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A periferia está perto

Conheça a primavera periférica que se aglutina nos extremos de São Paulo e entenda por que a próxima onda de transformação social virá dos rincões nada esquecidos da metrópole. A periferia está perto. Perto de conquistar seu território.

Por Ivan Zumalde

Fotos Di Campana

A periferia pede passagem. E não é de hoje. São vários coletivos, movimentos e personagens que fazem a Primavera Periférica bater mais forte de dentro para fora. É o processo final de um empoderamento de décadas que vem com força, cor e língua própria. Seja através da cultura ou do ativismo, os lados marginalizados por séculos juntaram forças das múltiplas e diversas regiões mais populosas da cidade e formaram um caldo social organizado que ganhou protagonismo e legitimidade. A maioria nunca se sentiu minoria e as valas do esquecimento estão com os dias contados. A periferia sempre existiu e agora vai ocupar a história e o território subtraído. A periferia é centro ontem, hoje e sempre. A periferia é nóis.

Bruno e a laje

O Sol forte não deixa sombras na laje de Bruno, 27 anos, morador do bairro do Capão Redondo, zona sul de São Paulo. É próximo do meio-dia de um domingo típico de verão e o terraço será o palco do encontro de um grupo de jovens que se prepara para se reunir em círculos e falar sobre a periferia. A paisagem do entorno é bem conhecida com seus morros, vielas e casas sem reboco, mas a imagem preconceituosa sobre a região precisa ser mudada e isso é o objetivo da reunião. E também o sonho de Bruno, que quer mudar a imagem das pessoas sobre o Capão e a periferia e não a periferia. “Dá vertigem olhar para a periferia; precisamos olhar mais de perto; uma realidade do que é bom”, afirma Bruno, que vive em um cômodo sobre parte da laje de um padaria artesanal comandada por seu irmão José Carlos na comunidade do Jardim Valquíria. “Que sentido a gente dá para esse espaço?, questiona Bruno enquanto puxa caixotes de bebidas para as pessoas sentarem atrás da caixa-d’água. “É muito interessante pensar um ambiente como a laje para entrar em alguns temas e assuntos”, responde o morador da rua Mario Pederneiras e que adotou o Capão no próprio sobrenome e é conhecido como Bruno Capão.

O sonho de ressignificar o espaço e falar sobre temas mais ásperos é o que moveu Bruno a reunir jovens em seu próprio quintal. O encontro deste domingo foi o quinto do grupo e reuniu 15 pessoas da comunidade, além de outros bairros da cidade. O desafio de Bruno é também conectar o centro com a periferia. “Você tem uma sinapse grande quando junta os diferentes. E eu chamo gente de fora para isso”, afirma. Mas o foco mesmo é fazer com a própria comunidade jovem encare e reflita sua realidade. “Como eu chamo um moleque para falar de violência? O jeito que eu encontrei foi arrumar minha laje e chamar para tomar um café, sem rotular um assunto. A gente quer falar de cultura de paz, discutindo violência que o Estado comete”. Essa foi a maneira que Bruno encontrou para, por exemplo, falar da letalidade policial que faz vítimas em sua maioria jovem, negra e periférica, nas mãos da polícia militar de São Paulo. “A gente precisa de uma política pública de segurança para manter as pessoas vivas. A desigualdade social é um vetor de violência”. Os encontros também extrapolam o debate e vão para a prática, como ocorrreu com Jonatan, que em um encontro passado dividiu seu dilema pessoal por ser um trabalhador do tráfico de drogas e, após entendimento e acolhimento do grupo, conseguiu fazer uma transição para o mercado de trabalho. Bruno ainda traz para os encontros exemplos de inspiração, como o de Emerson, 28, um ex-detento e que estava no encontro deste domingo. Ele ficou quatro anos preso, se recuperou e conseguiu se reinserir na sociedade mesmo com um forte preconceito por ter ficado no sistema prisional. “Existe uma cultura do medo e do preconceito que a mídia faz. É importante quebrar a ideia de que isso é falso. Que existem muros invisíveis e que precisamos fazer pontes” afirmou Emerson.

