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A resistência por políticas comuns

A liberdade da cidade é, portanto, muito mais que um direito de acesso àquilo que já existe: é o direito de mudar a cidade mais de acordo com o desejo de nossos corações. (David Harvey)

Por Eduardo Brasileiro

O período em que vivemos pode ser reconhecido como o de transformações mais rápidas e líquidas de todos os tempos. Não por acaso a sua produção é incomensurável e os corpos políticos que estão inseridos dentro dela, podem ser incapazes de ver a centralidade do capital dentro da vida da juventude, da cidade e sua reação de resistência. A oposição fortemente mobilizada desse cenário, ocupando e tomando a cidade como morada, contradizendo o simples passar entre as coisas: escola, casa, trabalho e lazer. É falar de habitar/ser.

Avançar sobre essa política do todo que é comum diante de uma sociedade que foi setorizada em lutas é um desafio olímpico. O capital colonizou o meio ambiente, o corpo, a religião, a identidade e, por isso, é nosso dever lutar por concepções contra-hegemônicas dos direitos humanos, como afirma o sociólogo Boaventura Sousa Santos (2013).  Quais são nossas outras linguagens para os direitos humanos nos canais de resistência das periferias do capital? Isso é um arranjo a ser conectado por esforços de lutas e insistência no debate do direito de ocupar. Confronto que ultrapassa as ruas e não se resume aos que vão às ruas. Reside aí um embate ético-político, cultural-religioso-identitário que será vivido no Brasil na centralidade periférica. Por outro lado, só se forjará uma resistência a esse sistema que abarca a todos se avançarmos sobre o além das coisas que se vê, ou seja, sobre o que não se vê. A dificuldade por grande parte do povo sobre a realidade das coisas mais complexas e cheias de conexões, gera uma sociedade que apela por violência diante de uma violência. É a visão individualizada e embrulhada.

A energia de ocupar uma cidade passa por um desejo comum, o ser. E, é no comum, uma das ontológicas figuras do ser que focalizo a reflexão. As possibilidades de lutas pelo comum vêm sendo exaustivamente propostas pelas juventudes. Ao apontar em 2013 a disputa por transporte público com tarifa zero, ao lutar contra a Copa, as manifestações das mulheres por direitos, as marchas contra as grandes mineradoras, a organização dos povos indígenas e agora, nacionalmente forte, as ocupações das escolas, reafirmam a postura de lutas comuns. O comum está no que não se vê mais.

O filósofo italiano Antônio Negri (2014), não por acaso, apresentou teses sobre o triunfo desse sistema em nossas sociedades com a formulação de um sujeito endividado, mediatizado, securitizado e representado. Segundo o autor, o endividado é o cidadão empobrecido e despontecializado de sua subjetividade. Mediatizado pode ser todo aquele cuja consciência é incluída ou absorvida na internet, que dá bandeiras patrocinadas e consumos alienantes. O securitizado é o fenômeno do vigia sobre tudo que concerne a nossa vida, corpo e sociedade, como uma sociedade prisional. E por fim, o representado é o que reconhece o colapso das estruturas de representação, mas, incapaz de enxergar alternativas, é arremessado de volta ao medo.

O medo é explorado: a política institucional, mesmo que em crise de representação, se vê ainda surfando na bonança, por meio de sua manipulação popular. As suas garantias se dão ao criminalizar mais profundamente os movimentos populares, como o editorial do jornal Folha de S. Paulo que em 13 de junho de 2013 clamava por  “retomar as ruas”, isto é, tirar os manifestantes dela para que o fluxo “normal” dos carros motorizados e individuais retomasse a paisagem urbana. A criminalização da greve com o uso da lei antiterrorismo (2016) e a despolitização completa da informação gerando comentários bestiais diante de jovens que estão em luta. O que se vê é simplesmente a baderna potencializada por ideologias e a perda de sentidos e valores.

Os coletivos de resistência precisam, ao retomar o comum, buscar um princípio: desmoronar o desejo colonial de unidade a qualquer custo, que encobre diferenças na política, na Igreja, nos movimentos e organizações. Essa intuição perpassa sobre uma crítica aos limites da disputa pelo Estado realmente democrático. O Estado é uma instituição ocidental e sua gestão orienta historicamente a homogeneizar as políticas. É possível política participativa, protagonista, comunitária – para a conjunção de horizontes além da disputa eleitoral e partidária. Para assim, chegar à política do comum, que é onde se fortalece a participação nas decisões do que é público, – na política e na economia é preciso ir além e perceber que não é somente estatizar as coisas, mas torná-las comuns, seguindo as pistas da juventude que, ao “disputar” uma escola, quer debater o quanto os muros nos afastaram dela. Querem fazer da cidade uma casa realmente comum e ocupada por todas as pessoas.

Experimentar a política do comum é a resistência bela e apaixonante que muitos carregam  no Brasil, hoje. Reinventando as práticas cotidianas de como moldamos e habitamos a cidade, para além dos mapas fixos, mas a partir das “artes de fazer” (e resistir) – o que não se vê no desejos e sonhos de nossos corações.

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