual o papel da fé nesse contexto?

A fé tem consequências políticas. No passado, nós tínhamos um movimento que se chamava “Fé & Política”. Fazíamos o trabalho de base, com lutas reivindicatórias que ajudavam as pessoas a se articular. Esses trabalhos de articulação do povo foram deixados de lado. E agora temos que retomar dentro daquilo que são os desafios do mundo atual. Hoje está tudo disponível e fácil na tela e as pessoas não se mobilizam. Curtem, mas não se mobilizam. Por isso eu acho que a rua é uma saída. Temos que dialogar com os movimentos pela saúde, pela habitação e junto com os movimentos dos estudantes. E seria fundamental que houvesse uma articulação da diocese nesse sentido. Para que você fosse a qualquer lugar da Zona Leste e esse tema fosse abordado. Mas eu penso que essa questão da mobilização ainda tem que ser descoberta, está em aberto.

Acredita que a população precisa acordar e despertar para algo?

A ditadura já tá aí, né! A ditadura do capital a serviço da comunicação e da política. Mas essa ditadura, esse poder econômico é tão inteligente e sacana que o povo não está percebendo, mesmo com toda a informação que está disponível. Por bem ou por mal, pode ser que as massas se levantem. As massas da periferia, as massas de trabalhadores, dos estudantes. O papa falou para os jovens: troquem o sofá pelo par de tênis. Acho que tem que sair da zona de conforto e ir para a luta. É um desafio nosso. Quando as pessoas participam, elas entendem melhor o outro lado, perdem o preconceito.  

Qual esperança o senhor vê daqui para frente?

Os valores passam pela educação e Paulo Freire já falava isso. Porque se você não tem uma cabeça virada para os valores humanos, você entra no jogo neoliberal e no discurso de que tem que privatizar porque funciona. Para quem funciona? Precisa perguntar! Você tem 100 mil que dizem que têm casa própria e tem 100 milhões que não têm. Desses 100 milhões, ninguém lutou? São todos vagabundos? Se tem 100 mil com plano de saúde e 100 milhões que não têm como pagar, existe algo errado, não faz sentido. Não é possível que esses excluídos sejam “sobrantes-vagabundos”. São “sobrantes-planejados”. Esse é nosso trabalho, fazer as pessoas abrirem os olhos e perceberem.

E a Igreja conseguiu fazer isso nesses últimos anos? Acredita que houve retrocesso?

Olha, o Evangelho é tão claro, e não sei como as pessoas conseguem descaracterizá-lo tanto. Tirar tudo. Às vezes escuto que Jesus deu um carro. Quem disse que Jesus é dono de concessionária? Mas é o que se prega. De fato a Igreja católica perdeu espaço e o que entrou foi uma grande alienação. Aproveito para compartilhar um episódio que aconteceu na semana passada. O evangelho contava sobre um leproso, o Naamã, que tinha que tomar banho 7 vezes para ficar purificado. Então ele recebeu a graça da cura e o Evangelho ensinava que o reino de Deus é para todos, inclusive os excluídos, como um leproso na época. Então, uma senhora, uma moça até, visitou um padre nosso da comunidade com um véu na cabeça e disse: padre, vá se banhar 7 vezes no rio Tietê, porque você tem que se limpar da sua desobediência à Igreja. É com esse pensamento que você se depara hoje. E onde eles vão beber dessa fé? Nos cultos carismáticos, onde a pessoa tem que obedecer, onde tudo é pecado, e os padres se colocam em uma figura divina. É uma alienação. Essas missas de cura e libertação são um desserviço ao cristianismo. Acho que andamos muito para trás nesses últimos 30 anos, com alienação, inclusive.

Como o tema sobre o governo atual é abordado? Acredita que as pessoas aqui na paróquia têm opinião sobre se foi ou não golpe?

A gente sempre traz isso na paróquia. É um tema que está entrando e acho que as pessoas percebem que é golpe mesmo. Agora, sobre a questão partidária, minha opinião é que precisamos de uma reforma. Não dá mais. Esses partidos não representam mais a gente. Tem que tomar outro tipo de representação política. O próprio PT não fez sua releitura e o PSOL tem uma nova força. Mas o descrédito nessa ferramenta que deveria causar o bem comum na verdade desencantou, como o sindicato desencantou também. É preciso outra maneira de representação. Se você tem um grupo organizado em um bairro, por que não pode oferecer esse movimento como uma alternativa de representação dentro da instituição?

Existe algum movimento político na zona leste promovido pela comunidade?

Sim, aqui na Paróquia do Carmo, temos o IDPM, Igreja Povo de Deus em Movimento e ocorre muita articulação, incluindo encontros e mobilizações principalmente com o jovem. Também existe uma escola de cidadania feita pelo padre Ticão em Ermelino Matarazzo. Não é possível ficar assim do jeito que está. Os próprios políticos prestaram um desserviço à política e por isso todo mundo está desacreditado. O povo deu a resposta agora. É importante dizer também que a reforma política que precisamos virá de uma conscientização política da população e voltamos àquele assunto de como mobilizar e encantar novamente e investir na formação da base. É preciso continuar lutando, meu irmão.

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