O próprio Bruno é também uma inspiração embora não goste muito deste rótulo. “Eu sou mais um sobrevivente”, referindo-se à ausência de oportunidades de educação, cultura e trabalho que atinge jovens do Capão Redondo e que o próprio também sentiu na pele quando mais jovem. “Acho que um grande caminho para aproximar periferia e centro hoje é assumir que nós não somos iguais. Que as oportunidades são diferentes”. Quando as oportunidades faltaram, Bruno teve apoio de uma ONG que o ajudou a se capacitar e investir em educação. Formado em gestão ambiental e sustentabilidade, já trabalhou como lixeiro, profissão  que fala com muito orgulho, e hoje toca diversos projetos, como os encontros da “Laje” e o “Lado B do Capão”, além de liderar um laboratório de inovação na região. Bruno gosta de ser chamado de “embaixador da rua” e quando questionado como será o Capão daqui 20 anos, responde pensativo: “Daqui a 20 anos eu não sei, mas espero que em 2020 a ONU volte aqui e reconheça o Capão Redondo como um patrimônio cultural da humanidade”, referindo-se ao estigma deixado pela organização que considerou o Jardim Ângela como a região mais violenta do mundo no distante 1996. É justamente essa esperança em ver o Capão e a periferia terem seu espaço reconhecido que faz esse jovem, negro e periférico, sair das estatísticas associadas à violência e se tornar um filho da Primavera Periférica que as grandes urbes vivem hoje. “Eu acho que a grande transformação do país vai emanar da periferia. E isso já aconteceu de alguma forma. Eu só estou somando a minha voz aos expoentes que já militam faz tempo e já estão na caminhada ressignificando a  narrativa”. Bruno sabe que a maior riqueza da periferia é sua gente e por isso luta para que toda a comunidade saia de suas vielas escondidas e casas sem reboco e ocupem as milhares de lajes para enfim se fazer ouvir de todos os morros e colinas da periferia. “A gente vai contar a nossa própria história”, finaliza.

Ticão e a escola

Do alto da colina de onde se pode ver o bairro de Ermelino Matarazzo e boa parte do extremo leste de São Paulo, habita um homem chamado Ticão. De estatura alta, Antonio Luiz Marchiori faz tanta coisa e para tanta gente que suas ações extrapolam a região e deixam difícil uma descrição simples sobre quem ele é. Mas sua liderança é marcante, assim como sua vontade de ajudar o povo. E é isso que ele faz há mais 40 anos. Ticão ajuda as pessoas fazendo escolas, arrumando empregos, ensinando saúde, elegendo políticos, praticando democracia, acolhendo trabalhadores, publicando jornais e, sobretudo, evangelizando. “O pessoal falava: esse padre aí não é padre, é político”, brinca o Pe. Ticão da comunidade católica de S. Francisco de Assis quando recebeu a revista Cidadanista para uma entrevista.

A multiplicidade de ações e resultados impressiona aos que imaginam uma igreja passível e com poucos fiéis. “Isso aqui é um vulcão” ao falar dos projetos como, por exemplo, o grupo de Whats App com rede de oportunidades para desempregados ou os encontros sobre saúde preventiva onde distribui sementes da Moringa Oliefera, uma planta medicinal originária da África. “Nós queremos doar de 30 a 40 mil sementes até o final do ano”. Os jovens também têm atenção especial com um convênio firmado entre a igreja e o curso Poli da USP, onde professores dão aulas em uma escola pública do bairro. “Um problema grave aqui é da juventude, sem trabalho, sem estudo”. Completam o portfólio social cursos de manicure, “É o bairro que tem mais portinha de cabeleireiro. Sabe como é, em época de crise, é preciso autoestima”, cuidadores de idosos e doação de livros. “Nós entregamos cerca de 15 mil livros nos últimos 10 anos,” pontua orgulhoso Pe. Ticão, que em todas afirmações, não deixa de lembrar da importância da fé e do evangelho. Da escola de D. Angélico é adepto de uma igreja mais transformadora que conscientize o povo e o liberte. “A Igreja católica se dedica muito à devoção, mas tenho a esperança de que a Igreja precise dar um tom diferente, as pessoas precisariam se abrir mais, precisariam avançar mais”. Pe. Ticão critica o excesso de mercantilização atual das comunidades. “A fé faz milagres, não negócios”, e acolhe movimentos políticos como o MCC, movimento de Mandatos Coletivos Comunitários, além de estimular candidaturas de líderes da comunidade. Nas últimas eleições municipais, três candidatos tentaram se eleger, mas perderam. “A gente está em um momento de baixa muito grande e não temos referências ou lideranças para entusiasmar o povo. Nós estamos em uma situação muito dramática”, afirma em tom de desânimo.

Mas o desalento com a política logo cede espaço ao ânimo em falar sobre uma das grandes vedetes da comunidade, a escola de Cidadania (com unidades aqui e em outros bairros). “Isso aqui virou um point. Porque a gente fez uma cantina e no começo tinha até cerveja”, sorri o padre. “A gente se reúne todas as sextas-feiras, de março a novembro, e no final do curso a Universidade Federal de São Paulo dá o certificado”. A próxima turma começou no último 3 de março e terá exigência de apresentação de trabalho de conclusão de curso e espera mobilizar 500 pessoas neste ano. A escola foi lançada há seis anos com o objetivo de debater a cidadania. “O povo começa a entender que cidadania é uma conquista, uma luta”. Na grade curricular, são convidados líderes, professores, cientistas políticos e o próprio poder público para fazer refletir os direitos e oportunidades das pessoas. Pe. Ticão adianta que um dos eixos temáticos do primeiro semestre será o Plano de Metas para a Periferia 2017-2020 e que vai discutir o direito pela cidade. “O mundo vai acabar em reunião”, brinca o sorridente Pe. Ticão na esperança de ver seu trabalho fazer nascer a consciência da política voltar a ter seu real significado na periferia, onde o poder deveria emanar do povo

Tony e a política

Fazer política nunca esteve nos planos de Tony. Morador do Campo Limpo, Tony Marlon é empreendedor social da periferia e criador do Escola de Notícias, um projeto que ensina e capacita jovens em comunicação para que eles próprios contem suas realidades e narrativas por meio do jornalismo. “Eu desenvolvi uma metodologia para ensinar comunicação para jovens”, conta Tony ao chegar para entrevista na redação da Cidadanista em São Paulo. Sempre muito elétrico, ”Se eu fugir da sua pergunta, você me traz de volta”, Tony se considera um privilegiado por ser branco e homem na periferia, mas é consciente das condições adversas do meio em que vive e teve que correr atrás do seu. Como todo empreendedor, é um ser inquieto e grande parte da sua trajetória se deve a esse questionamento com o status quo. “Eu descobri que a lógica de educação formal não funcionava para mim. Eu era do fundão e sempre achei que a escola não falava com a minha realidade. Quando eu cheguei à universidade eu não sabia o que era ditadura militar”. Essa busca fez Tony crescer e buscar seu próprio caminho. E assim ele criou novos projetos, formulou modelos de negócios e empoderou novos líderes comunitários. Tudo isso acabou por gerar um reconhecimento na formação de jovens da periferia e o tornou uma referência e uma liderança. E foi exercendo essa liderança e atuando com educação e comunicação que, sem perceber, Tony fazia também política. E hoje esse é o terreno que merece suas atenções.

“Quando saí da escola de notícias, decidi que queria fazer coisas que mexessem em estruturas. Quero me dedicar a isso agora e a bancada mexe em estrutura”. Tony fala da Bancada Ativista, um movimento que ajudou a fazer nascer desde o início, em 12 de junho de 2016, em São Paulo, e que tem como lema a frase: ’se você não gosta de política, vai ser governado por quem gosta dela’. A Bancada Ativista tem como objetivo levar cidadãos para dentro da política, elegendo candidatos que representem efetivamente os eleitores e que renovem a política institucional, fujindo dos vícios da política tradicional. É um movimento suprapartidário que elege ativistas e lideranças para ocupar o Legislativo. Na última eleição, a Bancada aglutinou diversos candidatos e conseguiu um total de 73.355 votos para os 8 candidatos que se filiaram em diferentes partidos, como a REDE e o PSOL. Todos tinham linhas programáticas que conversavam com a periferia e as minorias. Conseguiu eleger a atual vereadora Samia Bonfim pelo PSOL para a Câmara de Vereadores de São Paulo e tem planos de atuação para a bancada federal em 2018. Mas segundo Tony, além de eleger candidatos, um dos grandes objetivos da Bancada é fazer as pessoas se reencantarem pela política. “O lançamento foi propositalmente no dia 12 de junho e todo o diálogo era pelo: “reapaixone-se pela política”. E deu certo, o discurso do “Isso que está aí são os políticos, não é política” é a estratégia que Tony e a Bancada usam para diferenciar a atual crise política de representatividade da necessidade de atuação de todos para mudar a realidade. Como não poderia deixar de ser, Tony está usando o ferramental que conhece bem, a comunicação e a educação, para poder ser compreendido pelas pessoas. “A gente tem falado que a Bancada Ativista é um processo pedagógico”, finaliza o esperançoso Tony, que em princípio não tem planos para candidatar-se a algum cargo eletivo, mas sabe do movimento que representa, um movimento maior que ele, o movimento periférico. Uma onda e uma força que emanam das margens da cidade para ocupar o território e o protagonismo e assim fazer o impoderável acontecer: a Primavera Periférica florescer e dar frutos na quebrada.

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